Amigos que beijam… parte III

Vamos falar sobre a complexidade de algo que parece ser simples… o beijo. Mas antes lembre-se que esse artigo faz parte de uma série de artigos.

Eu acredito que o beijo envolve um conjunto de emoções mais complexas do que o próprio sexo. O beijo envolve praticamente todos os sentidos (audição, visão, tato, paladar e olfato). Contudo não é impulsionado pelo êxtase do orgasmo… toda emoção é emulada sem qualquer recurso fisiológico.

Existem várias formas de contato labial… que mudaram muito durante a história… mas aqui falaremos do beijo comum dentro da nossa cultura. Logicamente o beijo não é intrínseco ao ser humano… seu significado, forma e emoção varia de uma cultura para outra, passando até mesmo a não existir.

O ponto central sobre o beijo é emoção. E também por isso é impossível falar sobre sobre o beijo nesse post. É interessante observar aqui apenas alguns aspectos preliminares.

Por que o beijo é bom? É bom mesmo? Cada pessoa tem uma forma diferente de encarar emocionalmente um beijo. Algumas pessoas são indiferentes, outras se sentem desconfortáveis e outras adoram. Não podemos dizer que o beijo é bom ou ruim… porque ele sempre terá significado individual.

O processo do beijo é bastante complexo e, até certo ponto, indescritível. Os fatores gestuais são basicamente expressões afetivas ou apenas mecanismos de contenção e catalização.

É comum encontrar pessoas que fecham os olhos quando beijam. Isso pode acontecer naturalmente como uma forma de evitar o desconforto ao se observar um objeto muito próximo aos nossos olhos. Mas na verdade o objetivo é de contenção da emoção. Quanto mais dedicados ao beijo mais dedicados estaremos do ponto de vista psicológico e fisiológico. E assim cada sentido deverá estar focado naquele momento.

Os olhos possuem um importante papel na comunicação entre as duas pessoas quando ainda não há o contato labial. Mas ao contato ele é automaticamente fechado para evitar que outros objetos no ambiente interfiram na focalização emocional.

A audição, o paladar e o olfato não podem ser “desligados”. Então eles poderão interferir negativamente na contenção e catalização da emoção. Ao mesmo tempo que se manipulados (com boa música, perfume, etc) poderão estimular ainda mais a contenção da emoção a empatia e ainda criar um memória inconsciente do ambiente emocional mais intensa.

O tato por sua vez é totalmente manipulável e é parte fundamental do beijo. Após o trabalho preliminar composto pelos olhos e pelas expressões faciais e verbais o tato entra em cena como a principal e até única forma de comunicação. Existe um óbvio limite para estímulos táteis que podem ser transmitidos e compreendidos com simplicidade. Em geral o próprio beijo já requer uma coordenação motora bem desenvolvida. O uso de outras partes do corpo para envolver e acariciar pode tanto servir para catalizar a emoção quanto prejudicá-la totalmente, até mesmo criando um total desconforto.

Logicamente isso varia de acordo com o “tipo” de beijo praticado. Alguns beijos não passam de contato labial, outros envolvem um pouco da língua, enquanto outros envolvem uma troca total de fluídos (saliva). A intensidade do beijo não está na quantidade da saliva trocada ou na sua “agressividade”, mas sim no seu significado subjetivo.

Porque nada disso teria qualquer valor se não houvesse um contexto psicológico-emocional. É preciso que uma pessoa além de conhecer a cultura do beijo também compartilhe de seus sentimentos. Por ser cultura o beijo, como ato, precisa ser aprendido e o seu sentimento precisa ser construído. A aprendizagem mecânica é prática, mas a aprendizagem teórica não acontece de maneira deliberada… a pessoa aprende a partir da observação do ambiente… e isso nunca acontece de forma plana para todas as pessoas.

