Matando a saudade

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Um dos aspectos mais intrigantes do sexo (e de alguns outros intentos sexuais) é a sua incrível capacidade de se tornar um rito de passagem ou complexo de realização. Já vi a mesma história milhares de vezes na minha vida: duas pessoas sentem profunda falta um do outro e matam essa saudade quando se encontram e fazem sexo.

Como minha mente não parece funcionar majoritariamente em cima das convenções normais não adotei o sexo como um elemento de percepção (transitória) na minha vida.

O que me deixou e deixa confuso sobre sentir a falta de alguém. Porque a percepção de uma realidade não é sempre instantânea… principalmente quando falamos da presença não só física mas também emocional, afetiva e intelectual de outra pessoa. Muitas vezes essa percepção se dá através de gatilhos que ativam ou ligam ideias ao ponto em que aceitamos ou percebemos uma dada realidade.

Sentimos falta de alguém pela sua (óbvia) ausência. Não estritamente física, mas sim de todo seu conteúdo intelectual, emocional, afetivo, etc. Precisamos sentir para acreditar. Não importa a presença física-geográfica, mas sim o contato direto dos intelectos, emoções e afetos. Quanto mais profundo for esse contato mais consciência teremos dessa realidade.

Interessantemente minha percepção dessa realidade leva um tempo consideravelmente maior do que o das demais pessoas – ao menos pelo que aparentam. Já que eu não recorro aos recursos transitórios-sexuais para “matar” essa saudade. Logicamente existem ritos e complexos comuns como abraços, apertos de mão, palavras de saudação entre outras coisas que também possuem uma função análoga, mas não possuem a intensidade dos envolvimentos sexuais. Principalmente quando tais atos afetivos não pretendem criar um envolvimento sexual e a cópula.

Aqui também acontece uma certa emulação. Já que o mesmo ato – abraços, beijos, etc – possuem efeitos completamente diferentes pela sua intenção sexual. Logo o conteúdo e seu efeito psicológico não está necessariamente no ato em si (ao menos para tais envolvimentos não genitais), mas sim no seu conteúdo (de intenção) psicológico.

Acredito que os princípios emocionais são basicamente sempre os mesmos. E portanto os mecanismos neurológicos também. Os mecanismos hormonais e psicológicos que trarão essa percepção da realidade parecem ser os mesmos para envolvimentos sexuais ou não sexuais. Mas existem três fatores diferenciais: conteúdo pré-estabelecido, conteúdo estabelecido e efeitos hormonais.

Os conteúdos pré-estabelecidos são aqueles majoritariamente pré-programados, instintivos. Eles já existiam em considerável manifestação espontânea antes mesmo da nossa consciência própria. O conteúdos estabelecidos são aqueles inseridos em nossa mente pelo ambiente social. Isso é, família, amigos, mídia, etc. Aquilo que aprendemos ser significativo, bom, satisfatório, produtivo, etc. E por fim os efeitos hormonais sobre os quais pouco sabemos. Mas que parecem exercer o papel principal nessa história.

A única comparação que posso fazer, para que fique claro, é entre drogas e sexo. O nível de “envolvimento” entre usuários e a droga é proporcional ao nível de hormônios de satisfação e condicionamento. Quanto mais “pesada” for a droga mais envolvido estará o usuário e mais complexa e custosa será sua abstinência. Ou seja… o usuário morre de saudades da droga. O que pode facilmente ser resolvido… com uma nova dose… que trará novamente todo o envolvimento e satisfação de antes, nas mesmas categorias emocionais. Instantaneamente – por assim dizer – uma única dose é capaz de matar essa saudade tão pulsante do usuário.

O usuário não precisa da presença física-geográfica da droga para se sentir preenchido. Ele precisa sentir/usar a substância, como que tornando-a parte de si mesmo. Como que ingerindo, comendo. Não quero com isso dizer que pessoas sexuais tratam seus parceiros como objetos de prazer. Apenas estou mostrando as óbvias analogias.

Até mesmo porque o processe de realização não-sexual entre pessoas usa basicamente o mesmo mecanismo, diferenciando na intensidade (talvez) provocada por diferentes mecanismos de satisfação. É como se eu tomasse a cada dia uma fração consideravelmente pequena da mesma dose da mesma droga que uma pessoa sexual toma regularmente várias vezes num dia.

Mas isso tudo é apenas uma reflexão. E sinta-se livre para fazer a sua.

Até a próxima.

:*

O auto-engano como pseudo-vida

O Bruno nos enviou um email com uma situação bastante interessante:

Pessoal

Tenho uma pergunta que para mim é muito séria, e gostaria de ser respondido o mais rápido possivel.

Eu tenho 26 anos e não me sinto atraido por nenhum endividuo (homem ou mulher), as vezes tenho sonhos erótico e ate pratico a mastrubação ao ver um vídeo, mas isso acontece muito raramente. As vezes sinto falta de uma pessoa do meu lado, mas fico muito tempo sem pensar nesse assunto.

Existe muita presão de amigos e parentes pelo fato de ainda ser virgem, alguns até me roturam como gay, mas não me sinto atraido por ninguém. Por outro lado tenho o desejo de formar uma familia e ter filhos, mas não me imagino se relacionando com alguem.

Será que eu poderia ser um assexual? Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual, será que isso é assexualidade?

Aguardo resposta!

Att

Já recebi comentários e emails de várias pessoas em situações parecidas com a do Bruno. Mas ele sintetizou tudo de uma forma simples e objetiva.

“Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual”, que tipo de pessoa é essa?

O Bruno fez uma grande confusão aqui… Primeiramente é bom repensar o que é prazer. Eu não gosto desse termo. Prazer é uma palavra muito vaga. Poder ser qualquer coisa. E quando falamos em prazer logo associamos a algo agradável. E não é bem assim. Alguns narcóticos produzem prazer e mesmo assim boa parte da população os repudia, mesmo conhecendo seus incondicionais efeitos.

Por isso prefiro o termo satisfação. Por ser uma palavra que envolve uma perspectiva mais holística do que prazer. O que as pessoas (em geral) buscam no sexo não é prazer. Se assim fosse elas usariam as drogas. As pessoas buscam a satisfação Tanto que muitas pessoas fazem sexo, mesmo sem orgasmo, e ainda assim se sentem totalmente satisfeitas.

