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Original em inglês: AVEN


Entendendo a Assexualidade de Fora
por Mark-Ameen Johnson


Eu tenho um amigo que raramente menciona o sexo e não fazia nada em pelo menos uma década. Sempre parecia estranho para mim, mas ele é uma pessoa pela qual eu realmente me importo, e eu o aceito como ele é.

Quando eu encontrei a comunidade do AVEN, eu somei dois mais dois e cheguei a conclusão de que era assexualidade. Eu não queria confrontar o meu amigo sobre algo com o qual ele poderia não se sentir confortável em conversar, mas eu queria que ele soubesse que eu era simpatizante de assexuais.

Sem ter nenhum plano melhos, eu mandei um e-mail informativo para uma dúzia de amigos, deixando eles saberem que eu estava lendo coisas muito interessantes no forum do AVEN. Eu até mandei links para alguns de meus favoritos. Meu e-mail não era para nenhum dos outros onze; ele foi para eles apenas para que meu amigo não achasse que eu o estava confrontando.

Ele me respondeu o e-mail alguns dias depois, dizendo que havia olhado no forum e achado tudo fascinante. Ele também disse que desejava que ele tivesse nascido assexual, porque aí sua vida seria muito mais fácil.

Ok, ele não é assexual então.

Dois dias depois, eu recebi um e-mail de outro amigo, um dos onze. Ele disse que sempre havia suspeitado ser assexual.

Eu fiquei chocado. Esse segundo amigo fala muito sobre paixões por artistas de TV e eu havia há muito tempo taxado ele como um típico homem heterossexual. Claro, agora que eu entendo assexualidade, eu sei que assexuais podem ou não ter orientação afetiva, e podem ou não ter fantasias sobre personagens fictícios. Eu deveria saber que não se deve utilizar de esteriótipos.

Eu estou realmente envergonhado em admitir, mas meu esteriótipo ainda é maior. Meu amigo é muito atraente, e eu acho que assumi que caras que são tão bonitos têm um harem de mulheres aos seus pés. E aqui eu me orgulho de ser um homem feminista... Deveria me envergonhar! E mais ainda por assumir que um homem bonito e atraente não poderia ser assexual, já que aparência fisica e assexualidade não têm nenhuma relação um com o outro. Se homens atraentes são, por definição, sexuais, então o que seria dos homens assexuais? Deveria me envergonhar mais ainda.

Meu esteriótipo fala muito sobre os meus valores como um sexual apesar de meu esforço para não colocar valor demais na aparência física. Logicamente falando, por que seria impossível para uma Tyra Banks ou um Brad Pitt serem assexuais? Duvidar da possibilidade é duvidar do valor dos assexuais, dizer que sexualidade e beleza apenas definem quem uma pessoa é.

E aqui, chegando na meio madura idade dos 41, eu me achava sábio. Certamente eu tenho muitas coisas a aprender, e o forum da AVEN é um bom lugar para começar.

A PRIMEIRA PREMISSA

Então, por qual premissa deveria um sexual que quer entender a assexualidade começar? Aqui vai uma sugestão: Ser assexual em vez de sexual é como ser canhoto em vez de ser destro. Não é a maneira como a maioria das pessoas são, mas não é melhor ou pior do que ser qualquer outra coisa. Em uma classe com mesas de apenas um braço móvel, uma pessoa destra pode sentar em qualquer lugar; um canhoto pode ou se sentar com desconforto em uma cadeira feita para destros ou tentar encontrar uma cadeira feita para canhotos e ficar tão confortável quanto os outros. Dá um pouco mais de trabalho para os canhotos para se encaixarem na sociedade, mas isso é porque a nossa cultura é dominada pelos destros, não porque os canhotos são biologicamente inferiores.

No passado, achava-se que os canhotos eram malvados: No Dia do Julgamento, os condenados se erguerão ao lado esquerdo de Cristo. Professores usavam de punição física para forçar os canhotos a escrever com suas mãos direitas. Hoje em dia nós somos mais espertos – e ainda descobrimos que algumas pessoas são ambidestras (canhoto e destro ao mesmo tempo). “Infinita diversidade nas infinitas combinações,” diz o IDIC Vulcano.

Aceitando igualdade em um nível intelectual é uma coisa, mas como nós sexuais poderíamos entender em um nível emocional como é ser um assexual? Nós não podemos. Como eu não sou um assexual, eu não posso dizer com certeza o que é ser um assexual – assim como eu não posso dizer com certeza o que é ser uma lésbica, uma mulher, um aspie, um afro-americano, um húngaro, um coreano, um idoso. Apesar das minhas limitações, entretanto, eu ainda posso tentar ganhar um pouco de entendimento, e eu posso usar de analogias para me colocar no lugar de um assexual; e ainda mais, eu posso simplesmente usar de amor humano e aceitação para festejar as diferenças e tratar os outros como eu gostaria de ser tratado.

