Compreensões gerais
Nesse período que estive afastado do site (mas ainda não posso voltar completamente) tive a oportunidade de analisar alguns dos aspectos mais importantes debatidos aqui no site. Com certeza o mais importante, eu diria. Porque estamos dando voltas e voltas em torno de termos que pouco ou nenhum conteúdo possuem. Estamos olhando para o vácuo e querendo tirar dele algum objeto de análise.
O que é a sexualidade? Vez ou outro leio algum texto que faz uma generalização completamente absurda em volta do que seria a sexualidade (especialmente com crianças). E em uma dessas leituras acabei percebendo que esse erro não é uma consequência da ignorância do autor. A culpa na verdade está no termo utilizado.
Demos voltas e voltas e não saímos do lugar – ao tentar compreender a assexualidade – porque não conseguimos ao menos compreender a própria sexualidade! Como iríamos entender a ausência se não conseguimos estabelecer a existência? A ausência é por si só. Teoricamente nunca conseguiríamos falar sobre a assexualidade propriamente, mas sim sobre a falta da sexualidade. E aonde estamos se não conseguimos estabelecer uma identificação clara e simples do nosso objeto primário de estudo? Dando voltas e voltas…
Supostamente os princípios básicos dos seres vivos é a reprodução e a sobrevivência. De uma forma geral – como que por osmose – realmente absorvemos que esses são os princípios básicos da vida humana! Sobreviver e reproduzir. Em nossos tempos de uma insegurança global as produções artísticas-capitalistas não param de fabricar histórias sobre a luta humana pela sobrevivência pessoal e da espécie. 2012, O Livro de Eli, Eu sou a Lenda, Matrix, entre tantos outros.
Em ambos os aspetos prevalecem os instintos. Seja para sobreviver ou para reproduzir. O que seria verdade… se o ser humano não fosse o animal mais “toupeira” que existe! Serio! Instintivamente somos completamente tapados!
A sobrevivência e multiplicação humana se deve a nossa capacidade cognitiva. De associar elementos, guardar tais informações e reproduzi-las para nossos semelhantes e para as gerações futuras.
Não podemos generalizar tudo como uma busca pela sobrevivência ou pela reprodução. Não podemos dizer que a busca pela satisfação seja uma busca sexual. Como podemos fazer isso se nem ao menos temos uma definição clara do que é um comportamento sexual? Na verdade o ser humano chegou num ponto absurdamente divergente dos seus “princípios”. Temos a eutanásia e os métodos anticoncepcionais. As pessoas não estão preocupadas em sobreviver… mas sim em qualidade de vida. Não se preocupam em reprodução, mas sim em satisfação.
Acredito que se podemos analisar o comportamento sexual de um animal e ter compreensões claras sobre isso então somos totalmente capazes de analisar o comportamento humano, e ter conclusões claras sobre isso. E na verdade já temos a base do que precisamos conhecer. Animais não vivem em função do sexo. Normalmente vivem pela manutenção da própria vida. Em atividades básicas como procurar alimento, dormir, determinar território, etc.
Animais não vivem bitolados em sexo… até que em algum momento, por algum mecanismo, eles iniciam um processo de interação sexual, cópula e a fertilização. Esse processo é bem peculiar e visível em todos os animais estudados pelo ser humano. E em muitos casos conhecemos incrivelmente bem esses mecanismos, principalmente para animais utilizados para o consumo humano.
Por que podemos saber tanto sobre esses animais e não sabemos nada sobre nós mesmos? Por que vivemos vagando em definições sem sentido? Acredito que não queremos admitir o mais óbvio de todos os fatos. Assim como tudo a sexualidade humana é um elemento majoritariamente intelectual.
Mas… por que não admitiríamos isso? Não sei… mas posso especular que não queremos acreditar que podemos controlar esse aspecto. Porque se é intelectual então podemos construí-lo e desconstruí-lo, moldar ao nosso desejo. Não poderíamos mais tratar o sexo como uma pulsão desenfreada do instinto humano. Teríamos que desconstruir tudo que chamamos de sexualidade. Teríamos que mudar nosso olhar para todos os nossos objetos (abstratos e materiais) erotizados. Teríamos que mudar toda nossa perspectiva sobre a vida. O que parece a atitude mais correta a ser feita. Contudo todo nosso sistema social, comercial, cultural e intelectual está fortemente baseado nessas estruturas vagas da loucura da “sexualidade”.
Então, no fim, se formos olhar para a sexualidade como o comportamento instintivo-animal para a reprodução da sua espécie chegamos a conclusão de que o ser humano não tem sexualidade.
O que motiva a busca pela cópula e por descendes, no ser humano, não são elementos instintivos incontroláveis… mas sim toda nossa educação intelectual. Com toda certeza existem elementos instintivos que passivamente estimulam ou interferem nesse processo, mas a eles não cabe mais do isso. E mesmo assim estão tão absorvidos pelo nosso intelecto que não podem ser mais encarados como instintos atuantes independentes.
Nossa busca pela satisfação superou a busca pela sobrevivência e pela reprodução. Os instintos hoje estão canalizados, catalizados e conscientizados para uma busca cada vez mais complexa e profunda da satisfação humana. Numa perspetiva nunca antes imaginada. As contingências humanas já superaram o simples apelo das pulsões instintivas. Não buscamos um preenchimento superficial dos nossos desejos simples. Gradativamente percebemos que precisamos de muito mais do que isso…
E portanto daqui para frente não poderemos mais falar de um “comportamento sexual”. De distinções entre grupos de interesses. Precisamos trazer uma nova consciência. Não mais estabelecida sobre um aspecto completamente vago! Teremos uma nova abordagem. E essa será nossa busca nos próximos dias.