Por isso o significado do beijo varia de uma pessoa para outra, assim como a forma com a qual ele é praticado. Algumas pessoas só sentem alguma emoção no beijo labial de curta curação sem o envolvimento de saliva (selinho)… e sentem nojo do beijo francês (colado/de língua), enquanto outras pessoas só se emocionam intensamente com o beijo francês e pouco sentem com um beijo rápido.

Na prática a emoção criada pelo beijo é um construtivista. Ela pode se desenvolver ou não… varia de pessoa para pessoa… de ambiente para ambiente… de horário para horário… e até com a temperatura! Porque não é o simples fato de beijar que causa a emoção do beijo… mas sim seu significado.

Ninguém precisa beijar e essa necessidade não é uma pulsão natural. As pessoas só querem beijar quando estimuladas para isso. Há quem consiga provocar as emoções do beijo dentro de quase qualquer contexto… e há quem só consiga sentir alguma emoção dentro de um ambiente estrito e bem desenvolvido.

De qualquer maneira a individualidade de cada um deve ser respeitada… e ninguém deve se preocupar com seus hábitos osculares. Ninguém precisa tratar o beijo como um aspecto “religioso” de suas vidas. Se você não sente vontade… simplesmente não beije e deixe de se preocupar com isso. Se você sente vontade, procure entender exatamente o que quer antes de fazer algo que talvez se arrependa. E se um dia suas ideias mudarem… se um dia você quiser… ou não quiser mais… que assim seja. Sem preocupações, neuroses e qualquer outra coisa que não contribuirá em nada.

C’est la vie.

Ainda há muito há ser dito sobre esse assunto… envie seu depoimento para nosso e-mail.

Amigos que beijam… Parte II

Se você ainda não leu a parte I é melhor que leia antes de prosseguir.

Sexo é afeto? Para responder essa pergunta primeiro temos que ter ao menos uma noção básica do que é afeto… Vamos aos sentidos originais da palavra e suas variações:

Latim afficere, afectum produzir impressão. Composto da partícula ad = em, para; e facere = fazer, operar, agir, produzir.

Latim affectus particípio passado do verbo afficere. Tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar (it. attaccare), também no sentido de “adoecer”.

Afetividade, Afecção, do Latim afficere ad actio, onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga.

Extraído da Wikipedia.

Como podemos ver temos aí dois sentidos básicos: o de transmitir uma determinada imagem e/ou informação e a relação empática entre os indivíduos.

Nem sempre quem transmite uma informação ou imagem está criando um ambiente emocional (clima) com a outra pessoa. Contudo sempre que um ambiente é criado há alí alguma informação e/ou imagem sendo utilizada. Logicamente a compreensão das imagens e informações é complexa e nem sempre acontece. Na verdade a compreensão ou total alienação em relação ao sentido lógico do afeto muda totalmente suas perspectivas individuais. Ou seja, a maneira como entendemos o que fazemos – dentro de uma relação interpessoal – varia de pessoa para pessoa e possui conteúdos distintos. Porque cada um avalia tudo de uma forma singular, de acordo com sua própria vida. É impossível julgar os sentimentos das outras pessoas em relação ao que acontece dentro de uma relação.

A (in)compreensão do ambiente também muda todo seu sentido. Duas pessoas jamais sentirão exatamente os mesmos sentimentos. Elas poderão sentir emoções semelhantes, que se expressam no corpo e na fala e assim vão assimilando mutuamente de forma progressiva. Normalmente com a continuidade e aperfeiçoamento da relação esse processo de empatia torna-se cada vez mais rápido e descomplicado.

A habilidade de reconhecer sentimentos é uma capacidade humana intrínseca. Mas ela precisa ser aperfeiçoada progressivamente. Por isso algumas pessoas são melhores em entender situações emocionais do que outras. Utilizamos esse recurso de reconhecimento emocional com tanta habitualidade que nem o percebemos. Em geral, os sentimentos negativos possuem um maior poder de comunicação.

