Compreensões gerais

Nesse período que estive afastado do site (mas ainda não posso voltar completamente) tive a oportunidade de analisar alguns dos aspectos mais importantes debatidos aqui no site. Com certeza o mais importante, eu diria. Porque estamos dando voltas e voltas em torno de termos que pouco ou nenhum conteúdo possuem. Estamos olhando para o vácuo e querendo tirar dele algum objeto de análise.

O que é a sexualidade? Vez ou outro leio algum texto que faz uma generalização completamente absurda em volta do que seria a sexualidade (especialmente com crianças). E em uma dessas leituras acabei percebendo que esse erro não é uma consequência da ignorância do autor. A culpa na verdade está no termo utilizado.

Demos voltas e voltas e não saímos do lugar – ao tentar compreender a assexualidade – porque não conseguimos ao menos compreender a própria sexualidade! Como iríamos entender a ausência se não conseguimos estabelecer a existência? A ausência é por si só. Teoricamente nunca conseguiríamos falar sobre a assexualidade propriamente, mas sim sobre a falta da sexualidade. E aonde estamos se não conseguimos estabelecer uma identificação clara e simples do nosso objeto primário de estudo? Dando voltas e voltas…

Supostamente os princípios básicos dos seres vivos é a reprodução e a sobrevivência. De uma forma geral – como que por osmose – realmente absorvemos que esses são os princípios básicos da vida humana! Sobreviver e reproduzir. Em nossos tempos de uma insegurança global as produções artísticas-capitalistas não param de fabricar histórias sobre a luta humana pela sobrevivência pessoal e da espécie. 2012, O Livro de Eli, Eu sou a Lenda, Matrix, entre tantos outros.

Em ambos os aspetos prevalecem os instintos. Seja para sobreviver ou para reproduzir. O que seria verdade… se o ser humano não fosse o animal mais “toupeira” que existe! Serio! Instintivamente somos completamente tapados!

A sobrevivência e multiplicação humana se deve a nossa capacidade cognitiva. De associar elementos, guardar tais informações e reproduzi-las para nossos semelhantes e para as gerações futuras.

Não podemos generalizar tudo como uma busca pela sobrevivência ou pela reprodução. Não podemos dizer que a busca pela satisfação seja uma busca sexual. Como podemos fazer isso se nem ao menos temos uma definição clara do que é um comportamento sexual? Na verdade o ser humano chegou num ponto absurdamente divergente dos seus “princípios”. Temos a eutanásia e os métodos anticoncepcionais. As pessoas não estão preocupadas em sobreviver… mas sim em qualidade de vida. Não se preocupam em reprodução, mas sim em satisfação.

Acredito que se podemos analisar o comportamento sexual de um animal e ter compreensões claras sobre isso então somos totalmente capazes de analisar o comportamento humano, e ter conclusões claras sobre isso. E na verdade já temos a base do que precisamos conhecer. Animais não vivem em função do sexo. Normalmente vivem pela manutenção da própria vida. Em atividades básicas como procurar alimento, dormir, determinar território, etc.

Animais não vivem bitolados em sexo… até que em algum momento, por algum mecanismo, eles iniciam um processo de interação sexual, cópula e a fertilização. Esse processo é bem peculiar e visível em todos os animais estudados pelo ser humano. E em muitos casos conhecemos incrivelmente bem esses mecanismos, principalmente para animais utilizados para o consumo humano.

Por que podemos saber tanto sobre esses animais e não sabemos nada sobre nós mesmos? Por que vivemos vagando em definições sem sentido? Acredito que não queremos admitir o mais óbvio de todos os fatos. Assim como tudo a sexualidade humana é um elemento majoritariamente intelectual.

Mas… por que não admitiríamos isso? Não sei… mas posso especular que não queremos acreditar que podemos controlar esse aspecto. Porque se é intelectual então podemos construí-lo e desconstruí-lo, moldar ao nosso desejo. Não poderíamos mais tratar o sexo como uma pulsão desenfreada do instinto humano. Teríamos que desconstruir tudo que chamamos de sexualidade. Teríamos que mudar nosso olhar para todos os nossos objetos (abstratos e materiais) erotizados. Teríamos que mudar toda nossa perspectiva sobre a vida. O que parece a atitude mais correta a ser feita. Contudo todo nosso sistema social, comercial, cultural e intelectual está fortemente baseado nessas estruturas vagas da loucura da “sexualidade”.

Então, no fim, se formos olhar para a sexualidade como o comportamento instintivo-animal para a reprodução da sua espécie chegamos a conclusão de que o ser humano não tem sexualidade.

O que motiva a busca pela cópula e por descendes, no ser humano, não são elementos instintivos incontroláveis… mas sim toda nossa educação intelectual. Com toda certeza existem elementos instintivos que passivamente estimulam ou interferem nesse processo, mas a eles não cabe mais do isso. E mesmo assim estão tão absorvidos pelo nosso intelecto que não podem ser mais encarados como instintos atuantes independentes.

Nossa busca pela satisfação superou a busca pela sobrevivência e pela reprodução. Os instintos hoje estão canalizados, catalizados e conscientizados para uma busca cada vez mais complexa e profunda da satisfação humana. Numa perspetiva nunca antes imaginada. As contingências humanas já superaram o simples apelo das pulsões instintivas. Não buscamos um preenchimento superficial dos nossos desejos simples. Gradativamente percebemos que precisamos de muito mais do que isso…

E portanto daqui para frente não poderemos mais falar de um “comportamento sexual”. De distinções entre grupos de interesses. Precisamos trazer uma nova consciência. Não mais estabelecida sobre um aspecto completamente vago! Teremos uma nova abordagem. E essa será nossa busca nos próximos dias.

Assexualidade, solidão, relacionamentos e vida

O tempo vai passando e a assexualidade vai se tornando mais conhecida. Isso quer dizer que um maior número de pessoas vai descobrir que é possível viver sem sexo. E assim toda a pressão em cima da sexualidade vai diminuir gradativamente e mais pessoas poderão se identificar enquanto outros poderão se sentir mais leves e seguras.

Na verdade ninguém sabe o que o futuro espera. Há quem acredite que o crescimento da assexualidade é um movimento do inconsciente coletivo inconformado com a erotização da vida, dos paradoxos do sexo e do consumismo humano. Enquanto outros acreditam que a assexualidade sempre esteve presente nas mesmas proporções atuais, mas não tinha a divulgação que temos hoje. Não temos como saber agora… o que temos é esse fato. Mas ao mesmo tempo que mais e mais pessoas estão se identificando muitos (a maioria) deixa passar o mais importante: a auto-análise.

