No nosso site está em destaque a nossa definição de assexualidade, em que "assexual é a pessoa que não tem interesse na prática sexual". Porventura, a definição mais utilizada entre as comunidades assexuais é a criada pela AVEN - Asexual Visibility and Education Network (Rede de Educação e Visibilidade Assexual) -, "assexual é a pessoa que não experiencia atração sexual". 

Porque não adotamos a mesma definição da AVEN 

Não achamos que a definição da AVEN está errada, pelo contrário. Mas, percebendo imperfeições nela, tentamos construir a nossa própria definição corrigindo o que acreditávamos ser necessário para um melhor entendimento. 

A atração sexual, considerando o conhecimento comum, pode parecer se restringir ao impulso orgânico que se dá entre pessoas de sexos opostos ou não visando a prática do ato sexual. A psicologia e a psicanálise, por sua vez, com a concordância de outros setores da educação, possuem uma visão mais ampla da atração sexual, a qual abrangeria não apenas o que foi descrito aqui, mas também o contato físico entre pessoas, a vontade de abraçar e ser abraçado, e diversas outras formas de contato interpessoal relacionadas à uma pulsão que ocasiona o prazer. Logo, nesse contexto, a falta de atração sexual não seria a melhor forma de descrever a assexualidade.

Procurando uma definição mais específica, chegamos à já falada "assexual é a pessoa que não tem interesse na prática sexual com outra pessoa". E assim acordamos pois a falta de interesse na prática sexual está mais inclusa na realidade da assexualidade que a falta de atração sexual, pois o assexual pode sentir atração sexual em um entendimento psicanalítico sem sentir interesse pela prática sexual com outra pessoa. E a finalização da definição com "outra pessoa" é também muito importante, pois a masturbação pode ser considerada uma prática sexual, a qual é praticada por muitos assexuais, logo, "com outra pessoa" não exclui a masturbação como prática possível ao assexual. 

Nenhuma definição está totalmente correta?

Tanto a definição da AVEN quanto a nossa, vistas de uma forma literal, podem ser consideradas errôneas, pois, ao dizerem que o assexual não experiencia atração sexual e que não tem interesse pela prática sexual com outra pessoa, estariam excluindo os demissexuais e gray-a, assexuais da área cinza, que podem ter interesse na prática sexual com outrem em situações extremamente específicas. 

Entretanto, o erro das definições se dão apenas pela forma interpretativa utilizada. Em uma interpretação mais ampla, a falta de interesse por relações sexuais pode ser vista de forma relativizada, o que intercala com a ideia de que as orientações sexuais não são totalmente desmembradas, mas sim que possuem várias pontos de conexão, manifestando-se diferentemente de cada pessoa.

Elisabete Regina de Oliveira é graduada em educação, sexualidade, diversidade sexual e relações de gênero. Ela foi a primeira pessoa no Brasil a pesquisar profundamente a assexualidade. Defendeu sua tese sobre o tema na USP, Universidade de São Paulo, em 2014. Agora ela conta para nós como foi o processo de pesquisa.


Quando iniciei minha pesquisa de doutorado sobre a assexualidade, em 2009, eu não via a menor possibilidade de conseguir pessoas dispostas a dar entrevistas para a pesquisa. Isso porque, naquela época, havia somente alguns grupos de "assexuados" - era assim que se autodenominavam naquela época - no falecido Orkut. Os membros desses grupos escondiam-se atrás de pseudônimos e avatares. Era impossível conhecer sua identidade, estabelecer um contato para apresentar a pesquisa. Para mim, era angustiante imaginar a opressão enfrentada por essas pessoas, que as levava a uma existência virtual anônima.

Isso começou a mudar quando coloquei no ar o Blog Assexualidades, que tinha o objetivo de difundir a escassa pesquisa acadêmica sobre a assexualidade sendo desenvolvida no exterior. Só após o lançamento do blog é que as pessoas assexuais foram se aproximando, me procurando, me escrevendo, mostrando-se surpresas e felizes em saber que havia uma pesquisa acadêmica sobre a assexualidade em andamento no Brasil, oferecendo sua contribuição para tornar a pesquisa possível. No final, consegui 40 voluntários de todo o Brasil! A cada e-mail que recebia, fui conhecendo melhor a opressão, o sofrimento que muitos deles enfrentavam na sociedade. O sofrimento que os levava a viver "no armário", tanto na vida real como no mundo virtual.