O medo, por exemplo, é um sentimento que pode ser transmitido com grande facilidade. A neurose terrorista nos EUA é um outro bom exemplo de como o medo pode se espalhar com facilidade por um longe período de tempo. Os sentimentos positivos são mais complexos… até porque possuem elementos culturais que não fazem parte da biologia básica. E assim não são tão facilmente comunicáveis, duráveis e intensos.

O sentimento de desejo sexual é um sentimento complexo. Porque é composto por outros sentimentos que criam um aspecto único, mas não fixo. Esse sentimento é facilmente percebido pela sua peculiaridade, mas sua assimilação é relativa ao observador. Algumas pessoas respondem intensamente a qualquer projeção de sentimento sexual, enquanto outras possuem uma resposta muito baixo ou insignificante, ou mesmo adversa.

A distinção do sentimento é diferente de sua assimilação. Perceber e identificar o sentimento é um processo totalmente diferente do processo de assimilá-lo. Cada pessoa projetará sobre si mesma esse sentimento de uma maneira diferente. Porque esse processo depende do contexto histórico-psicológico de cada um, e assim ele poderá se concretizar como qualquer sentimento.

Quando uma pessoa sente um desejo sexual seu corpo automaticamente expressa isso. A intensidade varia de acordo com o quanto a pessoa se sente confortável com aquele desejo e com suas intenções. Todo o corpo cuida de comunicar-se, mas é o rosto onde se encontram as principais informações. Muitas vezes com detalhes quase imperceptíveis que podem nem passar pela nossa consciência.

Nunca vamos expressar um desejo “puro”… toda expressão sentimental é carregada de muitos outros sentimentos. Que podem até serem opostos. Uma pessoa pode ser agressiva com outra, ao mesmo tempo que com isso quer expressar que se importa com ela. Ou pode lhe dar total atenção, ao mesmo tempo que com isso expressa um desejo de controlá-la.

Os sentimentos de desejo sexual são, na sua expressão, criações de nossa cultura. Mas em essência fazem parte do nosso corpo. Existem alguns fatores básicos do desejo sexual que o tornam relativamente simples de ser percebido. Mas a assimilação só acontecerá se a outra pessoa já estiver predisposta para isso.

Por isso tudo e um pouco mais o sexo é uma forma de afeto. Porque com eles estamos querendo transmitir alguma informação e/ou imagem ao mesmo tempo que desenvolvemos um ambiente emocional.

Numa comunicação entre pessoas há o que queremos transmitir de maneira superficial, clara e evidente. E também há o que queremos transmitir como conteúdo subjetivo e secundário. O afeto é aquilo que transmitimos paralelamente ao que expressamos superficial. Não é a simples expressão que vai gerar afeto, são necessários diversos fatores que juntos colaboram para a outra pessoa compreenda e assimile o que foi colocado.

Logicamente é impossível se comunicar sem afeto. Tudo que fazemos expressa nossos sentimentos superficiais e subjetivos. Mesmo que a expressão afetiva seja, na verdade, um desafeto.

Na verdade o sexo pode ser afetivo e/ou desafetivo. A positividade ou negatividade das nossas expressão é avaliada pelo seu conteúdo altruísta. Quanto mais egoísta, limitado e restrito forem nossos sentimentos mais eles serão interpretados como desafeto.

As expressões afetivas, em geral, sempre provocam satisfação (prazer) ou insatisfação (desconforto). A intensidade vai depender do quanto estamos envolvidos no sentimento. As expressões (des)afetivas requerem total exclusividade mental. Toda nossa mente deve estar dedicada, mesmo que por poucos segundos, para criar determinada emoção em si mesma e expressar isso de maneira que ela também seja assimilada pela outra pessoa. Quando uma pessoa está furiosa, por exemplo, fica evidente o quanto ela está completamente dedicada ao seu sentimento. Temos inclusive a impressão de que ela está fora de si.

