O tempo vai passando e a assexualidade vai se tornando mais conhecida. Isso quer dizer que um maior número de pessoas vai descobrir que é possível viver sem sexo. E assim toda a pressão em cima da sexualidade vai diminuir gradativamente e mais pessoas poderão se identificar enquanto outros poderão se sentir mais leves e seguras.
Na verdade ninguém sabe o que o futuro espera. Há quem acredite que o crescimento da assexualidade é um movimento do inconsciente coletivo inconformado com a erotização da vida, dos paradoxos do sexo e do consumismo humano. Enquanto outros acreditam que a assexualidade sempre esteve presente nas mesmas proporções atuais, mas não tinha a divulgação que temos hoje. Não temos como saber agora… o que temos é esse fato. Mas ao mesmo tempo que mais e mais pessoas estão se identificando muitos (a maioria) deixa passar o mais importante: a auto-análise.
A sexualidade está aí a milênios. Na verdade essa forma de comportamento foi a principal responsável por todo nosso mundo atual. A forma como vivemos, compramos, nos relacionamentos, crescemos, pensamos, desejamos, trabalhamos, estudamos, etc. De uma maneira geral tudo converge para o erocentrismo, a sexualidade. Por isso toda pessoa que segue o rumo da sexualidade está trilhando um caminho já traçado. Com regras, padrões e modos estabelecidos. Ela não precisa pensar muito por conta própria sobre como será sua vida sexual, social, familiar, financeira, etc. Ela só precisa seguir o caminho mais ou menos claro estabelecido culturalmente pelos seus ancestrais.
Mas o que acontece quando essa pessoa segue um caminho diferente? O que acontece quando ela acorda e percebe: “eu sou diferente”?
Existem várias abordagens. Há quem rejeite esse pensamento e queira ser igual. Há quem entenda que é completamente diferente das outras pessoas e deve buscar uma vida compulsoriamente diferente. Há quem entenda que deve ser diferente exclusivamente nos aspectos popularmente conhecidos como sexuais. E por aí vai.
Por isso estou cansado de ver pessoas associando a falta de desejo/atração/interesse por sexo (assexualidade) com infelicidade, solidão, isolamento, inferioridade, etc. Mas é pela falta de auto-conhecimento que a grande maioria das pessoas segue exatamente por esse caminho.
Ora, quem disse que viver é fácil? Viver implica em pensar a vida. Não podemos nos ater a padrões, rótulos, modelos, modos, etc. Tais coisas não possuem valor por si só. Mas nos apegamos a elas na nossa eterna busca pelo sentido cósmico. Quando descobri a assexualidade me apaguei (assim como quase todo mundo) aos padrões encontrados. Por um lado me senti extremamente leve, mas por outro tinha um peso que eu sentia não fazer parte de mim.
Praticamente toda minha vida futura havia perdido o sentido. Os modelos comuns perderam seu sentido e eu não sabia mais o que fazer. Por algum tempo fiquei anestesiado. Sem sentir a dor da incerteza. Dos relacionamentos sociais eu não esperava muito. Já que considera que quase tudo nesse campo estava erotizado. Acreditava que não me incomodava em não ter pessoas que me amassem. Praticamente não tinha amigos. Minha carreira profissional havia perdido o brilho da sensualidade. Até os estudos perderam o sentido. Poucas coisas me traziam alguma satisfação.
Mas, assim como antes, eu não parei de pensar. Foi o pensamento que havia me levado até lá… e era certo que eu não ficaria no mesmo lugar por muito tempo. Aos poucos fui redescobrindo os sentidos da minha vida. E na verdade isso nunca terminou e nunca vai terminar. Toda minha viagem até aqui tem sido descobrir o que realmente me satisfaz e como posso viver melhor essas experiências.
A primeira que entendi foi que o problema quase nunca está no processo si, mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos pela minha cultura. Assim descobri que ao contrário do que pensava eu não era anti-social. Minha evasão dos relacionamentos basicamente se fundamentava em dois aspectos: minha extrema sensibilidade e inconformidade com os padrões estabelecidos. Minha isolação era um recurso de fuga, auto-segurança. O mundo me sufocava com seus hábitos, apatia, violência e cinismo… minha melhor defesa era o sarcasmo, a frieza e a passividade. Ou seja… ser completamente indiferente.
Então eu tive que aceitar que na verdade eu era um ser sensível. O que não foi fácil. Já que nossa norma (a normalidade) implica em ser insensível. Minha sensibilidade me dava uma grande sensação de total desamparo e fragilidade. Então tive que descobrir os recursos certos (e automaticamente anormais) para viver dessa maneira – com a minha sensibilidade. Com o tempo percebi que a sensibilidade na verdade me abria a uma compreensão mais profunda da vida. O que chamamos de empatia. E isso me fazia sentir mais dor naquilo que antes já doía, e mais desconforto naquilo que já incomodava e mais desespero para aquilo que era urgente. Mas isso era bom. Porque ao mesmo tempo os sentimentos positivos eram igualmente mais profundos e sinceros. E isso tudo me ajudava a mudar ainda mais. A agir. A fazer coisas o que eu sabia que deveria fazer.