A sexualidade está aí a milênios. Na verdade essa forma de comportamento foi a principal responsável por todo nosso mundo atual. A forma como vivemos, compramos, nos relacionamentos, crescemos, pensamos, desejamos, trabalhamos, estudamos, etc. De uma maneira geral tudo converge para o erocentrismo, a sexualidade. Por isso toda pessoa que segue o rumo da sexualidade está trilhando um caminho já traçado. Com regras, padrões e modos estabelecidos. Ela não precisa pensar muito por conta própria sobre como será sua vida sexual, social, familiar, financeira, etc. Ela só precisa seguir o caminho mais ou menos claro estabelecido culturalmente pelos seus ancestrais.

Mas o que acontece quando essa pessoa segue um caminho diferente? O que acontece quando ela acorda e percebe: “eu sou diferente”?

Existem várias abordagens. Há quem rejeite esse pensamento e queira ser igual. Há quem entenda que é completamente diferente das outras pessoas e deve buscar uma vida compulsoriamente diferente. Há quem entenda que deve ser diferente exclusivamente nos aspectos popularmente conhecidos como sexuais. E por aí vai.

Por isso estou cansado de ver pessoas associando a falta de desejo/atração/interesse por sexo (assexualidade) com infelicidade, solidão, isolamento, inferioridade, etc. Mas é pela falta de auto-conhecimento que a grande maioria das pessoas segue exatamente por esse caminho.

Ora, quem disse que viver é fácil? Viver implica em pensar a vida. Não podemos nos ater a padrões, rótulos, modelos, modos, etc. Tais coisas não possuem valor por si só. Mas nos apegamos a elas na nossa eterna busca pelo sentido cósmico. Quando descobri a assexualidade me apaguei (assim como quase todo mundo) aos padrões encontrados. Por um lado me senti extremamente leve, mas por outro tinha um peso que eu sentia não fazer parte de mim.

Praticamente toda minha vida futura havia perdido o sentido. Os modelos comuns perderam seu sentido e eu não sabia mais o que fazer. Por algum tempo fiquei anestesiado. Sem sentir a dor da incerteza. Dos relacionamentos sociais eu não esperava muito. Já que considera que quase tudo nesse campo estava erotizado. Acreditava que não me incomodava em não ter pessoas que me amassem. Praticamente não tinha amigos. Minha carreira profissional havia perdido o brilho da sensualidade. Até os estudos perderam o sentido. Poucas coisas me traziam alguma satisfação.

Mas, assim como antes, eu não parei de pensar. Foi o pensamento que havia me levado até lá… e era certo que eu não ficaria no mesmo lugar por muito tempo. Aos poucos fui redescobrindo os sentidos da minha vida. E na verdade isso nunca terminou e nunca vai terminar. Toda minha viagem até aqui tem sido descobrir o que realmente me satisfaz e como posso viver melhor essas experiências.

A primeira que entendi foi que o problema quase nunca está no processo si, mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos pela minha cultura. Assim descobri que ao contrário do que pensava eu não era anti-social. Minha evasão dos relacionamentos basicamente se fundamentava em dois aspectos: minha extrema sensibilidade e inconformidade com os padrões estabelecidos. Minha isolação era um recurso de fuga, auto-segurança. O mundo me sufocava com seus hábitos, apatia, violência e cinismo… minha melhor defesa era o sarcasmo, a frieza e a passividade. Ou seja… ser completamente indiferente.

Então eu tive que aceitar que na verdade eu era um ser sensível. O que não foi fácil. Já que nossa norma (a normalidade) implica em ser insensível. Minha sensibilidade me dava uma grande sensação de total desamparo e fragilidade. Então tive que descobrir os recursos certos (e automaticamente anormais) para viver dessa maneira – com a minha sensibilidade. Com o tempo percebi que a sensibilidade na verdade me abria a uma compreensão mais profunda da vida. O que chamamos de empatia. E isso me fazia sentir mais dor naquilo que antes já doía, e mais desconforto naquilo que já incomodava e mais desespero para aquilo que era urgente. Mas isso era bom. Porque ao mesmo tempo os sentimentos positivos eram igualmente mais profundos e sinceros. E isso tudo me ajudava a mudar ainda mais. A agir. A fazer coisas o que eu sabia que deveria fazer.

Então deixei de ter medo da sensibilidade. E não me senti mais frágil. Porque isso me tornava ainda mais forte e efetivo na minha vida. Em um pouco mais de um ano minha vida mudou mais do que em todo meu passado. Consegui realizar muitos sonhos do passado. E tive novos sonhos. Enquanto vive coisas que nem tive tempo de sonhar! A fragilidade se desfez, mas paralelamente também existia o sentimento de desamparo. Não era mais tão fácil ignorar as outras pessoas. Eu não sabia como me relacionar. Se deveria ter pessoas realmente importantes na minha vida. Afinal essa abertura também me fragilizaria. Eu poderia continuar fechado? E como me relacionaria com essas pessoas? O que elas iriam esperar de mim? Será que eu conseguiria suprir todas as suas expectativas? Será que me magoariam? Que tipo de envolvimento teríamos? Durante toda minha vida provavelmente conheci milhares de pessoas… mas tanto tempo depois quantos estão do meu lado? Quantos se importam comigo?

Eu tinha medo de que isso acontecesse novamente. Confiar não era fácil. Eu já conhecia o incrível poder humano de me frustrar. Então deduzi que eu estava sendo egocêntrico. Por que só eu poderia ser assim? Por que todas as pessoas teriam que ser hostis e insensíveis? “Não… deve haver mais alguém”. Assim descobri, através do site, algumas poucas pessoas (realmente poucas) que faziam uma viagem parecida com a minha.

E naturalmente não tive medo de me abrir para essas pessoas. Na verdade eu nem ao menos percebi que isso estava acontecendo. Quando me dei conta elas já estavam lá. E com o tempo me senti… como “normalmente” se diz… amado. Na verdade, sendo mais específico, senti que havia encontrado pessoas que realmente se importavam comigo; gostavam de mim pelo que sou; não viviam em cima de expectativas que eu nunca poderia suprir 100%; eram carinhosas e compartilhavam de minhas dores e alegrias; etc.

Principalmente eram pessoas reais isso é, haviam pontos positivos e negativos. Em muito me faziam feliz e em alguns casos me deixavam tristes. Me encantavam mas também podiam me frustrar. E isso era bom. Pois, não importava a circunstância, sempre havia um equilíbrio. Sempre havia um compromisso consigo mesmo de fazer o melhor. Chegou um momento em que eu percebi que havia algo “errado” om meus relacionamentos. Eles não estavam padronizados. O nível de intimidade e de “amor” que tínhamos não caberia naquilo que chamamos de amizade. Na verdade não caberia nem mesmo dentro de um namoro.

