Eu não sei de onde vem esse potencial para criar tantas bobagens sobre a sexualidade humana. É incrível como pequenas coisas passam da teoria para realidade sem o menor esforço. Aqui no site já venho falando sobre muitos mitos. Ultimamente tenho falado sobre o problema do desenvolvimento intelectual e físico contra o “desenvolvimento” sexual. Puro mito. Mas ainda não terminamos com o assunto. Hoje vamos falar sobre a libido e em breve falaremos sobre a “necessidade sexual”.

Bem… o que exatamente seria a libido? Libido é uma palavra latina que quer dizer basicamente desejo. Freud foi o primeiro a definir a libido como uma energia-desejo sexual que rege nossa vida. Em seguida alguns outros psicanalistas como Jung definiram a libido como uma energia psicológica responsável pelo seu desenvolvimento.
A libido analisada por Freud, Jung e ouros é apenas uma teoria psicanalítica… teoria. Não há muito o que fazer com isso, a não ser discutir e teorizar.
Bem… sempre alguém arruma um jeitinho de manipular as coisas para seu próprio bem. Então com o tempo a libido passou a ser definitivamente uma mistura entre desejo subjetivo, excitação sexual objetiva, empolgação e determinação e desempenho sexual satisfatório. Em outras palavras:
- Sentimento de vontade/desejo que sentimos;
- + O processo fisiológico de excitação sexual (ereção, lubrificação, batimento cardíaco, disposição química-neural, etc);
- + A energia/disposição para buscar o ato sexual (”fogo”, na língua popular);
- + Desempenho estável no ato sexual (não broxar, perder a excitação, etc);
Observe que não é algo simples. Nem Freud com sua fixação imaginaria que a humanidade transformaria sua teoria em algo tão macabro.
Para entender melhor vamos dividir o processo sexual em etapas:
Desenvolvimento psicológico:
- Nas cimento e maturação dos órgãos sexuais;
- [Paralelamente] A criança está em intenso nível de sugestibilidade;
- [Paralelamente] Começa a absorção de pulsões comunitárias e individuais de acordo com seus valores;
- [Seguinte] Estimulação, constatação e aprendizado da reações sensitivas subjetivas eróticas;
- [Paralelamente] Educação moral;
- [Seguinte] Instalação, constatação e desenvolvimento do moderador comportamental pela educação moral;
- [Paralelamente] Neutralização das pulsões (ex: violência brutal) desprezíveis pela educação moral;
- [Paralelamente] Instalação das pulsões sensuais morais (ex: comer) no consciente;
- [Paralelamente] Instalação das pulsões sensuais imorais (ex: pedofilia) no inconsciente;
- [Seguinte] Estabelecimento do conjunto comportamental chamado “Eu”.
Desenvolvimento do ato:
Aqui vamos considerar uma pessoa comum que passou por todo o processo de desenvolvimento psicológico descrito acima.
- Estimulação erótica-sensual por imagem, som, ideia, toque (de uma pessoa);
- Condensação da projeção erótica-sensual sobre um objeto (uma pessoa);
- [Paralelamente] Projeções fantasiosas de momentos estritos, cenas “congeladas” e ideias para emulação/indução do sentimento de bem-estar/prazer;
- Constatação do objeto como catalizador/desenvolvedor da realização da projeção erótica-sexual (refluxo do estágio 4 e 9 no desenvolvimento psicológico e da transgressão);
- Re-condensação da projeção erótica-sensual sobre um ato ou um conjunto de atos realizados com/pelo objeto (uma pessoa);
- Reação fisiológica e psicológica espontânea de excitação sexual diante da percepção ou imaginação do objeto;
- Pulsão inconsciente pela realização do ato ou conjunto de atos que se exterioriza como um forte sentimento de desejo incompreensível, implacável e pouco controlável;
- Conjunto de realizações necessárias para “posse” e “uso” do objeto conforme estimula a pulsão;
- Realização do ato ou conjuntos de atos;
- Estado de ponto neutro, negativista, frustração, cinismo, expectativa ou positivista.
Explicando o 10º estágio:
- Ponto neutro teoricamente não existe;
- Ponto negativista: quando a realização e/ou os efeitos da realização trazem prejuízos emocionais e até físicos;
- Ponto de frustração: é quando a projeção foi maior do que o efeito obtido;
- Ponto de cinismo: quando a pessoa por inúmeras razões deixa de se frustrar com efeito efêmero ou com os efeito negativo da realização do ato ou conjunto de atos e perpetua-se fazendo-os para a realização de uma frustração primária (ex: afirmar a própria masculinidade, se sentir desejada, etc);
- Ponto de expectativa: Quando a relação não satisfez a pulsão, mas também não frustra, deixando a expectativa de uma nova relação satisfatória;
- Ponto positivista: Quando a realização e os efeitos da realização são satisfatório, teoricamente(!) existe.