Então a primeira coisa que você deveria fazer é reavaliar se o sexo é uma emoção de prazer ou sentimento de satisfação. O orgasmo em si parece produzir algum tipo de prazer. Mas isso não necessariamente quer dizer que você gosta de todo o processo. Isso é o ANTES (tudo que te leva ao desejo e a efetuação da masturbação ou de qualquer ato sexual até a preparação para o ato), AGORA (o processo do ato propriamente) e DEPOIS (o momento posterior ao orgasmo ou que seja entendido como o termino do AGORA).

Todo esse processo (do ANTES, AGORA e DEPOIS) é extremamente complexo e não tem um momento certo para começar ou terminar. Na verdade ele é fluído, acontece durante toda sua vida ou mesmo paralelos a outros processos sexuais.

O que você pode fazer é analisar suas motivações (ANTES), atos (AGORA) e reflexos (DEPOIS) e então tirar uma conclusão: isso me satisfaz?

Cada pessoa passa por um processo único. Por isso é perda de tempo olhar para as receitas prontas da mídia. Algumas pessoas dizem que se sentem péssimas após o sexo (DEPOIS). Outras dizem que adoram todo o jogo das conquistas e as palavras sugestivas (ANTES), mas que não suportam o sexo propriamente dito (AGORA). Outros dizem que realmente não importam com o ANTES ou com o AGORA, desde que elas se sintam bem no DEPOIS.

E muitos nem ao menos fazem essa reflexão. Enquanto outros escondem a própria verdade.

Todas as suas experiências sexuais foram com a “auto-experimentação”, a masturbação. Você (o que inclui uma “extensão” sua como a imaginação) foi o objeto causador, realizador e contemplador da sua experiência sexual. Logo não se trata de você e outro ser humano, mas sim… você e você mesmo.

Sendo assim, até certo ponto, você não sabe o que é sexo inter-pessoal. Todas as suas concepções são projeções daquilo que você já experimenta. O que você deseja não é necessariamente o sexo. O que você deseja é um projeção do que você imagina ser o sexo.

Na verdade essa projeção é tão bem estruturada e alimentada que facilmente passa desapercebida como algo real. Assim é possível que você nunca saia desse ciclo de projeções emocionais de desejo e satisfação. Vindo a fazer sexo… e dizer que adora… dizer que fica louco na cama… ou seja lá que expressão ultra-satisfatória você encontre.

Mas é claro que não se tratando de algo real – isso é condizente com o que você realmente sente, deseja, experimenta, gosta, etc. – irá lhe prejudicar, mesmo que seja de uma maneira imperceptível a curto prazo.

Então… “Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual”, que tipo de pessoa é essa? É você?

Namorar e ser virgem não tem qualquer relação com a assexualidade. Não conseguir imaginar-se num ato sexual também pouco diz por si só. E como disse antes você precisa refazer a sua avaliação sobre suas experiências com a masturbação.

Agora, é lógico que você é uma pessoa oprimida. Aos 26 anos é homem e virgem. Tudo e todos te oprimem, dizem que você é inferior, é nada. E você faz uma re-projeção num dos mais velhos arquétipos de realização e sucesso: a família. Ainda assim você acha impossível… porque família implica em sexo. E o ciclo continua sem fim.

Como parar com isso?

A resposta é bastante simples. Liberte-se e padrões e expectativas. Compreenda que você não deve ser aquilo que seus “amigos” dizem, ou o que a mídia induz. Você não precisa comprar os produtos da moda, assim como não precisa comer a mesma comida. Você pode fazer a sua vida. Sem rótulos, padrões, pré-conceitos, etc.

“Mas como fica a questão da assexualidade?”, você deve ficar se perguntando. Como tudo. Você só precisa analisar. Não precisa se encaixar em rótulos, definir-se em padrões. Só precisa analisar. Isso me faz bem? Devo continuar fazendo isso? Até onde isso me trouxe? Estou satisfeito com que faço? Estou satisfeito com o futuro ao qual isso me leva?

Viver dá trabalho, meu amigo.

Boa sorte. ;)

Bem… e se…?

O sexo é algo que mexe com quase todas as pessoas pessoas. Não pela mecânica da excitação sexual e do orgasmo. Mas sim pelos seus valores e significados que não são claros, mas estão há tanto tempo na nossa sociedade que muitas vezes não são questionados.

Você até então não teve interesse por sexo… sempre achou algo banal… algo irrelevante para um relacionamento. Até que seu pensamento começa a mudar. Mas novamente de uma maneira não muito clara. Você começa a imaginar como seria importante ou significante fazer sexo com alguém que você gosta muito, ou com alguém que potencialmente você gostaria muito. Ou mesmo com um desconhecido ou com um amigo colorido…

Então você começa a se questionar: será que realmente não gosto de sexo? Será que vou gostar? E se eu não gostar?! Será que vou ficar dependente disso? Será que não conseguirei mais viver sem sexo?… Realmente é uma situação confusa.

Mas talvez você nunca tenha parado para pensar no esse desejo quer dizer…

Vamos pensar um pouco. Será que seu desejo tem fundamento? Suponto que seu interesse inconsciente seja pelo prazer… o que faz você pensar que o prazer sexual é tão poderoso assim? Até uma montanha russa pode provocar um conjunto de emoções muito mais intenso! Qualquer droga “ilícita” pode criar um prazer incomparável… e eu não acho que você tenha uma fixação em montanhas russas e espero que não use drogas.

Pense bem… é o prazer que você procura? É lógico que não. Então… o que seria?

Poríamos ficar falando aqui sobre as mais diversas ilusões que nos (assexuais) fazem sentir um estranho desejo por sexo. Mas eu acredito que existe dois grandes fatores:

Rito de passagem; o rito de passagem pelo sexo é uma das coisas mais antigas que a humanidade já inventou. Ele foi perdendo suas formas mais espalhafatosas, mas foi progressivamente vez se infiltrando mais e mais dentro da nossa mentalidade comum. O que antes era um evento extremamente organizado e evidente hoje faz parte da vida de uma maneira que nem percebemos.

Logicamente esse é um rito desnecessário, como tantos outros. Mas até o momento em que o identificamos e o neutralizamos ele fará parte de nossas vidas e até certo ponto nos controlará.

Quase todos os produtos da nossa sociedade usam o sexo em algum aspecto. Até comerciais de colchão usam sexo para vender! É um ciclo vicioso, impessoal e incontrolável.