O MUNDO DAS SOBRANCELHAS

Imaginemos agora que estamos em outro planeta, talvez Alfa Centauro, onde a cultura dominante é baseada na beleza das sobrancelhas. Na verdade, homens da sua especie são ditos pensar sobre uma sobrancelha levantada a cada 17,3672 segundos. A indústria de cinema de Centauro é dominada por filmes de sobrancelhas, que um dia já foram consideradas obscenas demais para serem mostradas em público. Tocar a sobrancelha de alguém é, bem, algo que você ainda faz somente atrás de portas fechadas. Lamber a sobrancelha de alguém... isso deveria ser reservado para depois do casamento, apesar de que existem muitos adolescentes que dão aquelas lambidas de sobrancelhas em carros estacionados, longe dos olhos de seus pais conservadores. As notas de alguns adolescentes são ruins na escola porque eles não conseguem se concentrar nos estudos; eles só pensam em sobrancelhas, especialmente aquelas grandes e bem peludas.

“Mas que droga é essa de sobrancelhas?” você pergunta. Você sabe que as sobrancelhas existem, e você é perfeitamente capaz de admirar um bonito par esteticamente, mas quem iria devotar uma parte tão grande de sua energia mental e horas acordado para.... sobrancelhas? Isso não faz sentido. Você certamente não quer que todas as malditas conversas sejam focadas no quanto aquelas sobrancelhas merecem uma boa lambida.

Você percebe onde eu estou querendo chegar? Você nunca se negou que tem sobrancelhas, e você pode apara-las, depilá-las, ou tingí-las com os melhores produtos, mas Que é isso, sobrancelhas?!? Existem coisas mais importantes na vida.

Agora volte no texto e substitua “sexo” no lugar de “sobrancelhas” e você estará próximo de passar Assexualidade I.

BOMBARDEADOS PELA SEXUALIDADE

De volta ao mundo real... Na nossa cultura sexual, assexuais são bombardeados pela sexualidade que é estranha a eles, fazendo-os sentirem como se eles devessem ter perícia sexual para ser aceito pelos caras legais e não ser renegado para o grupo dos anti-sociais. Nós nunca perguntamos se eles se interessam por sexo; nós assumimos que sim. Por que eles não seriam? Sexo é ótimo. Sexo é o máximo. Sexo é o que há.

E as sobrancelhas também são.

Pessoas se questionam por que os assexuais deveriam sair do armário, mas em uma sociedade onde o desejo sexual é assumido e muitos assexuais percebem que são obrigados a mentir para serem aceitos, por que eles não teriam que sair do armário? Não tem nada a ver com a psicologia assexual e tudo a ver com a maneira com as quais nós sexuais forçamos a conformidade sexual como lei. Assexuais precisam ter outros assexuais para contar suas experiências, e aqueles que procuram relacionamentos românticos não-sexuais precisam achar outros que procuram o mesmo. Uma auto-avaliação dolorosa e uma consciência crescente de si mesmo não podem ser agüentados em isolação. E mais, a experiência de um assexual em um mundo louco por sexo pode ser tão dolorosa que auto-flagelação e até mesmo abuso de drogas e alcool podem ser problemas reais.

A ironia é que sexuais deveriam entender a maneira como os sexuais se sentem. Mulheres heteros e homens gays têm um certo sentimento assexual por mulheres, por exemplo. Eles podem desejá-las como grandes amigas, adorar passar o tempo com elas, rir ou chorar com elas, admirar a sua beleza física... Mas isso não é sexual. Similarmente, homens heteros e mulheres lésbicas não têm desejos sexuais por homens, mas isso não significa que homens não fazem parte da vida deles de maneira alguma.

Agora aqui está o ponto chave: A menos que seja parte de uma gracinha ou piada da qual todas as partes se sentem confortáveis, um avanço sexual de alguém de fora de sua orientação sexual geralmente não é bem vindo. Um homem hetero não quer levar uma cantada de um homem gay, e um homem gay não quer levar uma cantada de uma mulher hetero. Assexualidade é uma orientação sexual válida, e assexuais não querem ser cantados por ninguém. Quando nós sexuais dizemos que assexualidade não é normal, nós estamos na verdade projetando nossas aspirações e funcionamentos biológicos neles. Nós estamos escutando nossas próprias vozes, e não a deles.

