Comentário deixado em post:
Julio, eu não entendo esse seu último comentário: “até onde sabemos não há qualquer instinto que leve o homem naturalmente a colocar seu pênis dentro da vagina da mulher”.
Por que, se não houvesse esse instinto, como é que houve a reprodução das espécies? Nos primórdios não havia ninguém que dissesse você é hétero ou homossexual, você precisa fazer sexo para satisfazer seu marido nem nada desse tipo. As pessoas só sobreviviam não? Elas comiam porque tinham fome, bebiam porque tinham sede e faziam sexo porque tinham essa necessidade.
Não acho que não ter necessidade/vontade de fazer sexo seja anormal, mas que existe um instinto sim, talvez não de fazer sexo, mas de se ter prazer e descobriu-se que o sexo era prazeroso, senão, por que os homens das cavernas faziam?
Ass: Mai
Minha cara… esse assunto já foi comentado várias vezes aqui no site. Mas vamos falar novamente reformulando e deixando mais clara algumas ideias.
Eu pediria que o leitor tentasse ler mais de uma vez as perguntas feitas para entender a profundidade dessa questão, e então continue com a leitura.
O seu pré-suposto é que sem tal instinto seria impossível que o ser humano, no princípio, chegasse a se reproduzir… e isso realmente aconteceu, afinal… estamos aqui hoje.
Não sabemos como o ser humano se reproduziu no princípio. Podemos imaginar que ele surgiu numa cadeia evolutiva, e que nesse processo de evolução alguns instintos foram perdidos ou perderam intensidade de forma não necessariamente linear. Assim cada nova “raça” humana foi surgindo no ambiente da sua raça originária e com ela provavelmente conviveu por algum período de tempo. Isso, evidentemente, permitiria uma série de trocas culturais, etc. Sem falar no mais evidente… os seres humanos também aprenderam e aprendem com os animais. E até hoje somos inspirações pelos pássaros e feras.
Observe a sexualidade de um animal qualquer. Podemos pensar em “acasalamento” e um período para isso. Afinal, muitas animais apenas procuram sexo numa determinada frequência específica. E isso também envolve uma série de mecanismos hormonais e tantos outros estímulos (cheiros, danças, cores, etc). E tudo isso é mais ou menos sempre a mesma coisa para os animais da mesma espécie. Nada disse existe para o ser humano! Não temos um período de acasalamento. Nem somos estimulados, todos, pelas mesmas coisas. Podemos fazer vários paralelos entre seres humanos e animais em seu comportamento sexual.
Chegaremos então a óbvia observação que, para um pavão, sexo é algo muito mais “orgânico” do que “pessoal”… é um instinto do pavão expor suas penas, fazer certos movimentos, buscar um parceiro, etc. Nada disso foi ENSINADO ao pavão. E muito provavelmente ele faria qualquer uma dessas coisas mesmo que nunca houvesse conhecido um outro pavão antes, desde que tivesse o ambiente natural necessário para desenvolver seu comportamento.
Vamos imaginar um outro “instinto”: a fome. A fome parece ser um instinto legítimo, afinal é uma reação hormonal espontânea do metabolismo carente de nutrientes. Mas o que chamamos de “fome” no princípio de nossas vidas… nada mais era que um sentimento. Um sentimento de desconforto, dor, etc. Então como esse sentimento pode terminar numa pizza saborosa???
Precisamos pensar nas “conexões” para construir esse complexo quebra-cabeça. Na mente do bebê qual a relação lógica natural entre uma maçã e sua fome? NENHUMA! Para o bebê a maçã não significa nada além de um simples objeto qualquer. O bebê pode sentir uma atração instintiva por certos cheiros, por certas cores, etc. Isso poderia atraí-lo para certos alimentos… mas… um bebê humano é uma bolinha gorda que mal consegue respirar sozinho!
O bebê possui um instinto natural de sucção… isso sabemos bem. Esse comportamento serve de suporte para a amamentação. Mas não é o bebê com seus movimentos incertos e confusos que procura os seios da mãe… é ela que se oferece. Então aos poucos o bebê começa a relacionar os sentimentos de desconforto da fome, a saciedade, etc.
Então, resumindo… o ato de comer parte de um conjunto de instintos naturais e influências externas que formam um processo de aprendizado da “alimentação”. O que apresentei aqui é algo super resumido para um processo muito, muito, muito mais complexo.
Mas… olhe! O que nos faz salivar ao ver uma pizza cremosa, ou uma macarronada suculenta? A fome, nosso instinto mágico??? Não… né! A salivação é um processo instintivo que existe em vários animais… mas a salivação ocorre naturalmente quando o alimento está na boca, para ser digerido. Como podemos salivar por um comercial??? Porque aprendemos, associamos uma série de ideias que provocam esse comportamento. Incrível, não?
Todo nosso comportamento parte de processos biológicos básicos… isso é evidente. Temos uma “base” que é nosso ser orgânico. Mas é importante entender que qualquer comportamento é na verdade muito mais complexo e não parte de algum instinto “simples”. Por exemplo… dizemos que um homem matou a esposa por instinto, porque foi traído, etc. De certa forma até justificamos seu comportamento com isso. Dizemos também que certa criança é pestinha porque é da “índole” dela. Também há os comentários sobre o mundo dos negócios e aqueles que “nasceram” para isso! Temos uma série de ideias deterministas, essencialista, sobre a vida!
Algumas dessas ideias podem ser banais… mas outras, em certos contextos, podem provocar uma enorme dor e sofrimento para as pessoas. Se realmente houvessem instintos absolutos não haveria diferença, se não sutil e pouco relevante. Há uma enorme diferença entre as pessoas porque os instintos que carregamos não possuem o poder que imaginamos que possuem. Os instintos, o ser orgânico, etc. é o mecanismo essencial… mas o que ele determinado ou estabelece é impreciso e diverso. E no decorrer de nossas vidas passamos por diversas mudanças, porque nosso comportamento é dinâmico! O que sentimos, queremos, entendemos, ignoramos, gostamos, etc. muda o tempo inteiro, é influenciado pelo estado de humor, pela experiência consciente e inconsciente, por condicionamentos, etc.
É muito importante entender que ideias essencialistas não ajudam a entender o comportamento humano. Dizer que João é gay porque ele “é assim”… não quer dizer absolutamente nada… parte tão somente da suposição de que seu estado orgânico ou um certo espírito transcendental tem determinado comportamento específico! O que é um grande, enorme, estrondoso, exagero.
As pessoas fazem sexo. E a razão por trás disso é complexa. Envolve um corpo orgânico e uma série de instintos básicos. Mas não conhecemos algum instinto claro de relação sexual. Por isso usei o exemplo tão especificamente. O que leve um pavão a mostrar suas penas??? Ele tem alguma consciência disso? Qual o significado que ele atribui a sua ação?… O que leva uma garota a usar uma blusa com um decote? Ela tem consciência do que está fazendo? Qual o significado que ela atribui àquela roupa?… Percebe agora a diferença?
Por que além de um corpo orgânico e de seus instintos há também, e sobre tudo!, um comportamento que foi apreendido, desenvolvido e é dinâmico, muda constantemente, aprende significados novos, hábitos, etc.
Se queremos entender o ser humano, nos ajudar e ajudar os outros, não precisamos de ideias essencialistas. Já temos todas imagináveis! Podemos explicar até um espirro por alguma inclinação natural à doença… ou qualquer coisa do tipo. Não precisamos disso. Entender aqui significa ir além.
Se não ficou ainda compreendido, sintam-se livres para deixar um comentário.

Boa noite.




