Matando a saudade

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Um dos aspectos mais intrigantes do sexo (e de alguns outros intentos sexuais) é a sua incrível capacidade de se tornar um rito de passagem ou complexo de realização. Já vi a mesma história milhares de vezes na minha vida: duas pessoas sentem profunda falta um do outro e matam essa saudade quando se encontram e fazem sexo.

Como minha mente não parece funcionar majoritariamente em cima das convenções normais não adotei o sexo como um elemento de percepção (transitória) na minha vida.

O que me deixou e deixa confuso sobre sentir a falta de alguém. Porque a percepção de uma realidade não é sempre instantânea… principalmente quando falamos da presença não só física mas também emocional, afetiva e intelectual de outra pessoa. Muitas vezes essa percepção se dá através de gatilhos que ativam ou ligam ideias ao ponto em que aceitamos ou percebemos uma dada realidade.

Sentimos falta de alguém pela sua (óbvia) ausência. Não estritamente física, mas sim de todo seu conteúdo intelectual, emocional, afetivo, etc. Precisamos sentir para acreditar. Não importa a presença física-geográfica, mas sim o contato direto dos intelectos, emoções e afetos. Quanto mais profundo for esse contato mais consciência teremos dessa realidade.

Interessantemente minha percepção dessa realidade leva um tempo consideravelmente maior do que o das demais pessoas – ao menos pelo que aparentam. Já que eu não recorro aos recursos transitórios-sexuais para “matar” essa saudade. Logicamente existem ritos e complexos comuns como abraços, apertos de mão, palavras de saudação entre outras coisas que também possuem uma função análoga, mas não possuem a intensidade dos envolvimentos sexuais. Principalmente quando tais atos afetivos não pretendem criar um envolvimento sexual e a cópula.

Aqui também acontece uma certa emulação. Já que o mesmo ato – abraços, beijos, etc – possuem efeitos completamente diferentes pela sua intenção sexual. Logo o conteúdo e seu efeito psicológico não está necessariamente no ato em si (ao menos para tais envolvimentos não genitais), mas sim no seu conteúdo (de intenção) psicológico.

Acredito que os princípios emocionais são basicamente sempre os mesmos. E portanto os mecanismos neurológicos também. Os mecanismos hormonais e psicológicos que trarão essa percepção da realidade parecem ser os mesmos para envolvimentos sexuais ou não sexuais. Mas existem três fatores diferenciais: conteúdo pré-estabelecido, conteúdo estabelecido e efeitos hormonais.

Os conteúdos pré-estabelecidos são aqueles majoritariamente pré-programados, instintivos. Eles já existiam em considerável manifestação espontânea antes mesmo da nossa consciência própria. O conteúdos estabelecidos são aqueles inseridos em nossa mente pelo ambiente social. Isso é, família, amigos, mídia, etc. Aquilo que aprendemos ser significativo, bom, satisfatório, produtivo, etc. E por fim os efeitos hormonais sobre os quais pouco sabemos. Mas que parecem exercer o papel principal nessa história.

A única comparação que posso fazer, para que fique claro, é entre drogas e sexo. O nível de “envolvimento” entre usuários e a droga é proporcional ao nível de hormônios de satisfação e condicionamento. Quanto mais “pesada” for a droga mais envolvido estará o usuário e mais complexa e custosa será sua abstinência. Ou seja… o usuário morre de saudades da droga. O que pode facilmente ser resolvido… com uma nova dose… que trará novamente todo o envolvimento e satisfação de antes, nas mesmas categorias emocionais. Instantaneamente – por assim dizer – uma única dose é capaz de matar essa saudade tão pulsante do usuário.

O usuário não precisa da presença física-geográfica da droga para se sentir preenchido. Ele precisa sentir/usar a substância, como que tornando-a parte de si mesmo. Como que ingerindo, comendo. Não quero com isso dizer que pessoas sexuais tratam seus parceiros como objetos de prazer. Apenas estou mostrando as óbvias analogias.

Até mesmo porque o processe de realização não-sexual entre pessoas usa basicamente o mesmo mecanismo, diferenciando na intensidade (talvez) provocada por diferentes mecanismos de satisfação. É como se eu tomasse a cada dia uma fração consideravelmente pequena da mesma dose da mesma droga que uma pessoa sexual toma regularmente várias vezes num dia.

Mas isso tudo é apenas uma reflexão. E sinta-se livre para fazer a sua.

Até a próxima.

:*

Evolução pessoal

Sabemos bem que é apenas em períodos de crise existencial que procuramos um sentido para nossa vida. Se não o achamos, ganhamos uma depressão como brinde. Uma depressão que pode nos levar a momentos muito desagradáveis e atitudes extremas que não gostaria nem de elucidá-las aqui. Hoje tenho a perfeita certeza de que os melhores dias da minha vida foram os que não me preocupei comigo. Quando você se preocupa demais consigo geralmente é um dia terrível, enquanto os momentos em que você nem lembrava “estar existindo” tornam-se frequentemente lindas lembranças. Talvez seja essa a ironia das “crises existenciais”. Será que o segredo está em refutá-las? Eu diria que não porque devo a esses momentos perturbadores o amadurecimento de minha alma. Nas palavras de Nietzsche, “Somente quem tem o caos dentro de si é capaz de criar uma estrela bailarina”. Que valorizemos, então, esses momentos! Eu acrescentaria outra ironia trazida por tabela com uma indagação: como se preocupar menos conosco? se preocupando mais com os outros? tendo uma postura mais altruísta e menos egoísta? seria esse esquecer de si o segredo de produzir mais lindas lembranças, mais ótimos dias? É algo para se pensar, mas que deixo, por enquanto, de lado.

