Bem, são duas horas da madrugada… acho que ele já está dormindo. Agora posso ir… ou é melhor ficar por aqui mesmo? E se eu não for? O que ele vai pensar quando acordar?
O quarto é tão frio e sombrio. Nenhuma luz, apenas alguns reflexos da lua. Eu me aproximo da cama… tento fazer o menor barulho possível. Parece que Ele está dormindo. É… parece que sim… posso respirar agora.
Mas é melhor esperar um pouco… meu corpo quente pode acordá-lo. É melhor deixar meu corpo se esfriar. Olho para o criado mudo para pegar uma revista e vejo a gaveta um pouco aberta. Apenas documentos… mas algo me disse que deveria olhar mais cuidadosamente…
Um DVD. Algumas pessoas na capa… mas eu não conseguia identificar. Me aproximei da janela… e o conteúdo era óbvio. Eu sabia que Ele assista essas coisas… mas não sabia que ele teria coragem de trazer para casa. Para que ele precisava disso? Suas amantes já não bastam?
Uma vontade incontrolável surgiu em mim… eu queria colocar aquele vídeo no seu devido lugar e ir dormir em paz. Ou no que eu poderia chamar de paz. Mas não… eu não conseguia… minha mão tremia de ansiedade. Eu tinha que assistir.
A cozinha era o local ideal… a porta poderia ser trancada e ninguém iria imaginar. Coloquei o vídeo para tocar. E me sentei numa cadeira. Meu corpo todo demonstrava minha ansiedade… aquilo me empolgava… me fazia querer mais. Eu não sabia porque estava alí… mas eu já estava…
As cenas me causavam sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que eu odiava o que estava fazendo… eu me sentia profundamente em paz… esquecia de tudo… e tomo meu corpo parecia se deliciar. Ou ao menos… não se importar. E por aquele pequeno tempo… eu me sentia outra mulher… uma mulher com poucos sentimentos, sim. Mas me sentia tudo. Eu gostava de ver até o fim… assim eu poderia sentir ao máximo… e me sentir viva por alguns minutos.
Quando tudo termina, e eu finalmente chego ao orgasmo. Eu sinto nojo. Eu tento continuar assistindo. Mas aquelas cenas são patéticas. Agora não me suscitam qualquer ansiedade… não me fazem idealizar qualquer prazer. Me sinto o mesmo pedaço de merda de sempre…
Eu não me movo por um longo tempo… talvez tentando fazer meu coração parar… e ter uma morte suave. Não sei… mas eu prefiro não mover… Mas nada muda… agora está feito. E eu agora posse me odiar em paz… odiar meu marido em paz… odiar até meu filho com grande satisfação. O que eu quero mesmo é todo esse ódio. Toda essa raiva. Depois da loucura… a raiva é minha melhor amiga… ela me faz sentir viva… ter um propósito, um sentido. Uma razão para ser.
Eu não percebi o tempo passar… me esqueci de olhar o relógio. E fui para cama. Não me importava mais com nada… eu sentia tanta raiva que o que mais queria mesmo era uma boa briga.
Mas eu não sabia o que dizia… quando cheguei no quarto a luz do banheiro estava acessa. Ele estava acordado. Corri e me escondi debaixo dos cobertores. Talvez ele não percebesse minha ausência. Mas não adiantou muito. Ele subiu por cima de mim… sabia que eu estava acordada. E tentou me beijar… sua respiração quente me sufocava. Seu hálito tinha cheiro de remorso.
Seu corpo se contraia contra o meu… enquanto eu tentava não sentir… ou sentir… seria bom. Seria bom, não é mesmo? Mas eu não sabia exatamente o que queria naquele momento. Mas haviam sentimentos em mim que nem eu mesma poderia controlar… e isso me fazia sentir medo… eu queria controlar… e tudo isso me fazia controlar ele. Controlar o que estávamos tendo alí.
Segurei sua mão… e o puxei… o beijei com muita raiva. Senti seu corpo amolecer. Ele estava se entregando. O puxei para o lado… e desde então tudo que eu fazia era tentar controlar… e tudo que ele fazia era tentar possuir. Passamos algum tempo naquela disputa de pulsõs e desejos de ódios e remorsos.
Até que ele chegou ao orgasmo… eu pude me sentir vitoriosa. Me senti incrivelmente vitoriosa…
Uma brisa fria fez meu corpo se arrepiar… o presságio de algo que eu sabia que era inevitável. Então me entreguei a mim mesma. E por fim cai no sono.
No dia seguinte eu pude me acordar com o mesmo remorso de sempre. Ele não estava mais em casa… e meu filho já estava na escola. O sol brilhava… era lindo. Mas eu não conseguia sentir o sol. Um passarinho cantava sarcasticamente na minha janela… mas eu não conseguia ouvir. Meu cachorro me fazia um carinho gostoso nas pernas… que eu não conseguia sentir.
Depois de um bom tempo… meu corpo zumbificado se levantou… e se sentou no sofá da sala… automaticamente liguei a TV. E fui mudando de canal em canal tentando procurar algo interessante. Num programa de auditório muitas mulheres semi-nuas dançavam… seus belos corpos e sorrisos radiantes me faziam querer ser feliz como elas. Todos os homens as admiravam… isso devia ser bom. Devia fazer a vida ter algum sentido. Eu não sei… mas queria aquilo.