À primeira vista, parece que as pessoas assexuais não sofrem a mesma opressão que a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros - LGBT. Mas uma das primeiras coisas que descobri quando comecei a pesquisa é que muitos assexuais são homorromânticos, birromânticos, pan-românticos e transgêneros. Ou seja, existe uma população assexual que se relaciona romanticamente com o mesmo sexo, estando portanto, sujeitas às mesmas discriminações que os LGBTs sofrem. Isso porque, se houver um casal homorromântico andando de mãos dadas na rua, este corre o mesmo risco de sofrer violência e discriminação por causa da homofobia. Isso ocorre porque em nossa sociedade existe a PRESUNÇÃO da atividade sexual para todas as parcerias românticas. O sexo é privado, ninguém sabe o que os casais fazem entre quatro paredes. Mas o relacionamento é público, e como existe a presunção da atividade sexual, essa presunção também vale para casais homorromânticos. Sexo entre iguais é intolerável para os setores conservadores da sociedade; amor, então, nem se fale! Entre os meus entrevistados - independente da orientação afetiva - quase todos enfrentaram homofobia em algum momento da vida, por serem percebidos como homossexuais, mesmo não sendo. Na lógica da sociedade, se não é hétero, só pode ser homo. Além disso, uma mulher transexual assexual no espaço público, corre o mesmo risco de outras transexuais e travestis de sofrer de violência, insultos e discriminação.

Aí, temos os heterorromânticos. Muita gente pensa que esses são os assexuais que menos sofrem opressão quando estão em parceria amorosa. De fato, o casal heterorromântico não vai sofrer violência se estiver andando de mãos dadas na rua. No entanto, sua autoidentificação assexual - se resolverem "sair do armário" - não será compreendida pelos amigos, família e sociedade. Como existe a presunção da atividade sexual, se eles nunca se identificarem publicamente como assexuais, nunca serão questionados, pois todos pensarão que eles fazem sexo. Porém, a falta de desejo sexual e interesse por sexo ainda é patologizada em documentos importantes como o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Dou como exemplo didático, um casal casado, no qual um deles seja assexual e não pratique sexo com o parceiro. O parceiro assexual pode ser acusado pelo cônjuge de ter um transtorno mental que o cônjuge desconhecia antes do casamento, (o chamado no Direito de erro essencial). Isso dá base para a anulação do casamento, por incrível que pareça. Isso decorre da norma que estabelece que todo casal faz sexo. Ainda que possa haver dúvida quando são solteiros, quando se casam a presunção de sexo é de 100%.

E os arromânticos e arromânticas? Esses assexuais são cobrados desde muito cedo o interesse pelo sexo oposto. Eu entrevistei mulheres assexuais que me contaram que nunca se identificaram com parcerias amorosas. Uma delas me contou que desde criança, quando ela ia em casamentos, ela não via nenhum sentido naquilo, ela sabia que nunca iria se casar. Mas os adultos costumam dizer para a criança que isso vai mudar quando eles crescerem. Entram na adolescência vendo os amigos e amigas se interessarem por namorados, e podem sentir-se esquisitos, isolados, estranhos por não sentirem a mesma inclinação. Embora possa não haver uma pressão interna, existe uma forte pressão externa pela conformação ao padrão. Uma das mulheres arromânticas que eu entrevistei me contou que durante a adolescência, ela disse aos pais que não queria namorar para se dedicar inteiramente aos estudos. Na escola, ela era vista como nerd. Os pais tinham muito orgulho do sucesso acadêmico da filha e ela foi levando a vida até o final da faculdade. Quando se formou, conseguiu um ótimo emprego, aí começaram as cobranças dos pais que queriam um genro e netos. Esta jovem atingiu um grande sucesso profissional e material, viaja pelo mundo, escreve livros, dá palestras, mas quando vai visitar os pais, eles não perguntam sobre suas vitórias, mas perguntam se ela tem namorado, quando vai casar e ter filhos. Nenhuma de suas conquistas é valorizada porque ela não se casou e não teve filhos.

Os homens não têm tanta sorte na adolescência, ou seja, não têm a sorte de poder dizer para todo mundo que não vai namorar porque querem se concentrar nos estudos, pois os meninos - ao contrário das meninas - são encorajados a buscar sexo desde muito cedo; sofrem pressão dos amigos, do pai, dos tios, dos primos. O modelo de masculinidade hegemônica exige que os homens tenham forte interesse por sexo. Portanto, a masculinidade assexual seria considerada uma masculinidade menor, em comparação com a masculinidade hegemônica. E a feminilidade assexual que não deseja casamento e maternidade também sofre grande pressão e é considerada uma feminilidade menos feminina, pois casamento e maternidade ainda têm o status de missão de perpetuação da família nuclear tradicional e de ser o maior "sonho" de todas as mulheres.