Bem, algo que tem me incomodado é os diversos significados que as pessoas atribuem “a vida”, no sentido universal, e às suas próprias vidas particulares, seus propósitos e objetivos. Talvez seja saudável esse processo, mas me parece que a vida não há propósito algum. Digo isso sem a menor chance de estar passando por uma crise existencial. Não seria os diversos significados da vida apenas uma ilusão? Uma ilusão necessária, talvez, mas também não seria uma forma de diminuir a vida? De colocá-las em grades? De reduzi-las? A vida não é algo que ultrapassa qualquer significado que possamos dar a ela? Como seria, então, viver a partir desse pressuposto? Ou seja, viver, viver bem, celebrar a vida, diria, ainda que não atribuíssemos nenhum significado a ela?

Ouve-se por aí que o significado da vida é viver, mas isso explica pouco, quase nada. É um chavão como todos os outros que dão significado a algo tão profundo como a vida. De qualquer forma, qualquer que seja o sentido que as pessoas atribuem a vida, quase sempre a raiz de todos eles é a mesma: um trajeto de aperfeiçoamento, de evolução. Seja acreditando na ascensão social, o que implica o status e a aquisição de bens materiais, seja acreditando na evolução pessoal, o que implica amadurecimento emocional e intelectual, sempre o esboço será o da evolução. Como se estivéssemos sempre em desvantagem do que poderíamos ser. Como se nossa passagem na Terra significasse sair de um ponto A a um ponto B, mais elevado, qualquer que seja a “elevação”. Ao meu ver, a base desse trajeto estão todas projeções que fazemos de nós mesmos, quase sempre associadas a padrões sociais ou exemplos de estilos de vida. Estabelecemos um “eu” atingível e percorremos a vida toda atrás dele. Esse “eu” perfeito, no entanto, é por natureza inatingível, é o papel dele.

Seria uma boa investigação procurarmos por essas nossas projeções e tentar superá-la. E é nesse sentido que a “evolução pessoal” surge para mim como problema. A cada passo dado em nossa vida, ela exige novos desafios e atitudes. O que aprendemos no passado nem sempre serve para o nosso “próximo passo”. Dessa forma, experiências acumuladas não nos mune diante do “novo” e o trajeto evolutivo de nosso “eu” não passa de uma ilusão de nossa consciência. Talvez os mesmos erros possam ser evitados, mas quanto aos novos? Você diria com segurança que tudo aprendido aqui, intelectualmente e emocionalmente te salva de angústias da mesma ordem amanhã ou depois? Você diria com segurança que hoje é um ser humano melhor do que há alguns anos atrás e que será melhor ainda daqui pra frente? Eu não consigo ter uma imagem clara disso em minha vida, você tem? Você realmente conseguiu minimizar seus defeitos e fazer sobressair suas qualidades? Talvez você não esteja reconhecendo novos defeitos e novas capacidades nunca antes exigidas de você.

Compreensões gerais

Nesse período que estive afastado do site (mas ainda não posso voltar completamente) tive a oportunidade de analisar alguns dos aspectos mais importantes debatidos aqui no site. Com certeza o mais importante, eu diria. Porque estamos dando voltas e voltas em torno de termos que pouco ou nenhum conteúdo possuem. Estamos olhando para o vácuo e querendo tirar dele algum objeto de análise.

O que é a sexualidade? Vez ou outro leio algum texto que faz uma generalização completamente absurda em volta do que seria a sexualidade (especialmente com crianças). E em uma dessas leituras acabei percebendo que esse erro não é uma consequência da ignorância do autor. A culpa na verdade está no termo utilizado.

Demos voltas e voltas e não saímos do lugar – ao tentar compreender a assexualidade – porque não conseguimos ao menos compreender a própria sexualidade! Como iríamos entender a ausência se não conseguimos estabelecer a existência? A ausência é por si só. Teoricamente nunca conseguiríamos falar sobre a assexualidade propriamente, mas sim sobre a falta da sexualidade. E aonde estamos se não conseguimos estabelecer uma identificação clara e simples do nosso objeto primário de estudo? Dando voltas e voltas…

Supostamente os princípios básicos dos seres vivos é a reprodução e a sobrevivência. De uma forma geral – como que por osmose – realmente absorvemos que esses são os princípios básicos da vida humana! Sobreviver e reproduzir. Em nossos tempos de uma insegurança global as produções artísticas-capitalistas não param de fabricar histórias sobre a luta humana pela sobrevivência pessoal e da espécie. 2012, O Livro de Eli, Eu sou a Lenda, Matrix, entre tantos outros.

Em ambos os aspetos prevalecem os instintos. Seja para sobreviver ou para reproduzir. O que seria verdade… se o ser humano não fosse o animal mais “toupeira” que existe! Serio! Instintivamente somos completamente tapados!

A sobrevivência e multiplicação humana se deve a nossa capacidade cognitiva. De associar elementos, guardar tais informações e reproduzi-las para nossos semelhantes e para as gerações futuras.

Não podemos generalizar tudo como uma busca pela sobrevivência ou pela reprodução. Não podemos dizer que a busca pela satisfação seja uma busca sexual. Como podemos fazer isso se nem ao menos temos uma definição clara do que é um comportamento sexual? Na verdade o ser humano chegou num ponto absurdamente divergente dos seus “princípios”. Temos a eutanásia e os métodos anticoncepcionais. As pessoas não estão preocupadas em sobreviver… mas sim em qualidade de vida. Não se preocupam em reprodução, mas sim em satisfação.

Acredito que se podemos analisar o comportamento sexual de um animal e ter compreensões claras sobre isso então somos totalmente capazes de analisar o comportamento humano, e ter conclusões claras sobre isso. E na verdade já temos a base do que precisamos conhecer. Animais não vivem em função do sexo. Normalmente vivem pela manutenção da própria vida. Em atividades básicas como procurar alimento, dormir, determinar território, etc.

Animais não vivem bitolados em sexo… até que em algum momento, por algum mecanismo, eles iniciam um processo de interação sexual, cópula e a fertilização. Esse processo é bem peculiar e visível em todos os animais estudados pelo ser humano. E em muitos casos conhecemos incrivelmente bem esses mecanismos, principalmente para animais utilizados para o consumo humano.

Por que podemos saber tanto sobre esses animais e não sabemos nada sobre nós mesmos? Por que vivemos vagando em definições sem sentido? Acredito que não queremos admitir o mais óbvio de todos os fatos. Assim como tudo a sexualidade humana é um elemento majoritariamente intelectual.