Foi aí que percebi que meu problema com os relacionamentos não estava em mim ou mesmo nas outras pessoas. Mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos.

Aos poucos fui desconstruindo esse pré-conceitos e fui (e ainda estou) explorando novos caminhos. E o fruto dessas descobertas sempre trazia mais intimidade e criava uma relação mais madura e sólida.

Primeiramente descobri que a erotização está em nossa própria mente. Se eu erotizo um abraço… logo ele sempre será erótico. O mesmo vale para as palavras e tudo na vida. Assim fui desconvertendo tudo aquilo que a minha cultura havia trazido para o Maculado Caminho da Erotização e descobrindo como a afetividade pode ser doce, pura, sincera e desejável. Sem que tudo se transforme numa compulsória busca por prazer, numa objetificação do outro ou mesmo num processo de auto-engano. E na verdade, nesse processo, tive que reformular o próprio conceito de afetividade.

Mas claro que nada disso foi tão fácil quanto pode parecer. Como disse já se passou um pouco mais de um ano… e nesse processo tive que errar muito (leia sofrer) e reaprender a fazer a coisa certa.

E assim como o que foi dito até aqui toda a minha vida foi ganhando forma. E esse processo não terminou. E espero que nunca termine!

Eu poderia falar muito mais sobre minha vida. Mas concluindo digo que hoje não vivo mais em cima de uma pseudo-satisfação pela indiferença. Nem vivo fantasias hollywoodianas. Mas me sinto profundamente satisfeito com tudo que vivi e com a proposta do que viverei.

Com isso não quero dizer que as demais pessoas devem fazer o que fiz. Não… esse foi o meu caminho. Não tente seguir o meu caminho. Procure o seu, mesmo que esse seja idêntico ao meu, mas tenha consciência de que ele é seu.

Todo esse triste estereótipo em cima dos assexuais é apenas um retrato do que muitos vivem. Não por acasos da vida, ou pelo próprio efeito da assexualidade. Mas sim por que esse foi o caminho que escolheram seguir.

Por mais óbvio que possa parecer uma mudança de vida requer uma mudança de atitude. A assexualidade não trás qualquer problema para a vida, pelo contrário! O que falta não é uma receita mágica de um livro de auto-ajuda sobre como ser feliz. O que falta é uma simples, profunda e interminável mudança de atitude.

Os esterótipos mudam quando mudamos. Se os assexuais continuarem por trás dos seus rótulos e “critérios” inúteis… sempre serão conhecidos como atualmente são. A melhor maneira de mudar isso é descobrindo seu próprio caminho.

O auto-engano como pseudo-vida

O Bruno nos enviou um email com uma situação bastante interessante:

Pessoal

Tenho uma pergunta que para mim é muito séria, e gostaria de ser respondido o mais rápido possivel.

Eu tenho 26 anos e não me sinto atraido por nenhum endividuo (homem ou mulher), as vezes tenho sonhos erótico e ate pratico a mastrubação ao ver um vídeo, mas isso acontece muito raramente. As vezes sinto falta de uma pessoa do meu lado, mas fico muito tempo sem pensar nesse assunto.

Existe muita presão de amigos e parentes pelo fato de ainda ser virgem, alguns até me roturam como gay, mas não me sinto atraido por ninguém. Por outro lado tenho o desejo de formar uma familia e ter filhos, mas não me imagino se relacionando com alguem.

Será que eu poderia ser um assexual? Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual, será que isso é assexualidade?

Aguardo resposta!

Att

Já recebi comentários e emails de várias pessoas em situações parecidas com a do Bruno. Mas ele sintetizou tudo de uma forma simples e objetiva.

“Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual”, que tipo de pessoa é essa?

O Bruno fez uma grande confusão aqui… Primeiramente é bom repensar o que é prazer. Eu não gosto desse termo. Prazer é uma palavra muito vaga. Poder ser qualquer coisa. E quando falamos em prazer logo associamos a algo agradável. E não é bem assim. Alguns narcóticos produzem prazer e mesmo assim boa parte da população os repudia, mesmo conhecendo seus incondicionais efeitos.

Por isso prefiro o termo satisfação. Por ser uma palavra que envolve uma perspectiva mais holística do que prazer. O que as pessoas (em geral) buscam no sexo não é prazer. Se assim fosse elas usariam as drogas. As pessoas buscam a satisfação Tanto que muitas pessoas fazem sexo, mesmo sem orgasmo, e ainda assim se sentem totalmente satisfeitas.

Então a primeira coisa que você deveria fazer é reavaliar se o sexo é uma emoção de prazer ou sentimento de satisfação. O orgasmo em si parece produzir algum tipo de prazer. Mas isso não necessariamente quer dizer que você gosta de todo o processo. Isso é o ANTES (tudo que te leva ao desejo e a efetuação da masturbação ou de qualquer ato sexual até a preparação para o ato), AGORA (o processo do ato propriamente) e DEPOIS (o momento posterior ao orgasmo ou que seja entendido como o termino do AGORA).

Todo esse processo (do ANTES, AGORA e DEPOIS) é extremamente complexo e não tem um momento certo para começar ou terminar. Na verdade ele é fluído, acontece durante toda sua vida ou mesmo paralelos a outros processos sexuais.

O que você pode fazer é analisar suas motivações (ANTES), atos (AGORA) e reflexos (DEPOIS) e então tirar uma conclusão: isso me satisfaz?

Cada pessoa passa por um processo único. Por isso é perda de tempo olhar para as receitas prontas da mídia. Algumas pessoas dizem que se sentem péssimas após o sexo (DEPOIS). Outras dizem que adoram todo o jogo das conquistas e as palavras sugestivas (ANTES), mas que não suportam o sexo propriamente dito (AGORA). Outros dizem que realmente não importam com o ANTES ou com o AGORA, desde que elas se sintam bem no DEPOIS.

E muitos nem ao menos fazem essa reflexão. Enquanto outros escondem a própria verdade.

Todas as suas experiências sexuais foram com a “auto-experimentação”, a masturbação. Você (o que inclui uma “extensão” sua como a imaginação) foi o objeto causador, realizador e contemplador da sua experiência sexual. Logo não se trata de você e outro ser humano, mas sim… você e você mesmo.