Na prática tudo se transforma numa grande pressão inconsciente sobre nós, e por nós me refiro a todas as pessoas. Então oprimidos por vocês que não sabemos a orgiem… e não sabemos suas formas… somos acuados e fragilizados.

As pessoas reagem das mais diversas maneiras diante de todo esse processo. Muitos entram em depressão, outros se matam (literalmente) e tantos outros sentem uma forte pulsão pelo sexo. Sem falar nas parafilias mais diversas que podem se desenvolver.

Valor emocional-relacional; no caso do rito de passagem, dito acima, a pessoa idealiza o sexo como um obstáculo/evento que acontecerá… e muitas vezes nem consegue imaginar aquele mesmo evento acontecendo 3 vezes ao dia… todos os dias durante quase toda a vida. Outros já conseguem…

Esses encaram o sexo como algum objeto de valor nas suas vidas. Enquanto uns imaginam que uma vez perdendo a virgindade poderão enfim ser felizes… outros encaram o que chamamos de “vida sexual”. Bem… se realmente o sexo tem tantos valores para você… tudo bem. Faz sentido que você o desej tanto. Mas o problema é justamente se esse valor realmente existe e se ele é real!

Ou seja… se você realmente pensa dessa maneira, ou está apenas projetando algum outro problema sobre o sexo. E se esse valor é coerente com o que você é.

Pense nisso! ;)

E sempre lembre-se que a frustração por não fazer sempre é bem menor do aquela pelo que foi feito e é irreversível. Por isso… tenha calma.

duas da manhã, por ela

Bem, são duas horas da madrugada… acho que ele já está dormindo. Agora posso ir… ou é melhor ficar por aqui mesmo? E se eu não for? O que ele vai pensar quando acordar?

O quarto é tão frio e sombrio. Nenhuma luz, apenas alguns reflexos da lua. Eu me aproximo da cama… tento fazer o menor barulho possível. Parece que Ele está dormindo. É… parece que sim… posso respirar agora.

Mas é melhor esperar um pouco… meu corpo quente pode acordá-lo. É melhor deixar meu corpo se esfriar. Olho para o criado mudo para pegar uma revista e vejo a gaveta um pouco aberta. Apenas documentos… mas algo me disse que deveria olhar mais cuidadosamente…

Um DVD. Algumas pessoas na capa… mas eu não conseguia identificar. Me aproximei da janela… e o conteúdo era óbvio. Eu sabia que Ele assista essas coisas… mas não sabia que ele teria coragem de trazer para casa. Para que ele precisava disso? Suas amantes já não bastam?

Uma vontade incontrolável surgiu em mim… eu queria colocar aquele vídeo no seu devido lugar e ir dormir em paz. Ou no que eu poderia chamar de paz. Mas não… eu não conseguia… minha mão tremia de ansiedade. Eu tinha que assistir.

A cozinha era o local ideal… a porta poderia ser trancada e ninguém iria imaginar. Coloquei o vídeo para tocar. E me sentei numa cadeira. Meu corpo todo demonstrava minha ansiedade… aquilo me empolgava… me fazia querer mais. Eu não sabia porque estava alí… mas eu já estava…

As cenas me causavam sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que eu odiava o que estava fazendo… eu me sentia profundamente em paz… esquecia de tudo… e tomo meu corpo parecia se deliciar. Ou ao menos… não se importar. E por aquele pequeno tempo… eu me sentia outra mulher… uma mulher com poucos sentimentos, sim. Mas me sentia tudo. Eu gostava de ver até o fim… assim eu poderia sentir ao máximo… e me sentir viva por alguns minutos.

Quando tudo termina, e eu finalmente chego ao orgasmo. Eu sinto nojo. Eu tento continuar assistindo. Mas aquelas cenas são patéticas. Agora não me suscitam qualquer ansiedade… não me fazem idealizar qualquer prazer. Me sinto o mesmo pedaço de merda de sempre…

Eu não me movo por um longo tempo… talvez tentando fazer meu coração parar… e ter uma morte suave. Não sei… mas eu prefiro não mover… Mas nada muda… agora está feito. E eu agora posse me odiar em paz… odiar meu marido em paz… odiar até meu filho com grande satisfação. O que eu quero mesmo é todo esse ódio. Toda essa raiva. Depois da loucura… a raiva é minha melhor amiga… ela me faz sentir viva… ter um propósito, um sentido. Uma razão para ser.

Eu não percebi o tempo passar… me esqueci de olhar o relógio. E fui para cama. Não me importava mais com nada… eu sentia tanta raiva que o que mais queria mesmo era uma boa briga.

Mas eu não sabia o que dizia… quando cheguei no quarto a luz do banheiro estava acessa. Ele estava acordado. Corri e me escondi debaixo dos cobertores. Talvez ele não percebesse minha ausência. Mas não adiantou muito. Ele subiu por cima de mim… sabia que eu estava acordada. E tentou me beijar… sua respiração quente me sufocava. Seu hálito tinha cheiro de remorso.

Seu corpo se contraia contra o meu… enquanto eu tentava não sentir… ou sentir… seria bom. Seria bom, não é mesmo? Mas eu não sabia exatamente o que queria naquele momento. Mas haviam sentimentos em mim que nem eu mesma poderia controlar… e isso me fazia sentir medo… eu queria controlar… e tudo isso me fazia controlar ele. Controlar o que estávamos tendo alí.

Segurei sua mão… e o puxei… o beijei com muita raiva. Senti seu corpo amolecer. Ele estava se entregando. O puxei para o lado… e desde então tudo que eu fazia era tentar controlar… e tudo que ele fazia era tentar possuir. Passamos algum tempo naquela disputa de pulsõs e desejos de ódios e remorsos.

Até que ele chegou ao orgasmo… eu pude me sentir vitoriosa. Me senti incrivelmente vitoriosa…

Uma brisa fria fez meu corpo se arrepiar… o presságio de algo que eu sabia que era inevitável. Então me entreguei a mim mesma. E por fim cai no sono.

No dia seguinte eu pude me acordar com o mesmo remorso de sempre. Ele não estava mais em casa… e meu filho já estava na escola. O sol brilhava… era lindo. Mas eu não conseguia sentir o sol. Um passarinho cantava sarcasticamente na minha janela… mas eu não conseguia ouvir. Meu cachorro me fazia um carinho gostoso nas pernas… que eu não conseguia sentir.

