Eu me perdi em algum lugar lá atrás

Talita: Bom gostaria de ajuda tambem!
Não sei se sou exatamente uma assexuada ou é algo psicológico.
Porque gosto do sexo, mais já tentei ter relacionamentos com com homens e até com mulheres, é algo meio vazio, sinto tesão, mais não é por causa da pessoa em si, é porque a pessoa me toca, e tipo não quero sempre, mas eu gosto do sexo. E outra, parece que que sou anti social em relações , porque me dou bem com todos em amizade, difícil arranjar antipatia com alguém, mais falou de relacionamento, não desenvolve, não bate, é mesma coisa se eu tivesse com um objeto esperando algo dele, uso ele e depois deixo para lá. Aquela pessoa e nada dá na mesma para mim. O ruim que sinto falta de ter alguém, mais quando tento algo ficar namorar enrolar mechiriar … mão rola, não sinto nada, não vejo sentido, me sinto bem quando amigos apenas. Aí não sei se não consigo nada com alguém porque tô tão assumida psicologicamente que nao consigo mesmo, ou talvez não tenha gosto para isso sei lá. Preciso de uma ajuda.
Obrigado.

Antes de qualquer outra coisa eu recomendo que você leia (os textos não estão em ordem lógica):

Das interações relacionais

Dos relacionamentos

Por que se importar com títulos?

Momentos “Slow Motion”

Qual o problema com o amor?

Ser solteiro não é ser sozinho

Ser é não ter

Frigidez

Mitos sobre paixão e atração

O que são pessoas arromânticas?

NÃO somos SÓ amigos

Assexualidade não é religião

Por que as pessoas precisam de “relacionamentos”?

A felicidade da solidão

Amizade entre homens e mulheres, é possível?

“Solteiro para sempre!”?

There’s a world out there!

Qual o valor do sexo?

Esses textos falam do seu problema em cada faceta. Por isso sua leitura é fundamental. Sendo o que vou dizer apenas um complemento:

O ser humano não foi feito para comer carne. Insetos, talvez… mas não o açougue que comemos hoje. Mas na nossa cultura praticamente todas as pessoas acreditam que comer carne é algo natural. E ai de quem contestar isso! Assista o vídeo a seguir e entenda o caso:

O mais incrível é que mesmo com toda essa indisposição ainda assim comemos carne desde pequenos e dizemos gostar. Mas existem algumas poucas pessoas que mesmo nascendo nessa cultura carnívora rejeita carne com total naturalidade. São crianças que nunca gostaram do gosto da carne, mesmo sem saber exatamente da onde vinha. Ainda não existem evidências científicas que expliquem isso. Mas o fato que é tais pessoas desenvolvem naturalmente esse paladar e continuam assim para o resto de suas vidas (obrigadas a comer carne ou não).

Mas o que isso tem há ver com seu caso? Tudo! Assim como comer carne se tornou algo natural, querer um relacionamento romântico também. O relacionamento romântico não existe naturalmente, ele é uma criação da nossa sociedade. É lógico que ele é alimentado pela paixão, assim como a cultura da carne é alimentada pelo nosso paladar. Mas isso não muda a essencial da “criação” humana.

Assim como algumas pessoas não suportam carne, você parece não suportar relacionamentos românticos. A diferença é que quem não suporta carne simplesmente diz que não suporta e deixa de comer (a não ser que seja obrigado), porque ela evidentemente vê que comer carne não é algo natural, no mínimo, para ela. Enquanto na nossa cultura ser romântico (querer o que chamamos de relacionamento “amoroso” – que de amor não tem nada) virou natural, mas tão natural que é imprescindível para a vida de uma pessoa, ou, ao menos, para a sau felicidade.

Eu vejo todos os dias pessoas com casos semelhantes ao seu. Elas não gostam de relacionamentos românticos. Elas querem carinho (algumas até beijinhos), mas elas não querem esse tipo de coisa (relacionamento) para a vida delas. O problema é que elas não sabem que é totalmente possível viver sem um relacionamento romântico! E se dar muito bem assim.