Como o desejo sexual é um conjunto de sentimentos ele pode ser formado por sentimentos altruístas e egoístas. Existe intrinsecamente uma tendência natural ao egoísmo dentro do desejo sexual. Quanto maior o prazer (satisfação) mais dedicados estaremos a determinado sentimento. O sexo talvez seja o maior sentimento de satisfação que um ser humano pode sentir. E para tanto precisamos de total dedicação física e emocional. Também por isso somos estimulados ao imediatismo e egoísmo. Pensamos exclusivamente na nossa pŕopria satisfação e queremos que isso se realize da maneira mais rápida que for possível.

Em teoria é possível que o sexo seja majoritariamente altruísta, ou ao menos igualitário. Mas o que vemos no dia a dia é uma relação de egoísmo “equilibrada” e conformista…

No fim… depois de tudo isso… o que fica é a consciência de cada um sobre o que faz.

Amigos que beijam… Parte I

Como muito em breve estarei publicando um extenso artigo sobre arromantismo teremos que fazer “algumas” considerações sobre o afeto. Um tema que é fundamental para a compreensão da assexualidade.

Tudo que fazemos conscientemente possui algum significado consciente ou inconsciente que será ao mesm o tempo será projeto sobre mim e sobre as demais pessoas.. Nosso atos afetivos, mesmo os mais banais como um aperto de mão, estão carregados de significado. Compreender a mecânica da nossa relação interpessoal é um processo progressivo e eterno, por isso nada é absoluto. Mas tudo isso é fundamental para o adoçamento das nossas relações. (clique em More para continuar lendo) (more…)

Das interações relacionais

Tudo é uma questão de significado… Para o ser humano pouquíssimas coisas (para não dizer nenhuma) são objetivas. Tudo é uma questão de percepção… percebemos as coisas, entendemos o ambientes, deciframos as palavras, decodificamos os gestos.

Então tudo é uma questão pessoal.

Não existe globalização dos verbos.

O que para mim pode ser algo “feio” para outra pessoa pode ser “bonito”. E o que para outra pessoa pode ser “sexual” para mim pode ser apenas “relacional”…

Na nossa sociedade se estabeleceu que algumas coisas fazem parte do relacionamento romântico e/ou são reservadas para pessoas que estão apaixonadas. Mas na prática não é assim. Tudo é uma questão de percepção.

O beijo por exemplo, é encarado de diversas formas entre as mais variadas culturas. Em algumas culturas beijar alguém na boca é proibido, porque se imagina estar roubando a alma da outra pessoa. Em outras culturas o beijo é uma formalidade reservada para pessoas muito íntimas, respeitadas. E em outras beijar a pessoa é um sinal de altíssimo respeito e valorização.

Mas individualmente o beijo pode ser interpretado de infinitas formas. O que para os demais pode ser algo “sexual”, para você pode ser apenas uma forma de carinho. O mesmo vale para qualquer forma de interação humana. É importante entender que uma pessoa pode entender toda forma de comunicação verbal e não-verbal de uma forma diferente.

Muitas pessoas pensam que não ter interesse romântico por outras pessoas exclui toda forma de interação que para nós é romântica. Em outras palavras, quem não é romântico não beija, não abraça, não faz carinho, não fala com delicadeza, etc. E isso é um grande engano. As formas de interação são questões de percepções. Se para uma pessoa um beijo não é uma coisa romântica, logo isso não será romântico. Porque damos sentido ao que fazemos. E se o nosso sentido não é romântico, logo ele não será.

Por isso tire da sua mente a imagem de pessoas arromânticas sem sentimentos, frias, cínicas, indelicadas, grossas, desafetivas e desagradáveis. Isso não tem nada há ver com ser arromântico. Essencialmente ser arromântico é não ter interesse em relacionamentos românticos, que são relacionamentos ilusórios, baseados em sentimentos inconsistentes e instáveis. Isso não tira da pessoa sua capacidade de ser afetuoso, doce, sensível, carinhoso e delicado. Muito pelo contrário, só torna tais qualidades mais consistentes, e aplicáveis. Sem exclusividades e restrições políticas, sociais, culturais e religiosas.