Depois de um bom tempo… meu corpo zumbificado se levantou… e se sentou no sofá da sala… automaticamente liguei a TV. E fui mudando de canal em canal tentando procurar algo interessante. Num programa de auditório muitas mulheres semi-nuas dançavam… seus belos corpos e sorrisos radiantes me faziam querer ser feliz como elas. Todos os homens as admiravam… isso devia ser bom. Devia fazer a vida ter algum sentido. Eu não sei… mas queria aquilo.

Num outro canal… alguns jovens revesavam pela disputa de uma garota. Ela parecia radiante… ria o tempo todo, estava feliz. Eu queria ser como aquela garota… tantas pessoas se importando comigo. O que eu mais gosto na TV é que eu não pensar… ela me ensina exatamente como posso ser feliz… pena que eu nunca entendo exatamente como chegar lá… talvez eu seja burra demais.

O telefone tocou! Eu tomei um susto… meu coração começou a bater sem parar… será que era ela? Será que ela se lembrou de mim?… Algum movimento ninja me fez agarrar aquele telefone de onde eu estava… atendi com tanta força e energia que pude ouvir minha própria voz retornando.

Mas era apenas uma cobrança de dívidas. Eu não pago as contas sabia?

Se há um sentimento que faz parte de mim é a frustração… o dia já havia começado e eu já podia me sentir eu mesma… a velha desgraça ambulante que habita esse miserável mundo.

Por que as pessoas são assim? Por que ela não me ligava… será que ela não sabe como mudaria meu dia? Enquanto pensava a campainha tocou… era Marta. Ver seu rosto me deu um profundo cansaço… eu não consegui ao menos dar um oi. Ela me abraçou… com se quisesse me fazer acordar… olhou para os meus olhos profundamente… acariciou meu rosto com sua mão macia… e sem mais palavras me deu um beijo e foi embora.

Minha comunicação está ficando mais efusiva a cada dia. Em breve não precisarei mais falar palavra alguma.

E ainda me pergunto porque as pessoas fogem de mim…

Eu não mereço pessoa alguma… o mundo não me merece. Eu sou a condensação de toda a desgraça existente. A campainha tocou novamente… era Jesus, o jardineiro. Mas que deveria trabalhar como ator… ironicamente foi isso que ele tentou fazer antes de entrar no fundo do poço.

Ele me cumprimenta com toda sua educação formal… não olha nos meus olhos e segue seu caminho. Enquanto eu assisto TV Jesus faz seu trabalho suado no nosso jardim… ver todo aquele esforço me fez sentir pena dele… o convidei para tomar um banho e almoçar comigo. Eu estava tão sozinha… e Jesus era uma das únicas pessoas que me faziam alguma companhia.

Em pouco tempo estávamos atracados fazendo algo que chamamos de sexo, no banheiro. A única diferença entre Jesus e meu marido estava no quanto eu o odiava… Jesus me trazia uma certa paz… uma certeza de que eu não teria muito com o que me preocupar. Falávamos pouco… eu não me sentia segura com Jesus, mas me sentia segura comigo mesma. E isso bastava para querer sua presença.

Por algum tempo eu pude me sentir aquilo que minha mãe sempre sonhou para mim. E isso me fazia muito feliz… Eu pude cuidar de um homem, como ela sempre me disse que eu deveria. Meu marido não me dava esse gosto… na verdade ele não me dava gosto algum. Enquanto eu estava com Jesus eu podia sonhar…

Uma ilha tropical, uma pequena casa de madeira, um lindo mar, nenhuma TV e nenhum ser humano por perto. Esse era meu sonho. Um sonho perfeito. As vezes penso que o que eu mais gosto em Jesus é o fato de que com ele eu posso sonhar… não ligo para sexo… não ligo para seus beijos… Jesus para mim servia como um objeto. Como tudo em nossas vidas. Um objeto que me dava o prazer de sonhar.

Por que então eu fazia sexo com Jesus? Ora… o que faria? Como teria sua atenção? Como teria sua presença? Mas logo ele teve que ir. Meu filho estava chegando… um garoto de 14 anos. Que em muito parecia com o pai. E tolo o bastante para ter o mesmo fim. Uma de suas gavetas é lotada de cartas de amor… de uma garotas mais estúpidas do que eu. Uma outra é lotada de bonecos, revistas e livros dos seus ídolos. Homens que não eram humanos… gente que nunca viveu. Mas que alimentava as fantasias do mais novo produto da fábrica humana, meu filho.

De longe eu não me importava. Em casa ele tinha apenas um regra: nunca, em hipótese alguma, trazer pornografia. Isso o fazia ter uma imagem puritana dos seus pais. Mas o que eu queria mesmo era não ter que adoecer todas as noites. E poder fingir que sou diferente.

A tarde passo fazendo as tarefas de uma boa dona de casa… isso me faz esquecer da vida. Me faz pensar na minha mãe… em tudo que ela me ensinou. Boa parte de toda essa merda que chamam de minha vida é graças à ela. Mas eu não ligo. Contraditoriamente me sinto bem em me lembrar de todos os seus ensinamentos. E assim as horas passam… até que meu marido chegou do trabalho… e eu não o percebo… na verdade não me importo, a não ser pela sensação de sufocamento constante.

Prefiro ir dormir… assim nos desencontramos na cama… ele não perde seu tempo falando comigo, felizmente. As vezes me pergunto se gostaria de ser tratada como um ser humano… e não como um mero objetivo de sua vida pública ou de seus fetiches sexuais. Mas no fim eu não me importo… não sei o que quero. Ou melhor… sei sim! Quero dormir e se possível não acordar.

Boa noite.

A libido, mais um mito

Eu não sei de onde vem esse potencial para criar tantas bobagens sobre a sexualidade humana. É incrível como pequenas coisas passam da teoria para realidade sem o menor esforço. Aqui no site já venho falando sobre muitos mitos. Ultimamente tenho falado sobre o problema do desenvolvimento intelectual e físico contra o “desenvolvimento” sexual. Puro mito. Mas ainda não terminamos com o assunto. Hoje vamos falar sobre a libido e em breve falaremos sobre a “necessidade sexual”.