Mas… por que não admitiríamos isso? Não sei… mas posso especular que não queremos acreditar que podemos controlar esse aspecto. Porque se é intelectual então podemos construí-lo e desconstruí-lo, moldar ao nosso desejo. Não poderíamos mais tratar o sexo como uma pulsão desenfreada do instinto humano. Teríamos que desconstruir tudo que chamamos de sexualidade. Teríamos que mudar nosso olhar para todos os nossos objetos (abstratos e materiais) erotizados. Teríamos que mudar toda nossa perspectiva sobre a vida. O que parece a atitude mais correta a ser feita. Contudo todo nosso sistema social, comercial, cultural e intelectual está fortemente baseado nessas estruturas vagas da loucura da “sexualidade”.

Então, no fim, se formos olhar para a sexualidade como o comportamento instintivo-animal para a reprodução da sua espécie chegamos a conclusão de que o ser humano não tem sexualidade.

O que motiva a busca pela cópula e por descendes, no ser humano, não são elementos instintivos incontroláveis… mas sim toda nossa educação intelectual. Com toda certeza existem elementos instintivos que passivamente estimulam ou interferem nesse processo, mas a eles não cabe mais do isso. E mesmo assim estão tão absorvidos pelo nosso intelecto que não podem ser mais encarados como instintos atuantes independentes.

Nossa busca pela satisfação superou a busca pela sobrevivência e pela reprodução. Os instintos hoje estão canalizados, catalizados e conscientizados para uma busca cada vez mais complexa e profunda da satisfação humana. Numa perspetiva nunca antes imaginada. As contingências humanas já superaram o simples apelo das pulsões instintivas. Não buscamos um preenchimento superficial dos nossos desejos simples. Gradativamente percebemos que precisamos de muito mais do que isso…

E portanto daqui para frente não poderemos mais falar de um “comportamento sexual”. De distinções entre grupos de interesses. Precisamos trazer uma nova consciência. Não mais estabelecida sobre um aspecto completamente vago! Teremos uma nova abordagem. E essa será nossa busca nos próximos dias.

Assexualidade, solidão, relacionamentos e vida

O tempo vai passando e a assexualidade vai se tornando mais conhecida. Isso quer dizer que um maior número de pessoas vai descobrir que é possível viver sem sexo. E assim toda a pressão em cima da sexualidade vai diminuir gradativamente e mais pessoas poderão se identificar enquanto outros poderão se sentir mais leves e seguras.

Na verdade ninguém sabe o que o futuro espera. Há quem acredite que o crescimento da assexualidade é um movimento do inconsciente coletivo inconformado com a erotização da vida, dos paradoxos do sexo e do consumismo humano. Enquanto outros acreditam que a assexualidade sempre esteve presente nas mesmas proporções atuais, mas não tinha a divulgação que temos hoje. Não temos como saber agora… o que temos é esse fato. Mas ao mesmo tempo que mais e mais pessoas estão se identificando muitos (a maioria) deixa passar o mais importante: a auto-análise.

A sexualidade está aí a milênios. Na verdade essa forma de comportamento foi a principal responsável por todo nosso mundo atual. A forma como vivemos, compramos, nos relacionamentos, crescemos, pensamos, desejamos, trabalhamos, estudamos, etc. De uma maneira geral tudo converge para o erocentrismo, a sexualidade. Por isso toda pessoa que segue o rumo da sexualidade está trilhando um caminho já traçado. Com regras, padrões e modos estabelecidos. Ela não precisa pensar muito por conta própria sobre como será sua vida sexual, social, familiar, financeira, etc. Ela só precisa seguir o caminho mais ou menos claro estabelecido culturalmente pelos seus ancestrais.

Mas o que acontece quando essa pessoa segue um caminho diferente? O que acontece quando ela acorda e percebe: “eu sou diferente”?

Existem várias abordagens. Há quem rejeite esse pensamento e queira ser igual. Há quem entenda que é completamente diferente das outras pessoas e deve buscar uma vida compulsoriamente diferente. Há quem entenda que deve ser diferente exclusivamente nos aspectos popularmente conhecidos como sexuais. E por aí vai.

Por isso estou cansado de ver pessoas associando a falta de desejo/atração/interesse por sexo (assexualidade) com infelicidade, solidão, isolamento, inferioridade, etc. Mas é pela falta de auto-conhecimento que a grande maioria das pessoas segue exatamente por esse caminho.

Ora, quem disse que viver é fácil? Viver implica em pensar a vida. Não podemos nos ater a padrões, rótulos, modelos, modos, etc. Tais coisas não possuem valor por si só. Mas nos apegamos a elas na nossa eterna busca pelo sentido cósmico. Quando descobri a assexualidade me apaguei (assim como quase todo mundo) aos padrões encontrados. Por um lado me senti extremamente leve, mas por outro tinha um peso que eu sentia não fazer parte de mim.

Praticamente toda minha vida futura havia perdido o sentido. Os modelos comuns perderam seu sentido e eu não sabia mais o que fazer. Por algum tempo fiquei anestesiado. Sem sentir a dor da incerteza. Dos relacionamentos sociais eu não esperava muito. Já que considera que quase tudo nesse campo estava erotizado. Acreditava que não me incomodava em não ter pessoas que me amassem. Praticamente não tinha amigos. Minha carreira profissional havia perdido o brilho da sensualidade. Até os estudos perderam o sentido. Poucas coisas me traziam alguma satisfação.

Mas, assim como antes, eu não parei de pensar. Foi o pensamento que havia me levado até lá… e era certo que eu não ficaria no mesmo lugar por muito tempo. Aos poucos fui redescobrindo os sentidos da minha vida. E na verdade isso nunca terminou e nunca vai terminar. Toda minha viagem até aqui tem sido descobrir o que realmente me satisfaz e como posso viver melhor essas experiências.