Algumas pessoas recebem essa boa nova com muita alegria e euforia. Se sentem leves por saber que não precisam disso… em muitos casos a vida muda drasticamente (para infinitamente melhor), novas perspectivas são abertas, novos horizontes explorados. Mas outras pessoas, não entendo como, simplesmente odeiam a simples ideia de ficarem “sem alguém”.

Ora, eu pergunto para as pessoas que descobriram a alegria da liberdade: vocês estão realmente sozinhos? Eu tenho total certeza que não. A perspectiva arromântica não é a solidão/exclusão, mas sim uma nova e revolucionária percepção de tudo.

O problema dessas pessoas é que elas entendem “não precisar de um relacionamento romântico” como uma condenação para a solidão e/ou depressão crônica. Eu venho falando de arromantismo aqui, não por mim, mas por milhões de pessoas que precisam saber disso. Todos os dias encontro pessoas naturalmente arromânticas tentando ser o que não são. O que isso gera?

  • Raiva de si mesmo;
  • Raiva da outra pessoa (o namorado, esposo, etc);
  • Vingança por algo indizível (que na verdade é só refluxo da traição contra si mesmo) – em forma de traições, mentiras, agressão física ou verbal, total indiferença, desprezo, etc;
  • Idealizações de eventos ou estados como solução para todos os problemas (por exemplo: ficar grávida, algumas mulheres sonham de forma tão intensa em ficar grávidas e idealizam esse momento de tal maneira que não querem que o filho saia de seu ventre);
  • Neurose e dependência obsessiva por outra pessoa – coitado do “o amor da minha vida”… ele vai conhecer o que de fato é um encosto;
  • Frustrações diante de suas decepções românticas, ao perceber que suas idealizações era mera fantasia e ilusões, e que o príncipe de encantado não tem nada;
  • E por fim, dentre muitos casos não citados, … o caso mais comum: depressão.

O seu comportamento, como você mesma disse, chega a ser doentio. Você não sabe porque se comporta assim, não sabe porque se sente dessa forma. Mas tudo isso só está acontecendo porque você, quando “fica” com alguém, está se traindo e não percebe isso. Existe um conflito aí. E você precisa resolver isso. Uma boa auto-análise poderia ajudar bastante. Mas resolver o problema não vai lhe tornar romântica. Apenas removeria o conflito e lhe deixaria livre para escolher continuar ou ser aquilo que idealizaram para você.

Eu sinceramente não entendo quando alguém me diz: “sinto falta de ter alguém”… eu não sei exatamente o que se espera. Ter (como objeto) outra pessoa? Ter o “conforto” de uma relação que só existe porque ambos assinam o compromisso legal/moral/religioso/social de continuar com tal relação? De ter o que ser humano algum no mundo pode me proporcionar – que é estar bem comigo mesmo?

Como venho dizendo… o amor não é exclusivista… ele não se dá para os mais “queridos”, mas sim para os mais necessitados. Não olha seus próprios gostos e vontades, mas importa-se com as limitações dos outros. Ignora o egoísmo alheio dizendo “perdoo-te pois não sabes o que fazes”. E todas as mais complexas e incríveis concepções do amor diferem vertiginosamente daquilo que as pessoas querem chamar de amor, mas que no fundo elas sabem que só é seu puro egoísmo gritando aos quatro ventos “EU e MEU”…

Mas bem, então você me pergunta: “Como então não sentir mais a necessidade de ter ‘alguém?’”. Bem… o problema é que você não sente. Você está muito bem solteira. Você passa muito bem assim. Eu acredito que você deveria se perguntar de onde vem essa pseudo-vontade/necessidade. Porque de você é que não é.