Então deixei de ter medo da sensibilidade. E não me senti mais frágil. Porque isso me tornava ainda mais forte e efetivo na minha vida. Em um pouco mais de um ano minha vida mudou mais do que em todo meu passado. Consegui realizar muitos sonhos do passado. E tive novos sonhos. Enquanto vive coisas que nem tive tempo de sonhar! A fragilidade se desfez, mas paralelamente também existia o sentimento de desamparo. Não era mais tão fácil ignorar as outras pessoas. Eu não sabia como me relacionar. Se deveria ter pessoas realmente importantes na minha vida. Afinal essa abertura também me fragilizaria. Eu poderia continuar fechado? E como me relacionaria com essas pessoas? O que elas iriam esperar de mim? Será que eu conseguiria suprir todas as suas expectativas? Será que me magoariam? Que tipo de envolvimento teríamos? Durante toda minha vida provavelmente conheci milhares de pessoas… mas tanto tempo depois quantos estão do meu lado? Quantos se importam comigo?
Eu tinha medo de que isso acontecesse novamente. Confiar não era fácil. Eu já conhecia o incrível poder humano de me frustrar. Então deduzi que eu estava sendo egocêntrico. Por que só eu poderia ser assim? Por que todas as pessoas teriam que ser hostis e insensíveis? “Não… deve haver mais alguém”. Assim descobri, através do site, algumas poucas pessoas (realmente poucas) que faziam uma viagem parecida com a minha.
E naturalmente não tive medo de me abrir para essas pessoas. Na verdade eu nem ao menos percebi que isso estava acontecendo. Quando me dei conta elas já estavam lá. E com o tempo me senti… como “normalmente” se diz… amado. Na verdade, sendo mais específico, senti que havia encontrado pessoas que realmente se importavam comigo; gostavam de mim pelo que sou; não viviam em cima de expectativas que eu nunca poderia suprir 100%; eram carinhosas e compartilhavam de minhas dores e alegrias; etc.
Principalmente eram pessoas reais isso é, haviam pontos positivos e negativos. Em muito me faziam feliz e em alguns casos me deixavam tristes. Me encantavam mas também podiam me frustrar. E isso era bom. Pois, não importava a circunstância, sempre havia um equilíbrio. Sempre havia um compromisso consigo mesmo de fazer o melhor. Chegou um momento em que eu percebi que havia algo “errado” om meus relacionamentos. Eles não estavam padronizados. O nível de intimidade e de “amor” que tínhamos não caberia naquilo que chamamos de amizade. Na verdade não caberia nem mesmo dentro de um namoro.
Foi aí que percebi que meu problema com os relacionamentos não estava em mim ou mesmo nas outras pessoas. Mas sim nos padrões e roteiros estabelecidos.
Aos poucos fui desconstruindo esse pré-conceitos e fui (e ainda estou) explorando novos caminhos. E o fruto dessas descobertas sempre trazia mais intimidade e criava uma relação mais madura e sólida.
Primeiramente descobri que a erotização está em nossa própria mente. Se eu erotizo um abraço… logo ele sempre será erótico. O mesmo vale para as palavras e tudo na vida. Assim fui desconvertendo tudo aquilo que a minha cultura havia trazido para o Maculado Caminho da Erotização e descobrindo como a afetividade pode ser doce, pura, sincera e desejável. Sem que tudo se transforme numa compulsória busca por prazer, numa objetificação do outro ou mesmo num processo de auto-engano. E na verdade, nesse processo, tive que reformular o próprio conceito de afetividade.
Mas claro que nada disso foi tão fácil quanto pode parecer. Como disse já se passou um pouco mais de um ano… e nesse processo tive que errar muito (leia sofrer) e reaprender a fazer a coisa certa.
E assim como o que foi dito até aqui toda a minha vida foi ganhando forma. E esse processo não terminou. E espero que nunca termine!
Eu poderia falar muito mais sobre minha vida. Mas concluindo digo que hoje não vivo mais em cima de uma pseudo-satisfação pela indiferença. Nem vivo fantasias hollywoodianas. Mas me sinto profundamente satisfeito com tudo que vivi e com a proposta do que viverei.
Com isso não quero dizer que as demais pessoas devem fazer o que fiz. Não… esse foi o meu caminho. Não tente seguir o meu caminho. Procure o seu, mesmo que esse seja idêntico ao meu, mas tenha consciência de que ele é seu.
Todo esse triste estereótipo em cima dos assexuais é apenas um retrato do que muitos vivem. Não por acasos da vida, ou pelo próprio efeito da assexualidade. Mas sim por que esse foi o caminho que escolheram seguir.
Por mais óbvio que possa parecer uma mudança de vida requer uma mudança de atitude. A assexualidade não trás qualquer problema para a vida, pelo contrário! O que falta não é uma receita mágica de um livro de auto-ajuda sobre como ser feliz. O que falta é uma simples, profunda e interminável mudança de atitude.
Os esterótipos mudam quando mudamos. Se os assexuais continuarem por trás dos seus rótulos e “critérios” inúteis… sempre serão conhecidos como atualmente são. A melhor maneira de mudar isso é descobrindo seu próprio caminho.