Bem… o que exatamente seria a libido? Libido é uma palavra latina que quer dizer basicamente desejo. Freud foi o primeiro a definir a libido como uma energia-desejo sexual que rege nossa vida. Em seguida alguns outros psicanalistas como Jung definiram a libido como uma energia psicológica responsável pelo seu desenvolvimento.

A libido analisada por Freud, Jung e ouros é apenas uma teoria psicanalítica… teoria. Não há muito o que fazer com isso, a não ser discutir e teorizar.

Bem… sempre alguém arruma um jeitinho de manipular as coisas para seu próprio bem. Então com o tempo a libido passou a ser definitivamente uma mistura entre desejo subjetivo, excitação sexual objetiva, empolgação e determinação e desempenho sexual satisfatório. Em outras palavras:

  • Sentimento de vontade/desejo que sentimos;
  • + O processo fisiológico de excitação sexual (ereção, lubrificação, batimento cardíaco, disposição química-neural, etc);
  • + A energia/disposição para buscar o ato sexual (”fogo”, na língua popular);
  • + Desempenho estável no ato sexual (não broxar, perder a excitação, etc);

Observe que não é algo simples. Nem Freud com sua fixação imaginaria que a humanidade transformaria sua teoria em algo tão macabro.

Para entender melhor vamos dividir o processo sexual em etapas:

Desenvolvimento psicológico:

  1. Nas cimento e maturação dos órgãos sexuais;
  2. [Paralelamente] A criança está em intenso nível de sugestibilidade;
  3. [Paralelamente] Começa a absorção de pulsões comunitárias e individuais de acordo com seus valores;
  4. [Seguinte] Estimulação, constatação e aprendizado da reações sensitivas subjetivas eróticas;
  5. [Paralelamente] Educação moral;
  6. [Seguinte] Instalação, constatação e desenvolvimento do moderador comportamental pela educação moral;
  7. [Paralelamente] Neutralização das pulsões (ex: violência brutal) desprezíveis pela educação moral;
  8. [Paralelamente] Instalação das pulsões sensuais morais (ex: comer) no consciente;
  9. [Paralelamente] Instalação das pulsões sensuais imorais (ex: pedofilia) no inconsciente;
  10. [Seguinte] Estabelecimento do conjunto comportamental chamado “Eu”.

Desenvolvimento do ato:
Aqui vamos considerar uma pessoa comum que passou por todo o processo de desenvolvimento psicológico descrito acima.

  1. Estimulação erótica-sensual por imagem, som, ideia, toque (de uma pessoa);
  2. Condensação da projeção erótica-sensual sobre um objeto (uma pessoa);
  3. [Paralelamente] Projeções fantasiosas de momentos estritos, cenas “congeladas” e ideias para emulação/indução do sentimento de bem-estar/prazer;
  4. Constatação do objeto como catalizador/desenvolvedor da realização da projeção erótica-sexual (refluxo do estágio 4 e 9 no desenvolvimento psicológico e da transgressão);
  5. Re-condensação da projeção erótica-sensual sobre um ato ou um conjunto de atos realizados com/pelo objeto (uma pessoa);
  6. Reação fisiológica e psicológica espontânea de excitação sexual diante da percepção ou imaginação do objeto;
  7. Pulsão inconsciente pela realização do ato ou conjunto de atos que se exterioriza como um forte sentimento de desejo incompreensível, implacável e pouco controlável;
  8. Conjunto de realizações necessárias para “posse” e “uso” do objeto conforme estimula a pulsão;
  9. Realização do ato ou conjuntos de atos;
  10. Estado de ponto neutro, negativista, frustração, cinismo, expectativa ou positivista.

Explicando o 10º estágio:

  • Ponto neutro teoricamente não existe;
  • Ponto negativista: quando a realização e/ou os efeitos da realização trazem prejuízos emocionais e até físicos;
  • Ponto de frustração: é quando a projeção foi maior do que o efeito obtido;
  • Ponto de cinismo: quando a pessoa por inúmeras razões deixa de se frustrar com efeito efêmero ou com os efeito negativo da realização do ato ou conjunto de atos e perpetua-se fazendo-os para a realização de uma frustração primária (ex: afirmar a própria masculinidade, se sentir desejada, etc);
  • Ponto de expectativa: Quando a relação não satisfez a pulsão, mas também não frustra, deixando a expectativa de uma nova relação satisfatória;
  • Ponto positivista: Quando a realização e os efeitos da realização são satisfatório, teoricamente(!) existe.

O termo “falta de libido” se estabeleceu genericamente como qualquer indisposição ao ato sexual. Mas na verdade, como vimos anteriormente, é muito mais complexo. A “falta de libido” ocorreria na verdade em algum estágio do Desenvolvimento do ato. O Desenvolvimento do ato está intrinsecamente relacionado com o Desenvolvimento psicológico (da sexualidade).

Se qualquer coisa “der errado” no Desenvolvimento psicológico todo o Desenvolvimento do ato ou algumas partes dele ficarão prejudicadas.

Quando falamos de “falta de libido” soa como se estivéssemos falando de algo material. Como se a libido realmente existisse em algum lugar do corpo. Mito. Libido é o mesmo que desejo. E desejos são subjetivos. Desejos são criados pela formação educacional humana.

O desejo sexual é criado? Sim. Mas na verdade a melhor palavra seria catalizado. Um desejo que não é criado é instintual, ou seja: uma reação instintiva. Todos os nossos desejos realmente instintuais são necessidades. Seu corpo não viveria bem sem a satisfação dessa necessidade. Existem fortes reações do “desejo” instintivo no caso da fome, evacuação, sono, medo, etc. Não existe nenhuma reação fisiológica diante da suposta necessidade do ato sexual.

Se sexo fosse uma necessidade (como muitos acreditam) teríamos algumas reações fisiológicas evidentes no nosso corpo. Se as reações fossem puramente psicológicas então não seria possível “adestrar” essa pulsão como muitos padres, monges e tantos outros fazem. Muitos também utilizam o exemplo da isolação social para provar que o contato sexual é importante para o equilíbrio mental. Ledo engano. Em diversas culturas pessoas viviam completamente isoladas da humanidade. O problema nunca foi a isolação social, mas sim suas motivações e a dependência psicológica do grupo no indivíduo.

Basta que alguém não tenha relacionado o sexo ao prazer, ou o prazer à satisfação (satisfação e prazer são coisas diferentes), para que todo o conjunto da sexualidade desmorone!