Sendo assim, até certo ponto, você não sabe o que é sexo inter-pessoal. Todas as suas concepções são projeções daquilo que você já experimenta. O que você deseja não é necessariamente o sexo. O que você deseja é um projeção do que você imagina ser o sexo.

Na verdade essa projeção é tão bem estruturada e alimentada que facilmente passa desapercebida como algo real. Assim é possível que você nunca saia desse ciclo de projeções emocionais de desejo e satisfação. Vindo a fazer sexo… e dizer que adora… dizer que fica louco na cama… ou seja lá que expressão ultra-satisfatória você encontre.

Mas é claro que não se tratando de algo real – isso é condizente com o que você realmente sente, deseja, experimenta, gosta, etc. – irá lhe prejudicar, mesmo que seja de uma maneira imperceptível a curto prazo.

Então… “Uma pessoa que nunca namorou, que é virgem, que não sente atração por ninguém, mas que sabe que há prazer no sexo e as vezes sente até esses desejos, mas não concegue se imaginar fazendo uma relação sexual”, que tipo de pessoa é essa? É você?

Namorar e ser virgem não tem qualquer relação com a assexualidade. Não conseguir imaginar-se num ato sexual também pouco diz por si só. E como disse antes você precisa refazer a sua avaliação sobre suas experiências com a masturbação.

Agora, é lógico que você é uma pessoa oprimida. Aos 26 anos é homem e virgem. Tudo e todos te oprimem, dizem que você é inferior, é nada. E você faz uma re-projeção num dos mais velhos arquétipos de realização e sucesso: a família. Ainda assim você acha impossível… porque família implica em sexo. E o ciclo continua sem fim.

Como parar com isso?

A resposta é bastante simples. Liberte-se e padrões e expectativas. Compreenda que você não deve ser aquilo que seus “amigos” dizem, ou o que a mídia induz. Você não precisa comprar os produtos da moda, assim como não precisa comer a mesma comida. Você pode fazer a sua vida. Sem rótulos, padrões, pré-conceitos, etc.

“Mas como fica a questão da assexualidade?”, você deve ficar se perguntando. Como tudo. Você só precisa analisar. Não precisa se encaixar em rótulos, definir-se em padrões. Só precisa analisar. Isso me faz bem? Devo continuar fazendo isso? Até onde isso me trouxe? Estou satisfeito com que faço? Estou satisfeito com o futuro ao qual isso me leva?

Viver dá trabalho, meu amigo.

Boa sorte. ;)

O ambiente e você

Não que eu seja um determinista… mas não dá para negar que somos influenciados pelo ambiente. Um estudo analisou como o toque muda nossas percepções.

Sem mais delongas segue o texto do Mindhacks, que sintetiza o que foi analisado:

Not Exactly Rocket Science covers a fascinating study on how touching different objects influences how we perceive the world – based on abstract associations between things like weight and seriousness.

Weight is linked to importance, so that people carrying heavy objects deem interview candidates as more serious and social problems as more pressing. Texture is linked to difficulty and harshness. Touching rough sandpaper makes social interactions seem more adversarial, while smooth wood makes them seem friendlier. Finally, hardness is associated with rigidity and stability. When sitting on a hard chair, negotiators take tougher stances but if they sit on a soft one instead, they become more flexible.

The study, led by psychologist Joshua Ackerman, involved a series of innovative experiments that asked people to complete tasks and looked at the effect of simply changing texture or sensation on how the participants’ behaved or perceived the situation. For example:

Ackerman also looked at the influence of an object’s hardness. He asked 49 volunteers to touch either a hard block of word or a soft blanket, under the pretence of examining objects to be used in a magic act. Afterwards, when they read an interaction between a boss and an employee, those who felt the wood thought the employee was stricter and more rigid than those who touched the blanket (but no less positive)

This has obvious practical implications and I suspect attractive shop assistants will find themselves puzzled by sudden influx of the oddly alluring strangers who keep asking for a couple of peaches before asking them out.

O que isso quer dizer dentro dos nossos temas?

Para acessar a matéria original click aqui.

Bem… e se…?

O sexo é algo que mexe com quase todas as pessoas pessoas. Não pela mecânica da excitação sexual e do orgasmo. Mas sim pelos seus valores e significados que não são claros, mas estão há tanto tempo na nossa sociedade que muitas vezes não são questionados.

Você até então não teve interesse por sexo… sempre achou algo banal… algo irrelevante para um relacionamento. Até que seu pensamento começa a mudar. Mas novamente de uma maneira não muito clara. Você começa a imaginar como seria importante ou significante fazer sexo com alguém que você gosta muito, ou com alguém que potencialmente você gostaria muito. Ou mesmo com um desconhecido ou com um amigo colorido…

Então você começa a se questionar: será que realmente não gosto de sexo? Será que vou gostar? E se eu não gostar?! Será que vou ficar dependente disso? Será que não conseguirei mais viver sem sexo?… Realmente é uma situação confusa.

Mas talvez você nunca tenha parado para pensar no esse desejo quer dizer…

Vamos pensar um pouco. Será que seu desejo tem fundamento? Suponto que seu interesse inconsciente seja pelo prazer… o que faz você pensar que o prazer sexual é tão poderoso assim? Até uma montanha russa pode provocar um conjunto de emoções muito mais intenso! Qualquer droga “ilícita” pode criar um prazer incomparável… e eu não acho que você tenha uma fixação em montanhas russas e espero que não use drogas.

Pense bem… é o prazer que você procura? É lógico que não. Então… o que seria?

Poríamos ficar falando aqui sobre as mais diversas ilusões que nos (assexuais) fazem sentir um estranho desejo por sexo. Mas eu acredito que existe dois grandes fatores:

Rito de passagem; o rito de passagem pelo sexo é uma das coisas mais antigas que a humanidade já inventou. Ele foi perdendo suas formas mais espalhafatosas, mas foi progressivamente vez se infiltrando mais e mais dentro da nossa mentalidade comum. O que antes era um evento extremamente organizado e evidente hoje faz parte da vida de uma maneira que nem percebemos.

Logicamente esse é um rito desnecessário, como tantos outros. Mas até o momento em que o identificamos e o neutralizamos ele fará parte de nossas vidas e até certo ponto nos controlará.

Quase todos os produtos da nossa sociedade usam o sexo em algum aspecto. Até comerciais de colchão usam sexo para vender! É um ciclo vicioso, impessoal e incontrolável.

Na prática tudo se transforma numa grande pressão inconsciente sobre nós, e por nós me refiro a todas as pessoas. Então oprimidos por vocês que não sabemos a orgiem… e não sabemos suas formas… somos acuados e fragilizados.