A primeira que entendi foi que o problema quase nunca está no processo si, mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos pela minha cultura. Assim descobri que ao contrário do que pensava eu não era anti-social. Minha evasão dos relacionamentos basicamente se fundamentava em dois aspectos: minha extrema sensibilidade e inconformidade com os padrões estabelecidos. Minha isolação era um recurso de fuga, auto-segurança. O mundo me sufocava com seus hábitos, apatia, violência e cinismo… minha melhor defesa era o sarcasmo, a frieza e a passividade. Ou seja… ser completamente indiferente.

Então eu tive que aceitar que na verdade eu era um ser sensível. O que não foi fácil. Já que nossa norma (a normalidade) implica em ser insensível. Minha sensibilidade me dava uma grande sensação de total desamparo e fragilidade. Então tive que descobrir os recursos certos (e automaticamente anormais) para viver dessa maneira – com a minha sensibilidade. Com o tempo percebi que a sensibilidade na verdade me abria a uma compreensão mais profunda da vida. O que chamamos de empatia. E isso me fazia sentir mais dor naquilo que antes já doía, e mais desconforto naquilo que já incomodava e mais desespero para aquilo que era urgente. Mas isso era bom. Porque ao mesmo tempo os sentimentos positivos eram igualmente mais profundos e sinceros. E isso tudo me ajudava a mudar ainda mais. A agir. A fazer coisas o que eu sabia que deveria fazer.

Então deixei de ter medo da sensibilidade. E não me senti mais frágil. Porque isso me tornava ainda mais forte e efetivo na minha vida. Em um pouco mais de um ano minha vida mudou mais do que em todo meu passado. Consegui realizar muitos sonhos do passado. E tive novos sonhos. Enquanto vive coisas que nem tive tempo de sonhar! A fragilidade se desfez, mas paralelamente também existia o sentimento de desamparo. Não era mais tão fácil ignorar as outras pessoas. Eu não sabia como me relacionar. Se deveria ter pessoas realmente importantes na minha vida. Afinal essa abertura também me fragilizaria. Eu poderia continuar fechado? E como me relacionaria com essas pessoas? O que elas iriam esperar de mim? Será que eu conseguiria suprir todas as suas expectativas? Será que me magoariam? Que tipo de envolvimento teríamos? Durante toda minha vida provavelmente conheci milhares de pessoas… mas tanto tempo depois quantos estão do meu lado? Quantos se importam comigo?

Eu tinha medo de que isso acontecesse novamente. Confiar não era fácil. Eu já conhecia o incrível poder humano de me frustrar. Então deduzi que eu estava sendo egocêntrico. Por que só eu poderia ser assim? Por que todas as pessoas teriam que ser hostis e insensíveis? “Não… deve haver mais alguém”. Assim descobri, através do site, algumas poucas pessoas (realmente poucas) que faziam uma viagem parecida com a minha.

E naturalmente não tive medo de me abrir para essas pessoas. Na verdade eu nem ao menos percebi que isso estava acontecendo. Quando me dei conta elas já estavam lá. E com o tempo me senti… como “normalmente” se diz… amado. Na verdade, sendo mais específico, senti que havia encontrado pessoas que realmente se importavam comigo; gostavam de mim pelo que sou; não viviam em cima de expectativas que eu nunca poderia suprir 100%; eram carinhosas e compartilhavam de minhas dores e alegrias; etc.

Principalmente eram pessoas reais isso é, haviam pontos positivos e negativos. Em muito me faziam feliz e em alguns casos me deixavam tristes. Me encantavam mas também podiam me frustrar. E isso era bom. Pois, não importava a circunstância, sempre havia um equilíbrio. Sempre havia um compromisso consigo mesmo de fazer o melhor. Chegou um momento em que eu percebi que havia algo “errado” om meus relacionamentos. Eles não estavam padronizados. O nível de intimidade e de “amor” que tínhamos não caberia naquilo que chamamos de amizade. Na verdade não caberia nem mesmo dentro de um namoro.

Foi aí que percebi que meu problema com os relacionamentos não estava em mim ou mesmo nas outras pessoas. Mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos.

Aos poucos fui desconstruindo esse pré-conceitos e fui (e ainda estou) explorando novos caminhos. E o fruto dessas descobertas sempre trazia mais intimidade e criava uma relação mais madura e sólida.

Primeiramente descobri que a erotização está em nossa própria mente. Se eu erotizo um abraço… logo ele sempre será erótico. O mesmo vale para as palavras e tudo na vida. Assim fui desconvertendo tudo aquilo que a minha cultura havia trazido para o Maculado Caminho da Erotização e descobrindo como a afetividade pode ser doce, pura, sincera e desejável. Sem que tudo se transforme numa compulsória busca por prazer, numa objetificação do outro ou mesmo num processo de auto-engano. E na verdade, nesse processo, tive que reformular o próprio conceito de afetividade.

Mas claro que nada disso foi tão fácil quanto pode parecer. Como disse já se passou um pouco mais de um ano… e nesse processo tive que errar muito (leia sofrer) e reaprender a fazer a coisa certa.

E assim como o que foi dito até aqui toda a minha vida foi ganhando forma. E esse processo não terminou. E espero que nunca termine!

Eu poderia falar muito mais sobre minha vida. Mas concluindo digo que hoje não vivo mais em cima de uma pseudo-satisfação pela indiferença. Nem vivo fantasias hollywoodianas. Mas me sinto profundamente satisfeito com tudo que vivi e com a proposta do que viverei.

Com isso não quero dizer que as demais pessoas devem fazer o que fiz. Não… esse foi o meu caminho. Não tente seguir o meu caminho. Procure o seu, mesmo que esse seja idêntico ao meu, mas tenha consciência de que ele é seu.

Todo esse triste estereótipo em cima dos assexuais é apenas um retrato do que muitos vivem. Não por acasos da vida, ou pelo próprio efeito da assexualidade. Mas sim por que esse foi o caminho que escolheram seguir.

Por mais óbvio que possa parecer uma mudança de vida requer uma mudança de atitude. A assexualidade não trás qualquer problema para a vida, pelo contrário! O que falta não é uma receita mágica de um livro de auto-ajuda sobre como ser feliz. O que falta é uma simples, profunda e interminável mudança de atitude.

