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quarta-feira, outubro 26, 2016 Sha Capell 0 Comentários


Descobri que sou assexual arromântica não faz muito tempo - por volta do final de 2014 - e foi a melhor descoberta da minha vida. Antes de entender o que sou e que existem outras pessoas como eu, havia sido erroneamente levada a pensar que eu tinha algum 'defeito'. Já havia tentado namorar duas vezes com a expectativa que eu viesse a realmente sentir algo, porém em ambas tive um fracasso retumbante. O simples ato de pensar que eu tinha que beijar meu namorado me repugnava (era chato, mecânico e parecia que era a única coisa que ele queria fazer) e demonstrações românticas me pareciam vazias e tediosas. 


Minha melhor amiga, que sabia tudo aquilo que eu estava passando, descobriu e me apresentou o conceito de demisexual, o que trouxe uma luz para minha vida, mas ainda não era isso. Descobri então um fórum americano (AVEN) que finalmente me ajudou a achar minha definição nesse mundo (fale o que quiser de rótulos, mas quando você sente que não se encaixa em nenhum lugar, nada melhor do descobrir que existe uma comunidade que se sente exatamente como você) e pouco a pouco estou abraçando esse meu lado, enquanto aprendo a desconstruir ideias - que o mundo prega tão veemente - sobre o casamento e relacionamento como fonte de felicidade, porque, na verdade, nunca acreditei nelas mesmo.


- Rai


Eu sempre me achei diferente. Achei que era adotada porque minha família toda é sexualmente ativa e eu não. Cedi a pressão da sociedade na adolescência e me achava esquisita, pensava que tinha problemas por não ser igual a maioria. Um dia falei para minha mãe, mas ela não acreditou e não ligou pois tive dois filhos. Hoje faz um ano que não pratico e as pessoas ao meu redor me acham esquisita, algumas me taxam de homossexual ou traumatizada, fazem pressão para que eu me relacione. Falo que sou feliz assim, mas não acreditam. Quando casei era infeliz porque me obrigava a ser 'normal' e isso fez com que o meu casamento acabasse não por falta de amor, foi por falta do meu interesse em sexo.

- Lais 


Desde minha fase transitiva, pré-adolescência e adolescência, eu percebia que havia algo diferente na minha natureza sexual. Eu via meus amigos dialogarem sobre sexo, namoros, e por algum instante eu percebia que nossas crenças/desejos eram diferentes. Eu olhava ao meu redor e percebia que todos que eu conhecia tinha desejos sexuais e até praticava o ato, e eu me questionava o porquê eu não tinha aqueles desejos em meu interior. Meus amigos e professores sempre me incentivavam a prática ou até mesmo arrumava parceiras para minha pessoa, mas no final das contas não acontecia nada. O tempo se passou e hoje estou com 21 anos de idade. Evolui tanto físico quanto psicologicamente, mas o desinteresse no sexo ainda continua o mesmo. O que mais me constrange nessa história não é por ter esse comportamento perante o sexo e sim por ter que mentir, inventar uma série de fatos mentirosos constantemente só pra parecer que estou nos padrões pois temo e sei que a partir do momento que eu revelar minha verdadeira identidade sexual, certamente sofrerei insultos. 


- KV


Sempre achei que eu fosse anormal por não gostar de sexo. Desde adolescente até os dias de hoje, mas dificilmente me abria com alguém. Tive namorados, tenho dois filhos, fazia as coisas pelo parceiro, não por mim, e depois me sentia muito mal. Durante o dia, eu torcia para discutir com meu marido para ter uma desculpa de não ter nada com ele. Hoje em dia vivo com uma pessoa que é um excelente pai, marido, mas por mim só em estar junto com ele já me basta. Como ele não desconfia de nada, de vez em quando eu cumpro com o papel de esposa. Já pensei em me separar e não precisar mais ter que fazer sexo com ninguém. Fiquei feliz em saber que não sou só eu assim.


- Alexandra


Achei interessante o tema. É um assunto que parece novo, mas acredito que é tão antigo quanto a existência da humanidade. Sempre vivemos e convivemos com o desconhecido, muitas vezes, justificado e criado pela própria cultura. A sociedade contemporânea, acredito que não é diferente da antiguidade. Criou normas e regras, dentro de um contexto humano limitado e fragmentado, sendo o humano um ser ilimitado e indivisível. O sexo foi sempre o centro de discussões em todos os tempos, pois foi e através dele que garantiu a perpetuação da espécie. A grande questão da sexualidade foi a questão da moral, do proibido e do permitido. Acredito que nesse sentido, é o ponto que mais pesa hoje na sociedade. O autoconhecimento da própria sexualidade é ponto fundamental para a juventude no seu livre arbítrio fazer suas escolhas livres e responsáveis diante da escolha e serem felizes com a escolha que fizeram. Pois somos seres livres e aspiramos a liberdade plena. Nas minhas reflexões, descobri que o amor é uma forma de viver a sexualidade sem o ato sexual. 


- Josemar



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