As pessoas reagem das mais diversas maneiras diante de todo esse processo. Muitos entram em depressão, outros se matam (literalmente) e tantos outros sentem uma forte pulsão pelo sexo. Sem falar nas parafilias mais diversas que podem se desenvolver.

Valor emocional-relacional; no caso do rito de passagem, dito acima, a pessoa idealiza o sexo como um obstáculo/evento que acontecerá… e muitas vezes nem consegue imaginar aquele mesmo evento acontecendo 3 vezes ao dia… todos os dias durante quase toda a vida. Outros já conseguem…

Esses encaram o sexo como algum objeto de valor nas suas vidas. Enquanto uns imaginam que uma vez perdendo a virgindade poderão enfim ser felizes… outros encaram o que chamamos de “vida sexual”. Bem… se realmente o sexo tem tantos valores para você… tudo bem. Faz sentido que você o desej tanto. Mas o problema é justamente se esse valor realmente existe e se ele é real!

Ou seja… se você realmente pensa dessa maneira, ou está apenas projetando algum outro problema sobre o sexo. E se esse valor é coerente com o que você é.

Pense nisso! ;)

E sempre lembre-se que a frustração por não fazer sempre é bem menor do aquela pelo que foi feito e é irreversível. Por isso… tenha calma.

duas da manhã, por ela

Bem, são duas horas da madrugada… acho que ele já está dormindo. Agora posso ir… ou é melhor ficar por aqui mesmo? E se eu não for? O que ele vai pensar quando acordar?

O quarto é tão frio e sombrio. Nenhuma luz, apenas alguns reflexos da lua. Eu me aproximo da cama… tento fazer o menor barulho possível. Parece que Ele está dormindo. É… parece que sim… posso respirar agora.

Mas é melhor esperar um pouco… meu corpo quente pode acordá-lo. É melhor deixar meu corpo se esfriar. Olho para o criado mudo para pegar uma revista e vejo a gaveta um pouco aberta. Apenas documentos… mas algo me disse que deveria olhar mais cuidadosamente…

Um DVD. Algumas pessoas na capa… mas eu não conseguia identificar. Me aproximei da janela… e o conteúdo era óbvio. Eu sabia que Ele assista essas coisas… mas não sabia que ele teria coragem de trazer para casa. Para que ele precisava disso? Suas amantes já não bastam?

Uma vontade incontrolável surgiu em mim… eu queria colocar aquele vídeo no seu devido lugar e ir dormir em paz. Ou no que eu poderia chamar de paz. Mas não… eu não conseguia… minha mão tremia de ansiedade. Eu tinha que assistir.

A cozinha era o local ideal… a porta poderia ser trancada e ninguém iria imaginar. Coloquei o vídeo para tocar. E me sentei numa cadeira. Meu corpo todo demonstrava minha ansiedade… aquilo me empolgava… me fazia querer mais. Eu não sabia porque estava alí… mas eu já estava…

As cenas me causavam sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que eu odiava o que estava fazendo… eu me sentia profundamente em paz… esquecia de tudo… e tomo meu corpo parecia se deliciar. Ou ao menos… não se importar. E por aquele pequeno tempo… eu me sentia outra mulher… uma mulher com poucos sentimentos, sim. Mas me sentia tudo. Eu gostava de ver até o fim… assim eu poderia sentir ao máximo… e me sentir viva por alguns minutos.

Quando tudo termina, e eu finalmente chego ao orgasmo. Eu sinto nojo. Eu tento continuar assistindo. Mas aquelas cenas são patéticas. Agora não me suscitam qualquer ansiedade… não me fazem idealizar qualquer prazer. Me sinto o mesmo pedaço de merda de sempre…

Eu não me movo por um longo tempo… talvez tentando fazer meu coração parar… e ter uma morte suave. Não sei… mas eu prefiro não mover… Mas nada muda… agora está feito. E eu agora posse me odiar em paz… odiar meu marido em paz… odiar até meu filho com grande satisfação. O que eu quero mesmo é todo esse ódio. Toda essa raiva. Depois da loucura… a raiva é minha melhor amiga… ela me faz sentir viva… ter um propósito, um sentido. Uma razão para ser.

Eu não percebi o tempo passar… me esqueci de olhar o relógio. E fui para cama. Não me importava mais com nada… eu sentia tanta raiva que o que mais queria mesmo era uma boa briga.

Mas eu não sabia o que dizia… quando cheguei no quarto a luz do banheiro estava acessa. Ele estava acordado. Corri e me escondi debaixo dos cobertores. Talvez ele não percebesse minha ausência. Mas não adiantou muito. Ele subiu por cima de mim… sabia que eu estava acordada. E tentou me beijar… sua respiração quente me sufocava. Seu hálito tinha cheiro de remorso.

Seu corpo se contraia contra o meu… enquanto eu tentava não sentir… ou sentir… seria bom. Seria bom, não é mesmo? Mas eu não sabia exatamente o que queria naquele momento. Mas haviam sentimentos em mim que nem eu mesma poderia controlar… e isso me fazia sentir medo… eu queria controlar… e tudo isso me fazia controlar ele. Controlar o que estávamos tendo alí.

Segurei sua mão… e o puxei… o beijei com muita raiva. Senti seu corpo amolecer. Ele estava se entregando. O puxei para o lado… e desde então tudo que eu fazia era tentar controlar… e tudo que ele fazia era tentar possuir. Passamos algum tempo naquela disputa de pulsõs e desejos de ódios e remorsos.

Até que ele chegou ao orgasmo… eu pude me sentir vitoriosa. Me senti incrivelmente vitoriosa…

Uma brisa fria fez meu corpo se arrepiar… o presságio de algo que eu sabia que era inevitável. Então me entreguei a mim mesma. E por fim cai no sono.

No dia seguinte eu pude me acordar com o mesmo remorso de sempre. Ele não estava mais em casa… e meu filho já estava na escola. O sol brilhava… era lindo. Mas eu não conseguia sentir o sol. Um passarinho cantava sarcasticamente na minha janela… mas eu não conseguia ouvir. Meu cachorro me fazia um carinho gostoso nas pernas… que eu não conseguia sentir.

Depois de um bom tempo… meu corpo zumbificado se levantou… e se sentou no sofá da sala… automaticamente liguei a TV. E fui mudando de canal em canal tentando procurar algo interessante. Num programa de auditório muitas mulheres semi-nuas dançavam… seus belos corpos e sorrisos radiantes me faziam querer ser feliz como elas. Todos os homens as admiravam… isso devia ser bom. Devia fazer a vida ter algum sentido. Eu não sei… mas queria aquilo.