Os esterótipos mudam quando mudamos. Se os assexuais continuarem por trás dos seus rótulos e “critérios” inúteis… sempre serão conhecidos como atualmente são. A melhor maneira de mudar isso é descobrindo seu próprio caminho.

As vezes é melhor diluir

O uso de rótulos (quase) nunca é realmente eficaz, apesar de ser tão tentador. Até agora estive tentando decodificar muitos desses rótulos para facilitar a compreensão da assexualidade. Contudo além de já ser um completo absurdo tentar encaixar pessoas em cubículos rotulados ainda temos que lidar com a abstração e incompreensão de diversos rótulos totalmente indefiníveis.

Pensando nisso proponho uma nova abordagem… não vamos mais dividir as pessoas em grupos, mas sim descrever comportamentos.

Com isso deixaremos de falar de assexuais como se fossem pessoas com os mesmos (des)interesses. Assim como não iremos mais utilizar o termo romântico ou arromântico para distinguir o comportamento afetivo das pessoas.

Ao invés disso tentaremos trabalhar em cima de comportamentos mais específicos.

Por que isso é necessário?

Desde que comecei a estudar sobre assexualidade e analisar as diversas pessoas que se rotulam assim pude ver que (obviamente) ninguém é igual. Mesmo dentro do principal aspecto (o desejo sexual) não existe um padrão.

  • Há quem realmente não consegue ter qualquer tipo de ESF (excitação sexual fisiológica);
  • Há quem tenha excitação sexual fisiológica, mas sem qualquer ESP (excitação sexual psicológica);
  • Há quem tenha ESP sem ESF;
  • Há quem tenha ESP e ESF mas ainda assim se diz desinteressado;
  • Há quem mesmo sem ESP e ESF faz sexo;
  • Entre tantas outras perspectivas diferentes…

A mesma confusão existe entre os conceitos de romântico e arromântico. Não existe uma definição clara do que é romantismo… e muitas pessoas interpretam como o ato de ser agradável ou inspirar sentimentos afetivos. Enquanto outras entendem como o desejo por formalizações relacionais. E ainda outros entendem como expectativas relacionais utópicas… e a lista não tem fim.

O real problema por trás dos rótulos está na nossa tendência em querer se encaixar neles. O que provavelmente nunca será produtivo e muitas vezes cria uma profunda infelicidade alimentada pela ilusão de se sentir parte de algo maior.

Por isso acredito que é necessário tirar o foco dos rótulos vazios e prestar atenção sobre comportamentos mais específicos.

E se eu não gostar?

Anteriormente eu falei sobre uma das primeiras dúvidas que uma pessoa assexual tem quando busca fazer sexo. Em seguida a dúvida que surge é justamente “e se eu não gostar?”.

A grande questão é porque essa dúvida existe. Afinal… o que eu perderia por não sentir muito prazer ou por não gostar no conjunto completo?

O problema é simples: as pessoas não buscam o sexo por si só. Buscam o que o sexo significa… e para mais esse significa é a normalidade. Falei sobre isso num post anterior, assim como tenho falado em todo o site.

Esse medo sempre vai existir quando o sexo for desejo por conteúdos que não fazem necessariamente parte dele. O que acontece quase sempre.

O maior medo das pessoas na hora do sexo é simplesmente não satisfazer o parceiro. Quanto altruísmo! A humanidade está mudando tanto assim? Não… satisfazer o parceiro não é sobre amor… é sobre a nossa boa e velha amiga insegurança.

As pessoas vivem num clima constante de insegurança… e todas as soluções são longas e não muito práticas. Enquanto a normalidade sempre oferece uma solução rápida e prática. Basta ser normal!

Mas uma pessoa normal gosta de sexo… e se eu não gostar? Será que posso fingir e meu parceiro nem vai perceber? Mas e se eu não conseguir fingir? E se eu não aguentar fingir para sempre? Quero ser normal!!!

Amarga agonia…

Bem… eu já disse que esse é um caminho vão… mas para aqueles que realmente acham que vale a pena “mudar” e buscam uma vida normal através de uma vida sexual… o caminho é o mesmo do proposto anteriormente.

Não existe solução mágica. Você terá que encarar de frente… ou seja: fazer sexo. E talvez consiga gostar. Ou não. E talvez consiga se sentir normal. Ou não.

Mas é o único caminho possível.

Mas se você realmente não gostar… existem dois outros novos caminhos: (1) procurar mudar esse sentimento através de terapias, drogas, etc. Ou (2) parar de tentar ser normal.

Auto-traição

É bem provável que 99% das pessoas que começaram a entender sua falta de interesse sexual estavam, antes disso, tentando ser algo que elas não se sentiam.

Como assim?

Em geral as pessoas mentem sobre o que pensam e sentem. Mas antes de mentirem para as demais pessoas elas mentem para si mesmas.

A falta de interesse por sexo é algo que a sociedade não aceita. Não porque implica em algo que desagrade as demais pessoas diretamente. É irritante a partir do momento em que prova que a vida pode ser diferente.

Mas a grande maioria nunca acreditou nisso… nunca consideraram a possibilidade de ser aquilo que são. Sempre tentaram se adaptar… se abster de viver suas vidas para se encaixarem em padrões sociais pré-estabelecidos.

A assexualidade prova para muitas pessoas que boa parte de suas vidas foi vã. Sim… vão… sem significado, sem conteúdo, incipiente, superficial, etc.

É revoltante!

Muitos assexuais tentam ser aquilo que não são… mas poucos chegam a realmente viver aquilo que não faz parte de suas vidas. Ficam num limbo entre sua vida e aquela idealizada pela nossa cultura.

Para esses, do limbo, é muito fácil ir para o “céu”. Mas o que vemos é aparentemente o contrário. A grande maioria dos assexuais sempre reluta em ser o que são… querem ser aquilo que o esposo deseja, que a namorada reclama, que os pais idealizaram, que os amigos invejam, etc. Diante de tanta relutância ainda digo que é muito mais fácil do que para aqueles que estão no “inferno” da não existência.