Algumas questões não ficaram claras, mas faço questão de não respondê-las para você mesma encontre o próprio caminho. Recebo meu abraço e continue lendo o conteúdo do site.

p.s.: Não sou vegetariano

Dos relacionamentos

Logo nos primeiros anos de vida ingressamos numa escola primária. Lá percebemos que nossas amizades são completamente descartáveis e instáveis. Sendo que nossa participação nelas é quase nula. Não decidimos com quem vamos conviver, quem serão nossos amigos, com quem podemos conversar, com quem podemos brincar, quem podemos visitar e principalmente não temos controle algum sobre a durabilidade desse relacionamento. Cabendo aos país e professores (ou qualquer “responsável”) a administração da nossa vida social.

Por isso a escola primária é o maior campo de treinamento contra-amizade que existe. Boa parte dos nossos pré-conceitos sobre os relacionamentos sociais são formados lá. A outra parte (que basicamente é a mesma coisa) é formada entre nossa família principal (pai, mãe e irmãos) e secundária (tios, primos, vós, etc), com grande influência da mídia, claro.

Hoje, a criança crescida concebe o mundo como uma escola primária. E por lógica consequência aplica nos seus relacionamentos sociais o que “aprendeu” quando ainda era muito pequeno. Ou seja: que as pessoas estão apenas “passando” em suas vidas; os relacionamentos são estabelecidos pelo interesse dos outros; a interação social nada mais é do que dar e receber favores (barganha); as pessoas irão lhe valorizar de acordo com o você tem além de você para oferecer à elas; a sinceridade de sentimentos e percepções é quase nula, vivendo assim sempre com um Judas em potencial ao lado; et cetera.

Assim é inevitável que o que antes era um pré-conceito infantil se torne um conceito completamente convicto. E tal convicção pode acabar gerando alguns dos comportamentos descritos abaixo.

A criança crescida se torna um adulto frustrado que tenta encontrar no relacionamento romântico uma fuga. Visto que o relacionamento romântico pouco foi compreendido durante o período escolar ele não carrega todos os pré-conceitos da frustração, raiva, ilusão e traição que a “amizade” carrega. Pelo contrário, carrega todas as melhores perspectivas do sentir e ser: querido, acolhido, respeitado, entendido, perdoado e aceito. Ou seja, a realização do “amor” se torna seu novo objetivo de vida.

Numa outra ordem ainda pior, a pessoa projeta em todos os seres humanos – ou quase todos, sobrando o (grupo de) refúgio que pode ser algum amigo íntimo, ou um pequeno grupo de amigos íntimos ou simplesmente a família principal – a mesma perspectiva que aprendeu enquanto criança, mas ao invés de buscar a realização do “amor” ele nada mais faz do que reagir ao mundo assim como o mundo o tratou: como um objeto. Assim ele busca uma vingança compulsiva e insaciável por tudo que um dia foi feito com ele.

Tal refluxo quase sempre acontece nas interações sociais românticas, talvez por envolverem com maior intensidade tudo que foi sentido nos primeiros anos de vida. Assim todas as relações sociais são relações românticas sadomasoquistas e exploratórias (no sentido de “tirar proveito ou utilidade“) de curto prazo ou médio prazo – quando não, uma relação romântica estável paralela serve como ponto de refúgio das demais desventuras românticas que não deixam de acontecer.

Além do que foi dito o resultado da educação social na infância pode gerar graves transtornos de personalidades que podem ser lidos na Wikipedia.

O comportamento analisado friamente como está acima pode não exemplificar com clareza de que tipo de comportamento estou falando. Contudo essa é exatamente a intenção. Não há como esclarecer como é esse comportamento nos mínimos detalhes porque cada pessoa o demonstra de uma forma diferente.

O mundo (as pessoas) seguem num caminho de desvalorização dos relacionamentos. É algo agonizante que não imagino onde poderia parar. Hoje muitas pessoas projetam a “salvação” num relacionamento romântico, grande parte delas acabam frustradas e a outra parte parte finge que está tudo bem.

Espero que com você seja diferente,

Por fim um último pensamento:

A melhor avaliação seria a auto-avaliação. Seria olhar para si mesmo e identificar-se. Saber quem “sou”. Contudo aprendemos a saber quem somos através da perspectivas dos outros. Mas os outros sabem quem somos?

Well… think about it ;)

Haverá continuação