Num outro canal… alguns jovens revesavam pela disputa de uma garota. Ela parecia radiante… ria o tempo todo, estava feliz. Eu queria ser como aquela garota… tantas pessoas se importando comigo. O que eu mais gosto na TV é que eu não pensar… ela me ensina exatamente como posso ser feliz… pena que eu nunca entendo exatamente como chegar lá… talvez eu seja burra demais.

O telefone tocou! Eu tomei um susto… meu coração começou a bater sem parar… será que era ela? Será que ela se lembrou de mim?… Algum movimento ninja me fez agarrar aquele telefone de onde eu estava… atendi com tanta força e energia que pude ouvir minha própria voz retornando.

Mas era apenas uma cobrança de dívidas. Eu não pago as contas sabia?

Se há um sentimento que faz parte de mim é a frustração… o dia já havia começado e eu já podia me sentir eu mesma… a velha desgraça ambulante que habita esse miserável mundo.

Por que as pessoas são assim? Por que ela não me ligava… será que ela não sabe como mudaria meu dia? Enquanto pensava a campainha tocou… era Marta. Ver seu rosto me deu um profundo cansaço… eu não consegui ao menos dar um oi. Ela me abraçou… com se quisesse me fazer acordar… olhou para os meus olhos profundamente… acariciou meu rosto com sua mão macia… e sem mais palavras me deu um beijo e foi embora.

Minha comunicação está ficando mais efusiva a cada dia. Em breve não precisarei mais falar palavra alguma.

E ainda me pergunto porque as pessoas fogem de mim…

Eu não mereço pessoa alguma… o mundo não me merece. Eu sou a condensação de toda a desgraça existente. A campainha tocou novamente… era Jesus, o jardineiro. Mas que deveria trabalhar como ator… ironicamente foi isso que ele tentou fazer antes de entrar no fundo do poço.

Ele me cumprimenta com toda sua educação formal… não olha nos meus olhos e segue seu caminho. Enquanto eu assisto TV Jesus faz seu trabalho suado no nosso jardim… ver todo aquele esforço me fez sentir pena dele… o convidei para tomar um banho e almoçar comigo. Eu estava tão sozinha… e Jesus era uma das únicas pessoas que me faziam alguma companhia.

Em pouco tempo estávamos atracados fazendo algo que chamamos de sexo, no banheiro. A única diferença entre Jesus e meu marido estava no quanto eu o odiava… Jesus me trazia uma certa paz… uma certeza de que eu não teria muito com o que me preocupar. Falávamos pouco… eu não me sentia segura com Jesus, mas me sentia segura comigo mesma. E isso bastava para querer sua presença.

Por algum tempo eu pude me sentir aquilo que minha mãe sempre sonhou para mim. E isso me fazia muito feliz… Eu pude cuidar de um homem, como ela sempre me disse que eu deveria. Meu marido não me dava esse gosto… na verdade ele não me dava gosto algum. Enquanto eu estava com Jesus eu podia sonhar…

Uma ilha tropical, uma pequena casa de madeira, um lindo mar, nenhuma TV e nenhum ser humano por perto. Esse era meu sonho. Um sonho perfeito. As vezes penso que o que eu mais gosto em Jesus é o fato de que com ele eu posso sonhar… não ligo para sexo… não ligo para seus beijos… Jesus para mim servia como um objeto. Como tudo em nossas vidas. Um objeto que me dava o prazer de sonhar.

Por que então eu fazia sexo com Jesus? Ora… o que faria? Como teria sua atenção? Como teria sua presença? Mas logo ele teve que ir. Meu filho estava chegando… um garoto de 14 anos. Que em muito parecia com o pai. E tolo o bastante para ter o mesmo fim. Uma de suas gavetas é lotada de cartas de amor… de uma garotas mais estúpidas do que eu. Uma outra é lotada de bonecos, revistas e livros dos seus ídolos. Homens que não eram humanos… gente que nunca viveu. Mas que alimentava as fantasias do mais novo produto da fábrica humana, meu filho.

De longe eu não me importava. Em casa ele tinha apenas um regra: nunca, em hipótese alguma, trazer pornografia. Isso o fazia ter uma imagem puritana dos seus pais. Mas o que eu queria mesmo era não ter que adoecer todas as noites. E poder fingir que sou diferente.

A tarde passo fazendo as tarefas de uma boa dona de casa… isso me faz esquecer da vida. Me faz pensar na minha mãe… em tudo que ela me ensinou. Boa parte de toda essa merda que chamam de minha vida é graças à ela. Mas eu não ligo. Contraditoriamente me sinto bem em me lembrar de todos os seus ensinamentos. E assim as horas passam… até que meu marido chegou do trabalho… e eu não o percebo… na verdade não me importo, a não ser pela sensação de sufocamento constante.

Prefiro ir dormir… assim nos desencontramos na cama… ele não perde seu tempo falando comigo, felizmente. As vezes me pergunto se gostaria de ser tratada como um ser humano… e não como um mero objetivo de sua vida pública ou de seus fetiches sexuais. Mas no fim eu não me importo… não sei o que quero. Ou melhor… sei sim! Quero dormir e se possível não acordar.

Boa noite.

E se eu não gostar?

Anteriormente eu falei sobre uma das primeiras dúvidas que uma pessoa assexual tem quando busca fazer sexo. Em seguida a dúvida que surge é justamente “e se eu não gostar?”.

A grande questão é porque essa dúvida existe. Afinal… o que eu perderia por não sentir muito prazer ou por não gostar no conjunto completo?

O problema é simples: as pessoas não buscam o sexo por si só. Buscam o que o sexo significa… e para mais esse significa é a normalidade. Falei sobre isso num post anterior, assim como tenho falado em todo o site.

Esse medo sempre vai existir quando o sexo for desejo por conteúdos que não fazem necessariamente parte dele. O que acontece quase sempre.

O maior medo das pessoas na hora do sexo é simplesmente não satisfazer o parceiro. Quanto altruísmo! A humanidade está mudando tanto assim? Não… satisfazer o parceiro não é sobre amor… é sobre a nossa boa e velha amiga insegurança.

As pessoas vivem num clima constante de insegurança… e todas as soluções são longas e não muito práticas. Enquanto a normalidade sempre oferece uma solução rápida e prática. Basta ser normal!

Mas uma pessoa normal gosta de sexo… e se eu não gostar? Será que posso fingir e meu parceiro nem vai perceber? Mas e se eu não conseguir fingir? E se eu não aguentar fingir para sempre? Quero ser normal!!!