Sim… porque para muitas pessoas a assexualidade implica em sua própria inexistência! Já que toda sua vida foi formada e desenvolvida em cima de conceitos que nunca fizeram parte daquilo que elas entendiam por Eu.

Quem está nesse “inferno” é revoltado mesmo com as coisas mais bobas. Mesmo aquilo que não tem nada há ver com a assexualidade… mas que é na prática uma antítese de suas vidas. Não importa o que seja. Qualquer coisa! Basta que você seja a prova vive de que sua vida foi uma (in)completa mentira.

E diante disso não espere compreensão. Não espere paciência. Muito menos empatia.

Existe uma única saída viável: eliminar aquilo que me trás desconforto.

Ora, eliminar não implica necessariamente em destruir/matar. Implicar em fazer ineficiente, nulo, vão, etc.

Assim a luta não é contra você diretamente, mas sim contra tudo que faz parte de você como um conteúdo de vida. Que seja simplesmente tirando esse conteúdo, provando ser falso ou simplesmente convertendo-o para um sistema “normal”.

De todos esses o mais sorrateiro é aquele que visa converter você num ser “normal”. Sim… porque ser normal implica em fazer parte do mesmo sistema de vida ao qual aqueles outros fazem parte. Logo você deixa ser aquilo que contrariava-os e passa a corroborar! Sim… mesmo sem perceber! Você NUNCA perceberá naturalmente.

E tudo isso acontece de uma maneira muito simples. Tão simples é incoerente. Porque tudo consiste em fazer de você tudo aquilo que você nunca foi.

Tão simples… mas muito mais perigoso do que se pode imaginar.

Temos uma pulsão natural para a “normalidade”. Para nos encaixarmos naquilo que a Maioria idealiza como o modelo correto. Para agradar essa Maioria sendo aquilo que se idealizou como o modelo padrão de vida.

Porque ser normal é a forma mais simples e prática de se sentir seguro. E assim se sentir feliz.

Contudo a felicidade que a normalidade pode trazer além de ser efêmera é extremamente frágil. Ao ponto de ser completamente abalada pela simples existência de alguém que não a segue, um anormal.

Mas é uma doce ilusão… e não é fácil resistir.

Por isso enquanto as pessoas “normais” se preocupam com os pecados da luxúria, mentira, cobiça, preguiça, etc… nosso pecado latente é o da auto-traição. Ser seu próprio Judas! Judas traiu Jesus porque Ele nunca ter sido aquilo que o seu povo imaginava que o Messias seria. Jesus era a antítese de suas fantasias. E você é a antítese da sociedade.

Mas em você habita Jesus e o Judas. Ao mesmo tempo você é a antítese também é aquilo que não a admite. O pensamento coletivo inconsciente de todo o povo cai sobre seu Judas. Ele por sua vez trocaria o Jesus-Eu por qualquer quantia irrisória de normal-felicidade.

Na prática você é impelido (sem entender de que maneira, a razão, a motivação… nada!) a ser-fazer tudo aquilo que não faz parte de você.

Mas como alguém pode cair em algo tão bobo… afinal… sabemos muito bem o que somos ou não. Não é mesmo?

Engano… se tivéssemos uma personalidade completamente concretizada seria tudo muito simples… Mas não temos! Somos flexíveis, mutáveis, renováveis, etc. Aquilo que entendemos por Eu são pequenos fragmentos de existência. É através desses pequenos fragmentos que desvendamos aquilo que fomos, somos e seremos. Nossos sonhos e medos, gostos e desgostos, raivas e felicidades, prazeres e desconfortos.

Por isso entender que se é assexual é como montar um quebra-cabeças com esses fragmentos. De uma maneira que eles formem uma imagem coerente daquilo que somos.

Mas como somos mutáveis, flexíveis e evolutivos precisamos constantemente manter esse quebra-cabeças do Eu organizado e revisado. É aqui onde está a brecha para a pulsão pela normalidade.

Nesse vai e vem de fragmentos naturais ou alienígenas podemos falhar na sua seleção e organização. E assim assimilar um desejo que não é nosso. Que não faz parte da imagem do nosso quebra-cabeças… que não se encaixa com as demais peças. Que não se encaixa no que somos.

Sendo prático, como então não assimilar os fragmentos alienígenas? Ora… se eu soubesse da resposta eu já não seria mais humano!

Viver também implica em aprender a distinguir aquilo que faz parte de nossas vidas e aquilo que não faz. E isso leva tempo e nem sempre poderemos prever sem causar danos. Muitas vezes iremos a fundo por um caminho que não é nosso e só lá na frente iremos descobrir a completa perda de vida.

Bem… e aqueles que estão no “inferno”, como ficam? Não tão diferentes. Apenas precisam de mais dedicação. E isso vale tanto para assexuais quanto para sexuais.

O inferno não é o sexo… se é nisso que você está pensando. O inferno é ser o que não é você. E sexo pode ou não fazer parte disso. Depende de você. Depende daqueles pequenos fragmentos que juntos chamamos de Eu.

E se eu gostar?

A partir desse post começarei uma série de artigos sobre a transição do pleno desinteresse sexual para um total interesse sexual. Com isso quero atingir o maior número possível de pessoas que se encontram nas diversas variações de intensidade da sexualidade.

Muitas pessoas conflituam com a sua própria sexualidade. E para muitos a assexualidade acaba se tornando uma religião. Algo que faz parte de suas vidas… algo que é inútil e apenas retrógrado.

Logicamente uma pessoa pode querer deliberadamente evitar qualquer estímulo ao seu comportamento sexual. Isso feito de uma maneira consciente e sem neuroses pode ser bastante produtivo e tornar a vida muito mais simples.

Mas nem todos escolhem esse caminho. Muitos querem realmente mudar… mesmo que seja só um pouco. Normalmente o suficiente para satisfazer seus parceiros sexuais. E para esses vou começar uma série de textos que tentarão ajudar com os conflitos mais comuns.