Por último, um outro tipo de opressão relatada por meus entrevistados é a expectativa da atividade sexual por parte do parceiro não assexual. Para alguns e algumas, a ideia do sexo é muito problemática, causa angústia, tristeza. Muitos e muitas me contaram que foram abandonados/as pelos/as parceiros por não conseguir corresponder à expectativa. Algumas mulheres me relataram seu medo de nunca encontrarem um homem que as aceite como são. Não foi surpresa constatar que dos meus 40 entrevistados, mais de 80% não tinham uma parceria amorosa na época da entrevista. Mas nem todos se sentem infelizes com isso.

Portanto, os quatro pilares da sexo-normatividade, estabelecem padrões sociais opressores sobre as pessoas assexuais, conforme os exemplos mencionados, extraídos da minha pesquisa.

Nosso agradecimento à Elisabete por nos ajudar e nos representar tão bem. Você fez toda a diferença. Obrigada!



Do dia 23 a 29 de outubro é a Semana da Consciência Assexual. A Asexual Awareness Week - www.asexualawarenessweek.com - foi criada em 2010 nos Estados Unidos para aumentar a visibilidade da assexualidade. É realizado pelo menos um workshop, palestra ou apresentação sobre a assexualidade e ocasionalmente os organizadores entram em defesa dos assexuais na mídia e divulgam o tema na comunidade LGBT.

Nessa semana é recomendado que os assexuais:

●  Tenham uma conversa sobre a assexualidade
●  Contem para alguém que é assexual
●  Realizem uma apresentação educacional
●  Usem as cores que nos representam em camisa, broche, boné, etc
●  Ajudem um assexual
●  Distribuam material sobre o tema
●  Escrevam um post sobre assexualidade
●  Pesquisem na AVEN (asexuality.org)
●  Falem com a comunidade LGBT local

"Sair do armário" é recomendado, porque se ninguém falar, o assunto continuará desconhecido pela sociedade e por tanto o preconceito não será dissolvido. Os assexuais tem opiniões diferentes sobre isso. Confira alguns relatos do nosso fórum:

Acho que meus pais se sentiriam menos desconfortáveis se eu me revelasse homo afetiva do que assexual. Mas não sinto necessidade de assumir para eles. Acho que por serem pais, ficariam chateados. Como muitos progenitores, querem que todos os filhos procriem também." Ana K

Eu só contei para pessoas próximas e no geral agiram bem. Mas tenho a sensação de que eles acham que é frescura ou que é só uma fase." Xingmis

Contei e não tive problemas em me declarar. Obviamente que você vai encontrar piadas e pessoas dizendo que é só uma fase, que você não encontrou a pessoa certa. Ainda não fui considerado gay, mas creio que é porque sempre faço questão de diferenciar uma da outra quando digo. E comigo, pessoalmente, algumas pessoas vieram me perguntar a respeito da assexualidade, no sentido de curiosidade já que não conheciam o termo. Então para mim, foi uma experiencia positiva." Melquisedeque

Só consegui contar para uma amiga que sabia que entenderia e não faria perguntas, mas não pretendo falar pra mais ninguém. Já sabem que não quero casar nem ter filhos, então não preciso entrar em detalhes." Soledad

Não falo nem que todos morram de curiosidade de saber o porquê sou meio diferente. Se conto, com certeza depois ficariam comentando da minha vida pelas costas. Eu por exemplo não tenho família compreensível." Coke

Não vejo a necessidade de chegar e dizer: 'Sou isso'. Não entendo porque a sociedade padronizou que pessoas que não sejam heterossexuais têm que dizer para os outros com palavras claras 'SOU...'" Anônimo

Falei só para 4 pessoas e me arrependi. Basicamente ouço comentários do tipo: 'Assume logo que é lésbica e para de palhaçada', 'Fala isso porque não encontrou a pessoa certa', 'Já que é santa e não faz nada deveria ser canonizada', entre outros. Como recebi esses comentários em troca, decidi que só conto pra alguém se realmente for relevante." Misha

Contei aos meus pais quando fiz dezoito anos! Bem, foi tranquilo, já que eles tem mente aberta, e a cobrança por netos não viria mais pra mim, já que a minha irmã tem um filhote! Mas claro, antes de me descobrir assexual, tive dúvidas. Era adolescente, tinha toda aquela pressão social e tudo mais... Mas hoje, isso não me intimida de forma alguma. Me sinto feliz assim." Temphy


Nós aqui também fizemos nossa parte. Em 2015 alguns assexuais se reuniram nessa semana pela primeira vez em frente ao MASP, em São Paulo. Esse ano houve encontros em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Natal. Veja todas as fotos no nosso álbum: goo.gl/A8Zb1V



A pessoa descobre o termo “assexualidade” e, ao pesquisar sobre ele, finalmente entende a si mesma. É um grande alívio. Ela não está sozinha. Existem outras pessoas como ela, e, por fim, ela poderá ficar em paz consigo mesma. Será?