É muito comum que pessoas com grande repressão sexual façam forte relação entre sexo e prazer e em alguns casos com sexo e satisfação. Por isso, na antiguidade as mulheres histéricas demonstravam uma promiscuidade ou pulsão sexual muito maior que os homens. As bruxas (que em quase todos os casos eram conhecidas pela sua promiscuidade sexual) existiam em número infinitamente maior que os homens.

Ora, se a própria estrutura fisiológica do homem e sua educação machista favorecem a promiscuidade e a pulsão sexual… porque era as mulheres que histericamente demonstravam-se devassas?

Obviamente não existe um Desenvolvimento formal do ato e da psique sexual das pessoas. Esse adestramento é feito de forma indireta. Ninguém coloca o menino no colo e diz: “Filho você é homem, macho! Deve gostar de mulheres. Deve sentir tesão ao vê-las. Deve querer enfiar seu pênis nelas e projetar grande prazer e satisfação”. Mesmo que fosse feito… nada aconteceria.

Quando um comportamento social se torna absoluto numa sociedade ele passa a se compreender como natural. Seja o que for. Compreendendo algo com naturalidade as pessoas passam essa informação adiante de forma automática e involuntária. É que acontece com o consumo. A Coca-Cola não é a melhor bebida do mundo. Não há razão para a maior parte da população adorar essa bebida. Mas mesmo assim ela é o 2º líquido mais bebido no mundo.

A viagem da Coca-Cola é curtinha… mas a viagem humana é milenar. Quando e como tudo começou, ninguém sabe.

Mas voltando ao ponto central. Quando uma mulher fala que acha que está “com baixa libido” é bom saber que ela pode estar com “problemas” em qualquer uma das etapas do Desenvolvimento do ato. Ou seja… ela pode até mesmo não conseguir se excitar sexual pela imagem, ideia, som, etc. É evidente que fatores fisiológicos também podem influenciar. Assim como influenciam em qualquer outro desejo.

Existem problema de saúde (física) bem específicos que podem neutralizar toda a excitação fisiológica, posteriormente afetando a excitação psicológica. Mas tais problemas praticamente sempre surgem na fase adulta, quando a pessoa já teve relações sexuais e percebe que tem algo errado. Além do mais é muito improvável que um problema desse tipo afete especificamente o desempenho da excitação sexual. Não me lembro de algo específico que afete crianças. Mas em todo caso é sempre bom procurar ajuda médica diante de alguma anomalia.

Em resumo a libido não existe. O desejo é algo subjetivo. O desejo sexual existe em potencialidade mas precisa ser desenvolvido (especialmente na infância). O desempenho do desejo sexual vai depender do ambiente, estado mental e logicamente de com quem se está fazendo sexo.

Se houve algo “errado” na educação sexual de uma pessoa, ela poderá demonstrar um comportamento anormal. Por exemplo só sentirá excitação por alguma parte específica do corpo, ou se se agredirem durante a relação, etc. Logicamente não existe algo certo ou errado… apenas anormal, dentro da relação sexual. Também é possível que a pessoa não desenvolva completamente sua sexualidade. Ou seja, permanece assexual (crianças já são assexuais por natureza).

Em outros casos a educação sexual não consegue penetrar plenamente na pessoa e pode gerar oscilações de personalidade. Assim a pessoa passa a demonstrar interesse sexual em períodos irregulares ou simplesmente ir diluindo sua sexualidade com o tempo pela ação do ambiente ou por uma ação direta de rejeição.

Vale destacar que interesse sexual não é a bobagem que as pessoas imaginam! Eu já ouvi tantas besteiras sobre o que seria o interesse sexual que daria para escrever um livro, principalmente entre as mulheres! Não é necessariamente interesse sexual: querer sair para dançar; admirar aparência, inteligência, sabedoria ou qualquer outra qualidade subjetiva ou objetiva de outra pessoa; sentir vontade de ficar junto de alguém; sentir vontade de abraçar/apertar; ter vontade de dormir junto; etc.

Na verdade todas as coisas devem ser analisadas com muita seriedade. Por exemplo: o desejo de ficar junto de alguém, ou o desejo de querer abraçar ou mesmo o desejo de dormir junto de alguém pode (e provavelmente irá) expressar o sentimento de segurança que aquele pessoa lhe proporciona. Segurança não é tesão!

Bem meus caros… espero que esse texto tenha sido esclarecedor. Poderíamos falar mais sobre o assunto. Mas fica aberto o espaço para perguntas e sugestões. Até a próxima.

p.s.: Antes que alguém pergunte sobre a eficácia dos “remédios” para melhorar a libido. Tanto os fármacos quanto os naturais devem atuar sobre o sistema nervoso, o estimulando. Ou seja: a pessoa aumentará sua sensibilidade, disposição, humor, etc. Logicamente ela ficará mais disposta… até mesmo para uma partida de xadrez. Em outros casos o nível de estimulantes é muito intenso. A pessoa não consegue se concentrar em atividades calmas e se impulsiona para atividades exaustivas. Nesse caso a busca pelo sexo é apenas por auto-sugestão, a pessoa estará apta a praticar qualquer atividade exaustiva e emocionante.

Remédio algum atua sobre a libido porque ela não existe. Contudo é bem provável que o remédio tenha um efeito placebo. Age por sugestão. Assim como uma pílula de farinha que passa a dor de cabeça, a “pílula do tesão” age engando a pessoa. No máximo ela agirá como um energizante proporcionando maior disposição para aquilo no qual já se está engajado por conta própria.

Tratamentos sem o uso de remédios atuam sobre um bloqueio psicológico sobre a excitação sexual. Que é essencialmente o mesmo processo que se usa para “desbloquear” qualquer pessoa ou tratar uma fobia, nada mágico ou especial. Em outros casos o “tratamento” consiste essencialmente em fazer a pessoa sentir prazer (por técnicas relativamente simples) e sentir mais vontade de ter prazer. É como dar uma droga e esperar que a pessoa peça mais, o efeito é quase inquestionável. Em muitos casos o tratamento é feito com o “destravamento” mental, remédios estimulantes/excitantes e a estimulação num quase-vício. Uma técnica quase infalível.