Amarga agonia…

Bem… eu já disse que esse é um caminho vão… mas para aqueles que realmente acham que vale a pena “mudar” e buscam uma vida normal através de uma vida sexual… o caminho é o mesmo do proposto anteriormente.

Não existe solução mágica. Você terá que encarar de frente… ou seja: fazer sexo. E talvez consiga gostar. Ou não. E talvez consiga se sentir normal. Ou não.

Mas é o único caminho possível.

Mas se você realmente não gostar… existem dois outros novos caminhos: (1) procurar mudar esse sentimento através de terapias, drogas, etc. Ou (2) parar de tentar ser normal.

Auto-traição

É bem provável que 99% das pessoas que começaram a entender sua falta de interesse sexual estavam, antes disso, tentando ser algo que elas não se sentiam.

Como assim?

Em geral as pessoas mentem sobre o que pensam e sentem. Mas antes de mentirem para as demais pessoas elas mentem para si mesmas.

A falta de interesse por sexo é algo que a sociedade não aceita. Não porque implica em algo que desagrade as demais pessoas diretamente. É irritante a partir do momento em que prova que a vida pode ser diferente.

Mas a grande maioria nunca acreditou nisso… nunca consideraram a possibilidade de ser aquilo que são. Sempre tentaram se adaptar… se abster de viver suas vidas para se encaixarem em padrões sociais pré-estabelecidos.

A assexualidade prova para muitas pessoas que boa parte de suas vidas foi vã. Sim… vão… sem significado, sem conteúdo, incipiente, superficial, etc.

É revoltante!

Muitos assexuais tentam ser aquilo que não são… mas poucos chegam a realmente viver aquilo que não faz parte de suas vidas. Ficam num limbo entre sua vida e aquela idealizada pela nossa cultura.

Para esses, do limbo, é muito fácil ir para o “céu”. Mas o que vemos é aparentemente o contrário. A grande maioria dos assexuais sempre reluta em ser o que são… querem ser aquilo que o esposo deseja, que a namorada reclama, que os pais idealizaram, que os amigos invejam, etc. Diante de tanta relutância ainda digo que é muito mais fácil do que para aqueles que estão no “inferno” da não existência.

Sim… porque para muitas pessoas a assexualidade implica em sua própria inexistência! Já que toda sua vida foi formada e desenvolvida em cima de conceitos que nunca fizeram parte daquilo que elas entendiam por Eu.

Quem está nesse “inferno” é revoltado mesmo com as coisas mais bobas. Mesmo aquilo que não tem nada há ver com a assexualidade… mas que é na prática uma antítese de suas vidas. Não importa o que seja. Qualquer coisa! Basta que você seja a prova vive de que sua vida foi uma (in)completa mentira.

E diante disso não espere compreensão. Não espere paciência. Muito menos empatia.

Existe uma única saída viável: eliminar aquilo que me trás desconforto.

Ora, eliminar não implica necessariamente em destruir/matar. Implicar em fazer ineficiente, nulo, vão, etc.

Assim a luta não é contra você diretamente, mas sim contra tudo que faz parte de você como um conteúdo de vida. Que seja simplesmente tirando esse conteúdo, provando ser falso ou simplesmente convertendo-o para um sistema “normal”.

De todos esses o mais sorrateiro é aquele que visa converter você num ser “normal”. Sim… porque ser normal implica em fazer parte do mesmo sistema de vida ao qual aqueles outros fazem parte. Logo você deixa ser aquilo que contrariava-os e passa a corroborar! Sim… mesmo sem perceber! Você NUNCA perceberá naturalmente.

E tudo isso acontece de uma maneira muito simples. Tão simples é incoerente. Porque tudo consiste em fazer de você tudo aquilo que você nunca foi.

Tão simples… mas muito mais perigoso do que se pode imaginar.

Temos uma pulsão natural para a “normalidade”. Para nos encaixarmos naquilo que a Maioria idealiza como o modelo correto. Para agradar essa Maioria sendo aquilo que se idealizou como o modelo padrão de vida.

Porque ser normal é a forma mais simples e prática de se sentir seguro. E assim se sentir feliz.

Contudo a felicidade que a normalidade pode trazer além de ser efêmera é extremamente frágil. Ao ponto de ser completamente abalada pela simples existência de alguém que não a segue, um anormal.

Mas é uma doce ilusão… e não é fácil resistir.

Por isso enquanto as pessoas “normais” se preocupam com os pecados da luxúria, mentira, cobiça, preguiça, etc… nosso pecado latente é o da auto-traição. Ser seu próprio Judas! Judas traiu Jesus porque Ele nunca ter sido aquilo que o seu povo imaginava que o Messias seria. Jesus era a antítese de suas fantasias. E você é a antítese da sociedade.

Mas em você habita Jesus e o Judas. Ao mesmo tempo você é a antítese também é aquilo que não a admite. O pensamento coletivo inconsciente de todo o povo cai sobre seu Judas. Ele por sua vez trocaria o Jesus-Eu por qualquer quantia irrisória de normal-felicidade.

Na prática você é impelido (sem entender de que maneira, a razão, a motivação… nada!) a ser-fazer tudo aquilo que não faz parte de você.

Mas como alguém pode cair em algo tão bobo… afinal… sabemos muito bem o que somos ou não. Não é mesmo?

Engano… se tivéssemos uma personalidade completamente concretizada seria tudo muito simples… Mas não temos! Somos flexíveis, mutáveis, renováveis, etc. Aquilo que entendemos por Eu são pequenos fragmentos de existência. É através desses pequenos fragmentos que desvendamos aquilo que fomos, somos e seremos. Nossos sonhos e medos, gostos e desgostos, raivas e felicidades, prazeres e desconfortos.

Por isso entender que se é assexual é como montar um quebra-cabeças com esses fragmentos. De uma maneira que eles formem uma imagem coerente daquilo que somos.

Mas como somos mutáveis, flexíveis e evolutivos precisamos constantemente manter esse quebra-cabeças do Eu organizado e revisado. É aqui onde está a brecha para a pulsão pela normalidade.

Nesse vai e vem de fragmentos naturais ou alienígenas podemos falhar na sua seleção e organização. E assim assimilar um desejo que não é nosso. Que não faz parte da imagem do nosso quebra-cabeças… que não se encaixa com as demais peças. Que não se encaixa no que somos.

Sendo prático, como então não assimilar os fragmentos alienígenas? Ora… se eu soubesse da resposta eu já não seria mais humano!