Num outro canal… alguns jovens revesavam pela disputa de uma garota. Ela parecia radiante… ria o tempo todo, estava feliz. Eu queria ser como aquela garota… tantas pessoas se importando comigo. O que eu mais gosto na TV é que eu não pensar… ela me ensina exatamente como posso ser feliz… pena que eu nunca entendo exatamente como chegar lá… talvez eu seja burra demais.
O telefone tocou! Eu tomei um susto… meu coração começou a bater sem parar… será que era ela? Será que ela se lembrou de mim?… Algum movimento ninja me fez agarrar aquele telefone de onde eu estava… atendi com tanta força e energia que pude ouvir minha própria voz retornando.
Mas era apenas uma cobrança de dívidas. Eu não pago as contas sabia?
Se há um sentimento que faz parte de mim é a frustração… o dia já havia começado e eu já podia me sentir eu mesma… a velha desgraça ambulante que habita esse miserável mundo.
Por que as pessoas são assim? Por que ela não me ligava… será que ela não sabe como mudaria meu dia? Enquanto pensava a campainha tocou… era Marta. Ver seu rosto me deu um profundo cansaço… eu não consegui ao menos dar um oi. Ela me abraçou… com se quisesse me fazer acordar… olhou para os meus olhos profundamente… acariciou meu rosto com sua mão macia… e sem mais palavras me deu um beijo e foi embora.
Minha comunicação está ficando mais efusiva a cada dia. Em breve não precisarei mais falar palavra alguma.
E ainda me pergunto porque as pessoas fogem de mim…
Eu não mereço pessoa alguma… o mundo não me merece. Eu sou a condensação de toda a desgraça existente. A campainha tocou novamente… era Jesus, o jardineiro. Mas que deveria trabalhar como ator… ironicamente foi isso que ele tentou fazer antes de entrar no fundo do poço.
Ele me cumprimenta com toda sua educação formal… não olha nos meus olhos e segue seu caminho. Enquanto eu assisto TV Jesus faz seu trabalho suado no nosso jardim… ver todo aquele esforço me fez sentir pena dele… o convidei para tomar um banho e almoçar comigo. Eu estava tão sozinha… e Jesus era uma das únicas pessoas que me faziam alguma companhia.
Em pouco tempo estávamos atracados fazendo algo que chamamos de sexo, no banheiro. A única diferença entre Jesus e meu marido estava no quanto eu o odiava… Jesus me trazia uma certa paz… uma certeza de que eu não teria muito com o que me preocupar. Falávamos pouco… eu não me sentia segura com Jesus, mas me sentia segura comigo mesma. E isso bastava para querer sua presença.
Por algum tempo eu pude me sentir aquilo que minha mãe sempre sonhou para mim. E isso me fazia muito feliz… Eu pude cuidar de um homem, como ela sempre me disse que eu deveria. Meu marido não me dava esse gosto… na verdade ele não me dava gosto algum. Enquanto eu estava com Jesus eu podia sonhar…
Uma ilha tropical, uma pequena casa de madeira, um lindo mar, nenhuma TV e nenhum ser humano por perto. Esse era meu sonho. Um sonho perfeito. As vezes penso que o que eu mais gosto em Jesus é o fato de que com ele eu posso sonhar… não ligo para sexo… não ligo para seus beijos… Jesus para mim servia como um objeto. Como tudo em nossas vidas. Um objeto que me dava o prazer de sonhar.
Por que então eu fazia sexo com Jesus? Ora… o que faria? Como teria sua atenção? Como teria sua presença? Mas logo ele teve que ir. Meu filho estava chegando… um garoto de 14 anos. Que em muito parecia com o pai. E tolo o bastante para ter o mesmo fim. Uma de suas gavetas é lotada de cartas de amor… de uma garotas mais estúpidas do que eu. Uma outra é lotada de bonecos, revistas e livros dos seus ídolos. Homens que não eram humanos… gente que nunca viveu. Mas que alimentava as fantasias do mais novo produto da fábrica humana, meu filho.
De longe eu não me importava. Em casa ele tinha apenas um regra: nunca, em hipótese alguma, trazer pornografia. Isso o fazia ter uma imagem puritana dos seus pais. Mas o que eu queria mesmo era não ter que adoecer todas as noites. E poder fingir que sou diferente.
A tarde passo fazendo as tarefas de uma boa dona de casa… isso me faz esquecer da vida. Me faz pensar na minha mãe… em tudo que ela me ensinou. Boa parte de toda essa merda que chamam de minha vida é graças à ela. Mas eu não ligo. Contraditoriamente me sinto bem em me lembrar de todos os seus ensinamentos. E assim as horas passam… até que meu marido chegou do trabalho… e eu não o percebo… na verdade não me importo, a não ser pela sensação de sufocamento constante.
Prefiro ir dormir… assim nos desencontramos na cama… ele não perde seu tempo falando comigo, felizmente. As vezes me pergunto se gostaria de ser tratada como um ser humano… e não como um mero objetivo de sua vida pública ou de seus fetiches sexuais. Mas no fim eu não me importo… não sei o que quero. Ou melhor… sei sim! Quero dormir e se possível não acordar.
Boa noite.