Em geral a lavagem cerebral… digo… tratamento falha quando na infância a pessoa não teve uma forte educação sexual. Sem a educação essencial a pessoa pode até apresentar algum interesse, mas será efêmero.

O tratamento adequado em todos os casos deveria ser a auto-análise. Que se feita com um bom profissional, não tendencioso, irá revelar as mentiras e os auto-enganos. É muito improvável que uma mulher ou homem que faça auto-análise continue acreditante que seu problema é de impotência ou falta da libido.

Dois caminhos

Olá amigos, antes de mais queria felicitá-los pelo site, foi realmente uma grande ajuda.
Como quase todos os que vos escrevem, eu acho que sou assexual.

Não me sinto só. Sou uma pessoa sociável, tenho um bom trabalho e amigos fabulosos. Tenho também uma família muito unida e protectora em que todos nos queremos muito. Os meus pais continuam a ser romanticos um com o outro e os meus irmãos têm os dois relacionamentos estáveis e saudáveis.

Durante um tempo pensei que era lésbica ou até bissexual, mas dei-me conta de que não é o caso.
Eu realmente me apaixono por homens e muito. Sempre tive facilidade em encontrar namorados, me apaixonava, amava-os, mas era incapaz de ter sexo com eles. Não tenho medo, nem dores nem nada do género, inclusive me excito sexualmente quando estou com alguém, mas quando chega o momento de fazer sexo, simplesmente não me apetece. Gosto de sexo como ideia, acho bonito e gostaria de gostar de sexo porque acho que é algo saudável entre dois adultos que se amam, gosto que as pessoas se sintam atraídas por mim e me achem sexy e eu também me sinto atraída por elas, mas de uma forma muito intelectual. Sempre me apaixono por amigos muito próximos.
Realmente gosto de ter intimidade, carinho, contacto físico… só não quero ter sexo…
Infelizmente os meus relacionamentos sempre acabam exactamente por este motivo. Quando os meus namorados começam a “exigir-me” contacto sexual, eu prefiro deixá-los com uma desculpa a explicar-lhes o que se passa comigo. Acho que nunca o poderiam entender.
Já menti muitas vezes acerca da minha sexualidade ou invento desculpas como “trabalho muito” ou “não tenho tempo” para justificar que não pratique sexo. Levo cerca de um ano e meio sem relações sexuais, e, na minha vida, tive contactos sexuais muito poucas vezes…
Em geral penso pouco em sexo e quando penso, penso de uma forma muito abstracta, como fantasias sexuais, em que os intervenientes nunca têm cara.

Acham que realmente sou assexual ou que posso ter outro problema?
Normalmente não penso muito no assunto, mas às vezes creio que não sou normal…

Obrigada!
Marta

Olá Marta,

Seu caso parece simples… mas não é.

Eu acho que você não leu o site e não entendeu exatamente o que é assexualidade… você termina sua declaração dizendo “realmente sou assexual ou que posso ter outro problema?” Esse ter outro problema indica que você ainda configura a assexualidade como algo problemático para a sua vida… e isso é explicável com o que você escreveu anteriormente. Em seguida você diz “às vezes creio que não sou normal…” Nesse caso você deu ao termo normal um sentido de algo bom e/ou equilibrado. Confirmando o que foi dito…

Eu não precisaria dizer mais do que algumas poucas palavras se você tivesse me dito como é seu comportamento auto-erótico. Se sua própria imagem te excita sexualmente, como acontece sua excitação sexual, se você se masturba, como se masturba, quais elementos te excitam na masturbação, etc. E ao menos tivesse me dito sua idade… Ah! Mas ao menos sabemos que você é portuguesa… … brincadeira… rsrsrs… isso não faz diferença.

As informações que você me deu indicam sobre seu comportamento romântico. Você gosta de segurança e procura relacionamentos assim. Por isso namora com pessoas que já eram amigas suas e as deixa porque elas se tornam um “perigo” para você. Mas essas coisas você mesma deveria avaliar com paciência.

Sobre seu comportamento sexual posso dizer que você está no limbo. Você nem apresenta características fortemente sexuais… e também não apresenta características fortemente assexuais.

Sua busca por parceiros e seu desejo sexual me parece um refluxo/refluxo da sua educação familiar. E como já disse você gosta de segurança, procura pessoas que possam te trazer tal segurança. Tudo está indo muito bem… até que eles querem sexo. Você disse que não há dor… nem sofrimento de qualquer tipo… mas mesmo assim não quer fazer sexo. E com a insistência se sente ameaçada… termina o relacionamento.

Mas ao mesmo tempo você quer. Sexo parece ser uma coisa muito boa… afinal você gosta de beijar… se sente excitada… então você imagina como deve ser sentir… só sentir… é tudo muito legal, é tudo muito bonito… até que… você sente nada! Como é que de um momento de excitação sexual você passa a sentir nada? Ou a se sentir desconfortável?

Provavelmente temos aí algo que pode ser uma simples indisposição a ter uma relação sexual factual (padrão assexual), ou um trauma psicológico que desperte sempre que você saca que o sexo é “real” (como se não o fosse até o momento).

E como você não me disse coisa alguma sobre masturbação… é melhor que você vá num ginecologista e fale sobre esse assunto especificamente com ele. Lembre-se ginecologistas não são psicólogos. Então concentre-se na parte física da coisa (vagina, clitóris, etc).

É possível que você tenha pouca sensibilidade na área responsável pela estimulação sexual. Isso explicaria porque você consegue emular o sentimento de excitação sexual, mas não consegue sentir prazer/gostar do ato sexual.

Mas novamente… você me não me disse coisa alguma sobre auto-erotismo. Logo estou apenas cogitando.

Quem você deve procurar é um ginecologista e em seguida, tendo consciência do funcionamento básico do seu corpo, um psicólogo. Mas nem um nem o outro poderá dar rumo a sua vida. Tudo o que eles podem fazer é explicar o que está acontecendo. Daí pra frente é com você.

Quem sou eu?

A maioria das pessoas ainda não entendeu o que é assexualidade. Perceba o “a” antes do “sexualidade”. Ele não está aí por acaso. A, sufixo de negação. Logo assexualidade = não-sexual. Simples…

Mas o que é sexualidade? No nosso contexto a sexualidade é uma forma de comportamento. Ou seja, um modo de pensar, fazer, querer, falar, entender, sentir, etc.

Logo ser assexual é não ter essa forma de comportamento.