Viver também implica em aprender a distinguir aquilo que faz parte de nossas vidas e aquilo que não faz. E isso leva tempo e nem sempre poderemos prever sem causar danos. Muitas vezes iremos a fundo por um caminho que não é nosso e só lá na frente iremos descobrir a completa perda de vida.

Bem… e aqueles que estão no “inferno”, como ficam? Não tão diferentes. Apenas precisam de mais dedicação. E isso vale tanto para assexuais quanto para sexuais.

O inferno não é o sexo… se é nisso que você está pensando. O inferno é ser o que não é você. E sexo pode ou não fazer parte disso. Depende de você. Depende daqueles pequenos fragmentos que juntos chamamos de Eu.

Is this your life?

Mr. Jones

Sha la la la la la la….. hmm, uh huh…

I was down at the New Amsterdam staring at this yellow-haired girl
Mr. Jones strikes up a conversation with a black-haired flamenco dancer
She dances while his father plays guitar
She’s suddenly beautiful
We all want something beautiful
Man I wish I was beautiful
So come dance this silence down through the mornin’
Sha la la la la la la la yeah.. uh huh, yeah…
Cut up, Maria! Show me some of that Spanish dancin’
yeah, but, Pass me a bottle, Mr. Jones
Believe in me
Help me believe in anything
‘Cause I wanna be someone who believes
Yeah…

Mr. Jones and me tell each other fairy tales
And we stare at the beautiful women
“She’s looking at you. Ah, no, no, she’s looking at me.”
Smiling in the bright lights
Coming through in stereo
When everybody loves you, you can never be lonely

Well, I’m gonna paint my picture
Paint myself in blue and red and black and gray
All of the beautiful colors are very very meaningful
Yeah, well, you know gray is my favorite color
I felt so symbolic yesterday
If I knew Picasso
I would buy myself a gray guitar and play

Mr. Jones and me look into the future
Yeah, we stare at the beautiful women
“She’s looking at you. I don’t think so. She’s looking at me.”
Standing in the spotlight
I bought myself a gray guitar
When everybody loves me, I’ll never be lonely
I’ll never be lonely
Son, I’m never gonna be lonely

I wanna be a lion
E-Everybody wants to pass as cats
We all wanna be big big stars, yeah, but we’ve got different reasons for that
Believe in me ’cause I don’t believe in anything
and I, I wanna be someone to believe, to believe, to believe,yeah

Mr. Jones and me stumbling through the barrio
Yeah we stare at the beautiful women
“She’s perfect for you, Man, there’s got to be somebody for me.”
I wanna be Bob Dylan
Mr. Jones wishes he was someone just a little more funky
When everybody loves you, oh, son, that’s just’ bout as funky as you can be

Mr. Jones and me staring at the video
When I look at the television, I wanna see me staring right back at me
We all wanna be big stars, but we don’t know why and we don’t know how
But when everybody loves me, I’ll be just’ bout as happy as I could be
Mr. Jones and me, we’re gonna be big stars.

Esse é você?

Escolhas

3467843360_cd59fca2fb

“Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha seus amigos. Escolha roupas e acessórios. Escolha um futuro […]”

Esses são apenas alguns versos de um poema de John Hodge, recitado no início do filme “Trainspotting”. Faz algum tempo que o vi, mas na minha adolescência o efeito dele foi arrasador. A idéia de manter o controle sobre a própria vida era tudo que eu não tinha e ao mesmo tempo tudo que eu almejada. De certa forma eu me transportava pro futuro, em algum momento de minha independência em que eu finalmente pudesse ter esse controle sobre o meu destino.

Mais cedo ou mais tarde todos nós chegamos a uma fase da vida em que acreditamos piamente que detemos todo esse controle. Talvez o contexto e a experiência mudem de indivíduo para indivíduo, mas esse vício de pensamento vai te assolar algum dia. E ele pode ser torturante justamente porque isso não passa de uma utopia.

A priori eu gosto de pensar que é a própria sociedade do consumo que gerou essa cultura do “a vida é feita de escolhas”. Ou seja, se eu tenho o poder de escolher nas prateleiras do supermercado, eu controlo meu mundinho de valores, necessidades e desejos. E não é essa idéia de segurança que os produtos realmente oferecem? E como cada vez mais tudo se transforma em mercadoria (pessoas também), a impressão é que escolhemos tudo, logo controlamos tudo. Não quero me aprofundar muito nisso, mas não me parece uma teoria insana.

Bem, passando rápido no Orkut – e não podemos negar os dados sobre a sociedade brasileira que ele nos oferece – constatei quatro comunidades com o título “A vida é feira de escolhas” que somam mais de 2 milhões de membros. Levando toda a população brasileira em conta, posso estar generalizando, mas se fizéssemos uma enquete onde a pergunta fosse: “A vida é feita de escolhas?”. Vocês duvidariam que o “sim” fosse, de longe, a resposta mais expressiva?

Não cabe a mim contestar os significados sociais. No máximo, constatar. Afinal, se eles existem, querendo ou não eles não maiores do que eu. Não gosto de julgá-los bons ou ruins, muito menos cair no senso comum de culpar a mídia por todos os valores que não concordo. Porém, todos temos o direito de refutá-los quando não fazem mais sentido para nós. E ainda mais quando nos fazem mal.

Existem muitas coisas na vida que escapam às nossas escolhas. Podemos até escolher quem somos, por exemplo, mas é impossível escolher como as pessoas nos vêem – e considerando as dezenas de familiares, amigos e desconhecidos que nos cercam, somos uma entidade totalmente fora de nosso próprio controle. Pode ser um exemplo tolo, mas não é extremamente incomodo quando alguém possui uma imagem diferente de como gostaríamos de sermos vistos? Você pode pensar em inúmeros outros casos em que você não está tão no controle e essa falta de poder te perturba de alguma forma. É um ótimo exercício.

Nós gostamos de colocarmos no centro de todas as narrativas do mundo, de estar no centro do universo e protagonizar nossa vida através de nossos olhos. Se o consumismo contribuiu para isso, o desenvolvimento das ciências também tem sua parcela de culpa. Cremos que temos mais poder sobre a vida, tudo que nos cerca, a natureza, o espaço etc. Uma verdadeira maldita herança Iluminista de que “eu sou dono da minha própria vida, logo eu escolho”. Parece ser bom na utopia, mas se paramos pra pensar esse pressuposto está na raiz de muitas de nossas angústias e aflições do dia-a-dia. A vida em si é um evento com inúmeras possibilidades latentes e reconhecer essa impermanência talvez seja a única forma de encarar com mais naturalidade acontecimentos que não nos agradam. Até porque isso também é inevitável.