Inicialmente um dos conflitos mais comuns é o “e se eu gostar?”. Mesmo os assexuais que querem fazer sexo para satisfazer alguém… ou por qualquer outra razão ainda mais boba… ficam extremamente preocupados acerca de algo tão bobo

Antes de mais nada a grande questão é entender que o processo da relação sexual é exageradamente vasto. E raramente duas pessoas gostarão do sexo pela mesma razão. Alguns gostam até mesmo porque sentem que estão fazendo o devido trabalho de homem, ou de mulher. Se sentem satisfeitos por conseguirem atingir a normalidade. Outros gostam de estar no controle de uma situação… e por aí vai. Existem milhares de razão… e prazer nunca é uma delas.

O prazer que o sexo realmente pode fornecer é efêmero e relativamente insignificante. O estímulo das áreas erógenas… é só um estímulo… esses estímulos não podem por si só dar um grande prazer e muito menos mudar o estado de percepção, humor e consciência de uma pessoa. Algo que faz parte da relação sexual.

Particularmente acho esse ponto interessante. Muitos sentem emoções que variam entre medo e nojo quando são tocados em suas áreas erógenas. Ou mesmo quando são tocados de maneira “provocativa”, em qualquer parte do corpo. Como se esse toque… por si só… fosse levar a pessoa a esse estado alterado.

Na série de artigos sobre a afetividade eu falei um pouco sobre a dedicação necessária para certas emoções. Em geral… quanto maior a intensidade do sentimento… mais dedicada nossa mente estará. O que pode dar uma impressão de transe. Mas na verdade tanto uma depressão profunda quanto o sexo mais selvagens são estados de quase total exclusivamente mental.

É praticamente impossível ler um livro e sentir prazer no sexo ao mesmo tempo. E ler ainda é uma capacidade cognitiva… mas pior ainda seria experimentar dois sentimentos específicos ao mesmo tempo. A excitação sexual, pela sua intensidade, não consegue coabitar com praticamente nenhum outro sentimento. O que muitas vezes acontece é que um sentimento se torna parte de outro sentimento maior. Por exemplo… o medo, mais especificamente a ansiedade, pode fazer parte do desejo sexual. E assim catalizar sua intensidade. Mas um medo intenso jamais coabitaria com um desejo sexual intenso. Salvo se a pessoa tiver algum distúrbio mental.

Esse estado exclusivo de consciência, humor e percepção que o desejo sexual requer é algo que quase todos os assexuais temem. Alguns apenas evitam… e outros realmente odeiam. É muito comum que projetem um sentimento de imundice sobre aquilo. Já que esse sentimento parece criar uma reação fisiológica oposta ao esperado.

Ora, o que gera toda essa rejeição é difícil dizer. Mas em geral tudo remete a sair de sua zona de conforto e entrar num território inexplorado.

Acontece que diferentes estados emocionais possuem diferentes níveis de sugestibilidade, emotividade, sensibilidade, etc. Os hipinóticos sabem muito bem sobre isso… e sabem que o ambiente emocional de uma pessoa é fundamental para o sucesso do transe. Na vida real nosso humor interfere de forma bastante prática, tanto de forma direta quanto indireta.

Diretamente um estado de humor mudará nossas capacidades cognitivas e até físicas. Indiretamente mudará a percepção sobre quem somos.

Em ambos os casos estamos lidando fortemente com nossa zona de conforto. O medo não é do sexo em si… muito menos do prazer… nem muito menos de gostar. No fim das contas o medo é sobre quem somos ou seremos para nós mesmos e para o mundo.

Afinal… quem sou eu?

Um estado diferente de humor implica numa nova percepção de quem somos. Do que somos capazes, do que queremos, o que podemos fazer… tudo! Tudo muda! Assim como muda nossa sugestibilidade. Podemos fazer aquilo que nunca faríamos antes. Não sabemos como lidar com isso. E isso consequentemente cria muito medo.

A forma como as pessoas nos enxergarão também muda bastante. Muitas vezes, dentro de um namoro – por exemplo, o homem ou a mulher passa sempre uma imagem de “pureza” e “inocência”. E como o relacionamento foi construído em cima dessa imagem a pessoa teme desconstruí-la para seu parceiro e assim, consequentemente, mudar toda a mecânica de sua relação e até mesmo destruí-la.

Inicialmente começamos com uma dúvida e agora terminamos com outra ainda maior. No primeiro caso, quando estamos lidando com esse território inexplorado, a solução é relativamente simples. Não podemos fazer nada que não existe em nós mesmos. Ou seja… é impossível despertar uma devassa incontrolável que não existe em você. Logicamente existem certos “fantasmas” que nos habitam. E muitas vezes sabemos disso, mas escolhemos por escondê-los ao invés de tratá-los.

Nesses casos… quando se observa que existe algum comportamento realmente desagradável e indesejável dentro de um estado de excitação sexual… o ideia é buscar ajuda profissional.

Muitas pessoas propositalmente mudam completamente seu comportamento habitual dentro de uma relação sexual, mas fazem isso deliberadamente e de maneira controlável. Elas utilizam esse recurso para provocar um maior nível de excitação psicológica e suscitar alguns outros sentimentos que podem catalizar o prazer do ato. Mas sabem o que estão fazendo e se sentem no controle da situação.

Quando uma pessoa não tem toda essa consciência e não se sente no controle dessa situação ela realmente pode criar situações que podem chegar a agressão emocional ou até mesmo física. Em todo caso, deve-se buscar ajuda médica.

Além disso… aqueles que não observam esses “fantasmas”, mas apenas temem que eles surjam ou criem-se do nada… não precisam temer. O ideal é que quem está determinado a começar a ter uma vida sexualmente ativa tenha coragem suficiente de começar. Isso é: se dispor a ir progressivamente da excitação sexual ao orgasmo. É muito improvável que nesse processo a pessoa entre em algum transe e mude completamente de personalidade.