O termo “falta de libido” se estabeleceu genericamente como qualquer indisposição ao ato sexual. Mas na verdade, como vimos anteriormente, é muito mais complexo. A “falta de libido” ocorreria na verdade em algum estágio do Desenvolvimento do ato. O Desenvolvimento do ato está intrinsecamente relacionado com o Desenvolvimento psicológico (da sexualidade).
Se qualquer coisa “der errado” no Desenvolvimento psicológico todo o Desenvolvimento do ato ou algumas partes dele ficarão prejudicadas.
Quando falamos de “falta de libido” soa como se estivéssemos falando de algo material. Como se a libido realmente existisse em algum lugar do corpo. Mito. Libido é o mesmo que desejo. E desejos são subjetivos. Desejos são criados pela formação educacional humana.
O desejo sexual é criado? Sim. Mas na verdade a melhor palavra seria catalizado. Um desejo que não é criado é instintual, ou seja: uma reação instintiva. Todos os nossos desejos realmente instintuais são necessidades. Seu corpo não viveria bem sem a satisfação dessa necessidade. Existem fortes reações do “desejo” instintivo no caso da fome, evacuação, sono, medo, etc. Não existe nenhuma reação fisiológica diante da suposta necessidade do ato sexual.
Se sexo fosse uma necessidade (como muitos acreditam) teríamos algumas reações fisiológicas evidentes no nosso corpo. Se as reações fossem puramente psicológicas então não seria possível “adestrar” essa pulsão como muitos padres, monges e tantos outros fazem. Muitos também utilizam o exemplo da isolação social para provar que o contato sexual é importante para o equilíbrio mental. Ledo engano. Em diversas culturas pessoas viviam completamente isoladas da humanidade. O problema nunca foi a isolação social, mas sim suas motivações e a dependência psicológica do grupo no indivíduo.
Basta que alguém não tenha relacionado o sexo ao prazer, ou o prazer à satisfação (satisfação e prazer são coisas diferentes), para que todo o conjunto da sexualidade desmorone!
É muito comum que pessoas com grande repressão sexual façam forte relação entre sexo e prazer e em alguns casos com sexo e satisfação. Por isso, na antiguidade as mulheres histéricas demonstravam uma promiscuidade ou pulsão sexual muito maior que os homens. As bruxas (que em quase todos os casos eram conhecidas pela sua promiscuidade sexual) existiam em número infinitamente maior que os homens.
Ora, se a própria estrutura fisiológica do homem e sua educação machista favorecem a promiscuidade e a pulsão sexual… porque era as mulheres que histericamente demonstravam-se devassas?
Obviamente não existe um Desenvolvimento formal do ato e da psique sexual das pessoas. Esse adestramento é feito de forma indireta. Ninguém coloca o menino no colo e diz: “Filho você é homem, macho! Deve gostar de mulheres. Deve sentir tesão ao vê-las. Deve querer enfiar seu pênis nelas e projetar grande prazer e satisfação”. Mesmo que fosse feito… nada aconteceria.
Quando um comportamento social se torna absoluto numa sociedade ele passa a se compreender como natural. Seja o que for. Compreendendo algo com naturalidade as pessoas passam essa informação adiante de forma automática e involuntária. É que acontece com o consumo. A Coca-Cola não é a melhor bebida do mundo. Não há razão para a maior parte da população adorar essa bebida. Mas mesmo assim ela é o 2º líquido mais bebido no mundo.
A viagem da Coca-Cola é curtinha… mas a viagem humana é milenar. Quando e como tudo começou, ninguém sabe.
Mas voltando ao ponto central. Quando uma mulher fala que acha que está “com baixa libido” é bom saber que ela pode estar com “problemas” em qualquer uma das etapas do Desenvolvimento do ato. Ou seja… ela pode até mesmo não conseguir se excitar sexual pela imagem, ideia, som, etc. É evidente que fatores fisiológicos também podem influenciar. Assim como influenciam em qualquer outro desejo.