Após a descoberta da assexualidade, deparamo-nos com uma grande quantidade de questionamentos. É extremamente comum ver relatos de assexuais na internet apresentando dúvidas sobre uma possível “legitimidade” da sua assexualidade. “Eu posso ser assexual se eu for assim?”. “Ainda que eu me sinta de determinada forma, eu posso ser assexual?”.

 Masturbação  


Principal causador de questionamentos, muitos assexuais, em um primeiro momento, temem que o fato de praticarem masturbação possa significar que eles não sejam assexuais.

Em pesquisa realizada na AVEN (Asexual Visibility and Education Network), 70% dos assexuais do sexo masculino e 60% do sexo feminino afirmaram se masturbarem. Ocorre que a masturbação para o assexual possui significado diferente da mesma prática para os sexuais, pois o sexual geralmente pratica a masturbação como uma forma de simulação da relação sexual com outra pessoa, diferente do assexual.

“Mas ver cenas de sexo podem me causar excitação, o que me leva à masturbação”. “Pensar em coisas sexuais podem me servir de estímulo à masturbação”. Apesar dessa realidade entre alguns assexuais, esses exemplos não “deslegitimam” a assexualidade dessas pessoas. Muitas vezes, o erotismo desse tipo de pensamento ou cena pode servir como ativador da libido – presente em muitos assexuais - que leva à excitação e, consequentemente, à masturbação. Mas isso não chega a fazer, via de regra, com que a prática da masturbação para o assexual ocorra como uma simulação de relação sexual com outrem.

 Atração estética 


“Eu consigo perceber e admirar de forma bastante intensa a aparência física de pessoas de mesmo sexo que o meu ou do sexo oposto. Mas se o assexual não sente atração sexual, eu posso, então, não ser assexual?”.

Para entender a assexualidade, é necessário desmembrar alguns conceitos que costumam funcionar de forma conjunta para os sexuais. Da mesma forma que a atração romântica e a atração sexual são coisas diferentes para nós, a atração estética também pode se manifestar por si mesma sem depender da atração sexual e, por isso, não faz com que uma pessoa deixe de ser assexual pelo simples fato de sentí-la.

 Traumas e patologias 


Ao ler que "a assexualidade não é doença", algumas pessoas que se identificam como assexuais e já vivenciaram determinadas situações traumáticas ou que sofrem de certas patologias ficam receosas com a sua identificação assexual. Uma pessoa autista não pode ser assexual? Uma pessoa que já sofreu estupro não pode ser assexual?

Qualquer resposta generalizada que nós déssemos estaria errada, pois cada caso é um caso e não nos cabe julgá-los de forma geral. Mas é importante ressaltar, para responder essa questão, que o fato da assexualidade não ser uma doença não significa que pessoas portadoras de patologias e traumas não possam ser assexuais.

 Sexo 


“Eu não tenho interesse nenhum na prática sexual com outras pessoas, mas, em algumas da vezes que fiz sexo, acho que posso dizer que gostei. Posso não ser assexual?”.

Para responder essa pergunta, precisamos nos encaminhar para um último tópico:

 Assexualidade é uma forma de identidade 


Se você tentar encontrar uma base para o fato de você ser assexual na percepção da assexualidade que as outras pessoas possuem delas mesmas, questionamentos acerca da sua forma de identidade vão surgir, pois ninguém é igual a ninguém, logo, a sua percepção da assexualidade também não será igual à de ninguém.

Se você já se masturbou idealizando a prática sexual com outrem, ou mesmo se você já gostou de determinados momentos em que fez sexo, não necessariamente terá anulada a possibilidade de ser assexual, porquanto, além da existência da faixa cinza da sexualidade humana como estado intermediário entre a assexualidade e a sexualidade, não é o que você faz ou deixa de fazer que o torna assexual, mas sim o que você é. Não existe um diagnóstico ou mesmo um conjunto de características pré-determinadas para dizer se você é assexual ou não, pois assexualidade é como nós nos sentimos, como nós nos identificamos.