Logicamente não é tão simples assim… e existem várias etapas entre um beijo e um orgasmo e até o pós-sexo que é parte fundamental do processo.

Para aqueles que não buscam o orgasmo ou dificilmente o encontrarão com um parceiro… basta encarar esse medo inicial. Muitas pessoas possuem pouca sensibilidade emocional para o sexo. E assim dificilmente chegam ao orgasmo. Muitas não conseguem manter a excitação sexual por muito tempo, por exemplo. Essas pessoas praticamente não precisam se preocupar com o estado alterado de humor… já que ele pouco existirá ou não existirá mesmo.

Aqueles que realmente buscam sentir o prazer sexual em todas as suas formas precisam aprender a desenvolver sua sensibilidade emocional para o sexo. Algo que pode levar muito tempo. Ou não. Depende da pessoa. Mas que nem sempre é 100% possível. E por ser um processo tão complexo sempre é indicado o acompanhamento de um profissional na área.

O outro problema é como nosso parceiro e as demais pessoas nos verão a partir daquele momento. O que é, na verdade, o maior desafio. Já que muitas vezes não há uma solução viável. E a única opção viável é realmente terminar com o relacionamento romântico e começar um novo, dentro de uma nova compreensão do que somos, queremos e como nos comportamos dentro daquela situação. E para as demais pessoas… apenas muito “jogo de cintura” e paciência.

E por aí vai.

Bem… espero ter sido claro, apesar da complexidade do tema. Qualquer dúvida podem deixar um comentário.

E só para constar: eu não apoio essa mudança comportamental (de assexual para sexual). E sempre aconselho que antes de tudo a pessoa passe um bom tempo se entendendo… e entendo tudo sobre assexual. Para só então tomar uma decisão que pode não ter retorno. Pense nisso!

A complexidade da Pedofilia

Se há uma coisa paradoxa e incompreensível é o comportamento da sociedade diante de alguns dos tabus mais antigos da humanidade e pedofilia e incesto. Ambos historicamente sempre conviveram juntos. O incesto ainda continua sendo muito descriminado… mas não com todo o ódio da pedofilia.

A pedofilia na verdade hoje apenas categoriza uma doença psicológico. E de fato… as características da pedofilia clínica são de uma doença mental. Mas a pedofilia como interesse romântico/sexual por crianças sempre existiu e nem sempre foi tão repudiada.

Na verdade toda a descriminação está sobre dois pilares: o abuso e o violência. O abuso se dá porque “teoricamente” pessoas com menos de 14 não possuem total consciência dos seus atos e não podem consentir em tudo que fazem. E a violência física ou psicológica que sempre ou quase sempre está presente nas reportagens sobre isso.

O que me intriga é que não existem grandes diferenças sensitivas entre adultos e crianças. Crianças inclusive podem chegar ao orgasmo ainda nos seus primeiros dias de vida. E isso acontece com grande frequência… muito mais do que adultos que praticam sexo com regularidade. Toda a diferença está no sistema reprodutor propriamente dito. Uma criança de 8 anos ou mulher de 30 anos poderão sentir um orgasmo na mesma intensidade.

É claro que nossa cultura ao mesmo tempo que tornou o sexo algo “nojento” colocou sobre as crianças a graça de serem puras. Então nos condicionamos a acreditar que crianças são incapazes de ter uma sensibilidade tão estimulante… e de que não fazem ideia do que é um orgasmo. Na verdade muitos nem querem aceitar isso… odeiam apenas essa ideia. Mas os fatos são fatos.

Agora, se uma criança pode sentir o mesmo que o um adulto senti… e aproveitar esse momento e ainda quererê-lo novamente… por que não aceitamos a ideia de um adulta fazendo sexo com uma criança?

É até comum encontrar casos nos jornais de pessoas entre 8-12 anos que fazem sexo com outras com mais de 20. E esses casos são chamados de pedofilia. Mesmo quando o menor possui total consciência do que está fazendo, gostou do que fez e se sente totalmente confortável para continuar sua relação com o adulto. Não foi violentado e não se sente abusado… e muitas vezes o adulto realmente não abusou da criança em momento algum e também nem chegou a manipulá-la com ilusões ou presentes de segundas intenções.

O que me intriga é que se sexo é algo bom… algo que deve ser cultivado… que até trás benefícios para a saúde… que ajuda a relaxar… que ajuda em praticamente tudo na vida(!)… por que tratamos a relação sexual/romântica entre crianças e adultos dessa maneira?

Será que vemos nessas relações tudo que não vemos numa relação “normal”? O que seria?

Obviamente não apoio a pedofilia… assim como não apoio a sexualidade… mas são perguntas as quais gostaria de ouvir respostas.

Début

É com muito prazer e honra que publico o meu primeiro post aqui. Fui convidado pelo Julio para fazer parte deste blog e me sinto muito lisonjeado dividindo esse espaço com ele que já me esclareceu tantas coisas. Espero corresponder à qualidade que ele mantém a cada texto e poder acrescentar de alguma forma a você leitor.

Antecipo aqui que não possuo conhecimento técnico a respeito dos temas que Julio explora tão bem, mas espero contribuir de forma mais construtiva, compartilhando dúvidas, experiências e pensamentos. Sou formado em Jornalismo e acredito que a passagem abaixo do célebre jornalista Zuenir Ventura resume todo meu propósito:

“Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhas de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica”

Obviamente cada um visita este blog com algum propósito, assim como cada um já trás consigo sua visão de mundo. Mas acredito também que sempre estamos em transformação. Não somos os mesmos de segundos atrás, não é verdade? Portanto, rever algumas idéias e reafirmar outras é completamente saudável e necessário. Imagine como seria “invivível” se cultivássemos os conceitos de nossa infância em nossa adolescência e os de nossa adolescência em nossa fase adulta?

Evidentemente isso também se aplica às questões afetivas e é sobre elas que me debruçarei. Não pretendo apresentar conceitos prontos e acabados sobre sexo, namoro e relacionamentos, enfim, mas dividir aquilo que provavelmente você dividiria com alguma pessoa disposta a escutar.

Abraços,

-A