Agora, a grande questão, que logo mais alguém iria perguntar é: esse comportamento é natural do ser humano ou é fruto de um involução cultural?

Nenhuma prova científica há que prove que tal comportamento é natural ao ser humano. Mas muito pelo contrário. Tal comportamento sofre grandes mudanças nas mais variadas culturas. Chegando até mesmo a não existir, dependendo da origem de um povo.

Sobre o ato sexual em si, pouco coisa se sabe. Sabemos que o homem é plenamente capaz de fazer sexo, de forma consciente e deliberada. Contudo não sabemos até que ponto o ser humano é capaz de fazer sexo unicamente pelos seus instintos. Nem ao menos sabemos como esses instintos estão organizados. Diferentemente dos demais animais o ser humano possui uma grande diferença cognitiva que distorce (em alguns casos exageradamente) sua “naturalidade”.

Algumas pessoas chegam assustadas para me perguntar se realmente sou assexual! E eu ainda não sei o que responder. Tudo que tenho convicção é do que não sou.

Afinal, quem é você?

Não estou perguntando por títulos, mas sim pela identificação da unidade central do que chamamos ser humano.

Dizer que sou assexual não é dizer o que sou, mas sim o que não sou.

Por que se importar com títulos?

É comum que em comunidades sobre assexualidade as pessoas sempre perguntem sobre as mesmas coisas: masturbação, 1º relação, excitação, desmotivação, idealização, etc. O que me chama a atenção é a forma como essas questões são abordadas.

Eu não sei exatamente porque, mas muitas pessoas tentam se encaixar na assexualidade, dar um “jeitinho”. É estranho ver que alguns ficam anciosos por um “é, você é assexuado”. Eu não sei exatamente porque as pessoas precisam dessa confirmação mas posso dizer que com toda a certeza isso não é bom.

Eu nunca disse mas ninguém é plenamente assexual. Assexualidade é o oposto da sexualidade. No nosso contexto a sexualidade é todo um “estilo de vida” de uma pessoa, digamos assim (na falta de um termo mais apropriado). E isso vai além do sexo. Está na forma de andar e até na conversa mais banal. Então ser assexual seria não ter esse estilo de vida, só que isso é praticamente impossível. Assim como é impossível ser completamente sexual.

Na verdade impossível mesmo é dizer o que seria sexual ou não. Já que nosso comportamento é o conjunto de fatores que estão intimidade ligados. E é impossível hoje saber “dividir” nosso processo mental.

Bem… talvez eu não tenha sido claro até aqui. Mas indo direto ao ponto:

Assexualidade não é religião;

Assexualidade ideal não existe. Por isso pare de se preocupar com cada mínimo detalhe do seu comportamento. Se você for realmente inteligente não se preocupe com títulos… seja você. Tentar se encaixar num título só vai trazer neurose e dor…

Minha intenção com o site não é trazer para as pessoas um rótulo. Que trará identidade, um nome e um sentido. Minha intenção com isso tudo aqui é trazer a simples reflexão sobre questões particulares sobre a vida de cada um em seus aspectos sexuais, românticos e afetivos. Mesmo que você se identifique fortemente como um assexual pense duas vezes em se intitular.

Eu resolvi fazer o site porque pensei nas pessoas que assim como eu passam por situações como as que venho falando aqui no site. Eu não criei o site porque tenho algum tipo de tara pelo nome “assexualidade”. Para ser sincero, hoje eu teria criado o site com um outro nome. Um nome que envolvesse todas as pessoas que estão em busca da compreensão sobre a sexualidade humana. Isso tornaria tudo mais suave.

Acho que o título é bastante útil como um ponto de referência. Mas nunca como um modelo ideal. Eu não fico feliz quando alguém se identifica como assexual por causa do site. Mas eu me alegro muito quando alguém me diz que o conteúdo tem trazido alguma mudança para suas vidas. Um título muda NADA.

Preocupe-se em se CONHECER, e esqueça os modelos. Seja você. E seja flexível para ser o melhor de você. Já que o seu “EU” ainda está sendo desenvolvido, lapidado todos os dias. Assim você é o seu melhor, que se desenvolve todos os dias. Ou seja, você é o que será.

Deu para entender?

Acho que sim, vocês todos são super inteligentes… basta querer entender.

Todos nascemos assexuais

Queridos… todos nascemos assexuais. Sim! Todos…

Ao nascer não possuímos desejos sexuais por outras pessoas…

Todas as teorias em volta da sexualidade dos bebês e crianças pequenas está em torno de pulsões sexuais que independem de um desejo deliberado e consciente do indivíduo. Seriam respostas instintivas do nosso corpo. Logo que crescem um pouco esses parecem perder, ou melhor, controlar/suprimir tais pulsões.

O que pode terminar, assim que os orgãos sexuais amadurecem e somos ensinados de forma inconsciente sobre nosso comportamento sexual (o que na verdade já vem acontecendo desdo nascimento).

Assim existem assexuais:

Persistentes: nunca deixaram de ser assexuais;

Reincidentes: voltaram a ser assexuais.

Mas aqui não fazemos distinções. Nem mesmo entre assexuais e sexuais. E logicamente não abrimos espaço para discriminação. Sendo esse texto apenas explicativo.

Deixe-me ver se você entende

I don’t care.

I don’t care.

I don’t care.

Let me see if you understand…

I DON’T CARE!

Não importa quão sensual, doce, erótico, sincero, excitante, meigo, intenso, ardente ou o adjetivo que você quiser me induzir a pensar… Eu REALMENTE não me IMPORTO.

Eu não me importo se você “dá” a vagina, anus, boca, peitos ou o que quer que você erotizar. Eu não me importo. Eu não me importo se você beija mulheres ou homens, gatos ou cachorros. Eu não me importo. Quem você chupa? Eu não me importo!

Não faz diferença para mim… é tudo patético da mesma forma. Não é da minha conta o que você faz com quem quer que seja.

Eu amo as pessoas e quero o melhor para todos… mas não façam perguntas sobre orientação/identidade sexual. Eu acho esse circo todo completamente patético. Não quero participar desse show político doentio.

Não me interesso por beijos nem por sexo… nem por compromissos mesquinhos

Me deixem fora dessa “viagem”.

Se der saia também. Depois não diga que eu não falei. Estou ouvindo isso demais ultimamente.