Essa é uma definição simplificada e infantil da sexualidade, eu percebo, e não leva todo o espectro sexual em conta. Eu não estou tentando definir todas as possibilidades sexuais aqui, e eu certamente não quero alienar os bissexuais ou pessoas com atração primaria por um dos sexos e incidental pelo outro. Eles também precisam aturar discriminação injusta e têm o direito de ser quem são. Mas, infelizmente, esse artigo seria três vezes maior se eu tentasse incluir todas os espectros da variação sexual aqui.


E POR QUE NÃO “CONSERTAR”?

De volta à assexualidade. Agora que a sua natureza está um pouco mais clara, nós deveríamos nos dirigir a outra questões que muitos sexuais fazem: Por que os assexuais relutam em se “consertar” com terapias ou tomando remédios? A resposta mais importante é que um número de pessoas foram por esse caminho, e isso não funciona. Além do mais, por que deveria funcionar? Se não está quebrado, não tem porque consertar.

Se você, um sexual pensando sobre essa questão, não tivesse nenhum interesse em SMBD (sado-masoquismo, dominância e servidão) pesado, você iria querer tomar uma pílula que deixasse você interessado nisso? Você iria querer ir a um terapeuta para explorar que tipo de traumas de infância supostamente o deixaram sem vontade de erguer um chicote? Você sentiria que estaria perdendo alguma coisa se não fosse submissivo enquanto amarrado e esparramado sobre a mesa da cozinha? Aqueles que amam esses jogos de sexo acham que aqueles que não praticam estão perdendo muito em suas experiências. Eles também se sentiriam que algo foi roubado deles se não pudessem mais expressar sua sexualidade dessa maneira. Você, entretanto, não sabe que está perdendo nada. Você pode viver uma vida feliz e produtiva sem ser o escravo sexual de alguém. Ou sem golden showers (def.: utilizar urina em relações sexuais). Ou sem sex toys de borracha.

É assim que os assexuais vêm a sexualidade. Eles não a desejam, e não querem desejá-la.


O QUE OS SEXUAIS REALMENTE ESTÃO DIZENDO?

Aquela última frase é tão difícil para os sexuais, eu incluso, para aceitar emocionalmente. mesmo que nós aceitemos intelectualmente. Muita da história humana é na verdade a história do sexo, e muitos dos grandes trabalhos de arte – em pinturas ou esculturas ou musica ou literatura – são muito, muito sexuais, mesmo que clandestinamente. Muitas pessoas tiveram que lutar para a livre expressão da sexualidade, e em muitas sociedades a sexualidade ainda permanece restrita ou negada. Até hoje algumas sociedades fazem rituais de retirada do clítoris, prendem e até executam gays, insistem que o sexo seja apenas praticado entre pessoas casadas e apenas na posição missionária. Fimes estrangeiros que visivelmente não são pornográficos precisam ser estritamente editados para evitar uma classificação para maiores de 18 nos EUA. Vários episódios da série canadense Degrassi: The Next Generation, em particular aqueles que falam sobre aborto, não passaram nos EUA. E olhe que Degrassi fala sobre adolescentes no colégio e não é nada comparável a Sex and the City.

Diga para as pessoas que elas não podem ter algo e elas querem isso ainda mais. As pessoas ficam bem sensíveis sobre qualquer invasão em sua expressão sexual, entretanto eles retêm a mesma delicadeza sexual de seus predecessores e condenam qualquer coisa vista como algo que se desvia do padrão sexual. Apesar de nossa liberação sexual, nós ainda somos produtos do preconceito de gerações antigas, pensamentos religiosos antigos e humor negro contemporâneo. Sexo está em todos os lugares, porém é um enorme tabú – e completamente sujo.

Aqui está o problema. Nós achamos que os assexuais não são como “nós”, então “eles” devem ter algo errado com eles. Eles esfregam a sua sexualidade (na verdade, a sua assexualidade) nas nossas caras, e isso ofende sei lá qual seja a moralidade Vitoriana que ainda nos assombra. E ainda pior, se um assexual ousa não mostrar um interesse sexual “apropriado” em nós, nós ficamos furiosos. Nós queremos dormir com alguém; quem diabos eles pensam que são para dizer não? Mas que triste.

Será que o sexo é realmente tudo o que existe no amor? Para um sexual, é uma parte chave na ligação entre as pessoas, mas será que é a única expressão possível para o amor físico? E os abraços, beijos, carícias leves, segurar alguém e dar o seu braço como suporte? Será que o sexo é a unica coisa que dá base a um relacionamento? Mas e a empatia, a aceitação, o entendimento, a afeição, a paciência, a confiança, a lealdade, a honra, o companheirismo e a sabedoria compartilhada?

Se esquecermos tantas coisas assim e definirmos as relações humanas apenas em termos de sexo, então o que isso nos diz sobre nós mesmos?


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