Existem problema de saúde (física) bem específicos que podem neutralizar toda a excitação fisiológica, posteriormente afetando a excitação psicológica. Mas tais problemas praticamente sempre surgem na fase adulta, quando a pessoa já teve relações sexuais e percebe que tem algo errado. Além do mais é muito improvável que um problema desse tipo afete especificamente o desempenho da excitação sexual. Não me lembro de algo específico que afete crianças. Mas em todo caso é sempre bom procurar ajuda médica diante de alguma anomalia.
Em resumo a libido não existe. O desejo é algo subjetivo. O desejo sexual existe em potencialidade mas precisa ser desenvolvido (especialmente na infância). O desempenho do desejo sexual vai depender do ambiente, estado mental e logicamente de com quem se está fazendo sexo.
Se houve algo “errado” na educação sexual de uma pessoa, ela poderá demonstrar um comportamento anormal. Por exemplo só sentirá excitação por alguma parte específica do corpo, ou se se agredirem durante a relação, etc. Logicamente não existe algo certo ou errado… apenas anormal, dentro da relação sexual. Também é possível que a pessoa não desenvolva completamente sua sexualidade. Ou seja, permanece assexual (crianças já são assexuais por natureza).
Em outros casos a educação sexual não consegue penetrar plenamente na pessoa e pode gerar oscilações de personalidade. Assim a pessoa passa a demonstrar interesse sexual em períodos irregulares ou simplesmente ir diluindo sua sexualidade com o tempo pela ação do ambiente ou por uma ação direta de rejeição.
Vale destacar que interesse sexual não é a bobagem que as pessoas imaginam! Eu já ouvi tantas besteiras sobre o que seria o interesse sexual que daria para escrever um livro, principalmente entre as mulheres! Não é necessariamente interesse sexual: querer sair para dançar; admirar aparência, inteligência, sabedoria ou qualquer outra qualidade subjetiva ou objetiva de outra pessoa; sentir vontade de ficar junto de alguém; sentir vontade de abraçar/apertar; ter vontade de dormir junto; etc.
Na verdade todas as coisas devem ser analisadas com muita seriedade. Por exemplo: o desejo de ficar junto de alguém, ou o desejo de querer abraçar ou mesmo o desejo de dormir junto de alguém pode (e provavelmente irá) expressar o sentimento de segurança que aquele pessoa lhe proporciona. Segurança não é tesão!
Bem meus caros… espero que esse texto tenha sido esclarecedor. Poderíamos falar mais sobre o assunto. Mas fica aberto o espaço para perguntas e sugestões. Até a próxima.

p.s.: Antes que alguém pergunte sobre a eficácia dos “remédios” para melhorar a libido. Tanto os fármacos quanto os naturais devem atuar sobre o sistema nervoso, o estimulando. Ou seja: a pessoa aumentará sua sensibilidade, disposição, humor, etc. Logicamente ela ficará mais disposta… até mesmo para uma partida de xadrez. Em outros casos o nível de estimulantes é muito intenso. A pessoa não consegue se concentrar em atividades calmas e se impulsiona para atividades exaustivas. Nesse caso a busca pelo sexo é apenas por auto-sugestão, a pessoa estará apta a praticar qualquer atividade exaustiva e emocionante.
Remédio algum atua sobre a libido porque ela não existe. Contudo é bem provável que o remédio tenha um efeito placebo. Age por sugestão. Assim como uma pílula de farinha que passa a dor de cabeça, a “pílula do tesão” age engando a pessoa. No máximo ela agirá como um energizante proporcionando maior disposição para aquilo no qual já se está engajado por conta própria.
Tratamentos sem o uso de remédios atuam sobre um bloqueio psicológico sobre a excitação sexual. Que é essencialmente o mesmo processo que se usa para “desbloquear” qualquer pessoa ou tratar uma fobia, nada mágico ou especial. Em outros casos o “tratamento” consiste essencialmente em fazer a pessoa sentir prazer (por técnicas relativamente simples) e sentir mais vontade de ter prazer. É como dar uma droga e esperar que a pessoa peça mais, o efeito é quase inquestionável. Em muitos casos o tratamento é feito com o “destravamento” mental, remédios estimulantes/excitantes e a estimulação num quase-vício. Uma técnica quase infalível.
Em geral a lavagem cerebral… digo… tratamento falha quando na infância a pessoa não teve uma forte educação sexual. Sem a educação essencial a pessoa pode até apresentar algum interesse, mas será efêmero.
O tratamento adequado em todos os casos deveria ser a auto-análise. Que se feita com um bom profissional, não tendencioso, irá revelar as mentiras e os auto-enganos. É muito improvável que uma mulher ou homem que faça auto-análise continue acreditante que seu problema é de impotência ou falta da libido.